segunda-feira, 31 de março de 2014

Motivo Especial

Passarela de pedestres em cima da avenida 23 de maio, é um bloco de concreto que os meus amigos tentam me convencer de que balança, as pontes todas moles, senão quebram. Vou atravessando na garoa gelada pensando que pedestre é muito parecido com cipreste, e tento pensar um trava-língua: os pedestres apedrejam os ciprestes, ou os pedestres nos ciprestes com os tigres tristes. Quando eu era pequena achava que tinha um órgão da prefeitura – a prefeitura era a autoridade máxima – responsável por pensar piadas e charadas, porque quando os civis tentavam criar parecia que faltava técnica.
No meio dos pedestres e dos meus ciprestes encontro de repente um anúncio molhado e rasgado, colado na mureta em três vias de folha de impressora – tentei escrever agora folha de "sulfite" mas o Word está dizendo em vermelho que "sulfite" não é palavra que se diga. “MOTIVO ESPECIAL - Procuro Josely (Jô)! Por favor! Me ajude! É muito importante! Costumava morar entre os bairros Jardim Luso e Jardim Miriam ou próximo ao Carrefour da Av. Cupecê.” Embaixo, dois números de telefone e um nome de homem.
Josely acordou um dia e feito uma cadela desembestou sem coleira pela fresta do portão e se acomodou em outro canto de São Paulo, deixando marido e criança doente. Talvez tenha perdido a memória e esteja começando tudo de novo na casa de uma senhora que precisava de uma mocinha para cozinhar.
Quem sabe Josely tenha um dia aberto a correspondência que não devia e saiu de mochila deixando a carta dramaticamente aberta sobre o travesseiro. Ou pode ser que Josely tenha viajado para Pernambuco e voado num tapete mágico com o homem dos sonhos e cinco anos depois ele aparece em São Paulo e não encontra em nenhum endereço a sua Josely, que tinha os cabelos até a cintura e usava um vestido florido, mas nesse frio deve estar com um casaco daqueles azul-cintilantes que estufam.
É muito importante, ele diz, e pode ser que tenha notícias sobre parentes distantes, ou quem sabe Josely foi embora com uma boneca de infância onde tinham escondido diamantes, ouro, ou drogas caríssimas, e ela a essa altura sem entender nada presa na rodoviária com a bonequinha em frangalhos. Deve ser que Josely tenha um filho em coma há vinte anos que acordou e pede a mãe em gestos de bebê.
Pode ser que o motivo especial seja apenas encontrar Josely, fazê-la sorrir entre as argolas dos brincos e o cachecol vermelho que ela quase esqueceu no trem naquele dia do jogo, dizer que não precisava ter sumido assim, esperar que ela desmanche o sorriso para fazer um bico de raiva, de uma raiva que já passou há muito tempo mas não a ponto de voltar ao Carrefour na avenida Cupecê e esperar por um buquê de flores. Muito especial a vontade desesperada de explicar qualquer coisa, de chorar no ouvido perfumado e espiar o livro colorido que ela carrega numa sacola molhada junto com o guarda chuva. Alisar o cabelo da Josely que ela deixa preso numa piranha que muda de cor com a luz do sol, e comentar que ela fica bonita de óculos – e então ela vai tirar depressa, e enfiar também na sacola molhada. Encontrar Josely tomando café com leite e bolo de cenoura num balcão, olhando para a televisão que mostra o trânsito matinal, e sentar como se ela fosse uma mulher qualquer, e não Josely. Esperar que ela olhe por acaso para o lado e engasgue, tussa, chore assustada e rindo gargalhadas aos soluços até se entregar num abraço apertado de jaquetas.
Desço da passarela e vejo as mulheres do ponto de ônibus. Não posso passar mais um dia sem encontrar Josely.

4 comentários:

lucas fábio disse...

amor, essa estória ficou uma delícia, mas está meio difícil de entender.. talvez se você marcasse um pouco melhor as digressões do começo (não entendi direito a parte da passarela que balança...)

Mari Carrara disse...

tentei arrumar. Mas você faz parte do conceito de homens que dizem que as passarelas balançam!

Stella Polaris disse...

oi, valeu pela visita e pelo comentário!
gosto muito daqui, mas geralmente espio e fico em silêncio. suas palavras tocam.

Stella Polaris disse...

hoje só que li o texto. fantástico. verdade.