sábado, 14 de março de 2015

Segredos Coletivos

Você prosaicamente procura o outro pé do sapato na pressa do elevador que você já deve ter chamado, termina o copo de leite, enxuga a mão na roupa, e é provável que não pense em nada, só em correr, e chegar singelamente ao trabalho, e eu fico pensando que nunca houve sintonia, que a gente começou a ouvir uma música juntos, mas nunca encontrou propriamente a estação, e a música ficou lá, num discreto chiado, sem que a gente movesse o botão desse rádio nem pra frente nem pra trás, ficamos assim em desajuste na ilusão de que o importante é estar ouvindo de alguma forma esse som que a gente não consegue saber de onde vem, nem desligar, nem aumentar, nem arrumar.
A vertigem que ataca o início de um sono vespertino. Quase dormir mas despertar a tempo de concluir que se vai de fato dormir e que a sensação é de queda, como se o sono da tarde fosse um buraco, um salto do colchão para dentro da cama, uma escorregada na espiral infinita do universo das molas, é essa a cumplicidade que eu preciso ter com as pessoas, é preciso que elas também reconheçam nelas essa vertigem logo antes de pular para o sono, a cumplicidade nesses pequenos fenômenos íntimos, e você parece que escapa de todos, nós numa total dissintonia.
Cumplicidade também nos fenômenos de infância, esses que vão nos compondo aos poucos, você contornou todos eles, você parece que não tem os seus segredos coletivos. Esses segredos que eu chamo de segredos porque ninguém fica falando deles, e de coletivos porque muita gente sabe, todos sentem, a vertigem antes do sono da tarde, o perigo de uma mão surgir do fosso do elevador tateando o buraco da ventilação, ou de aparecer mais uma pessoa na imagem do espelho, ou de um semiconhecido sentar do seu lado no ônibus sem quase nenhum assunto, de morrer de repente com a roupa íntima não muito limpa a ponto de as pessoas da autopsia, do hospital, ou seus parentes concluírem que uma pessoa com esse cheiro nem merecia de fato viver.
Talvez este da morte sem banho não seja tão coletivo assim, mas de toda forma você não tem, nem esse, nem qualquer outro segredo fenomenológico que nos coloque em sintonia ou cumplicidade, você sai e volta sem que nenhum detalhe da existência tenha trazido você pra mim durante o dia.
No banho o condicionador escapa em excesso na minha mão. Aperto o tubo instintivamente criando um prenúncio de vácuo e encosto a boca do frasco na minha mão recolhendo de volta o que não vou usar. O frasco suga o condicionador da minha mão feito um animal aos soluços, espasmos de afogamento, e fico pensando se você possui esse segredo coletivo, se você sabe recolher de volta o condicionador que saiu a mais, essa sabedoria que ninguém transmite, que vem da física simples que foi se construindo em nós conforme apertamos frascos, experimentamos diferenças de pressão, e concluo que não, você vive assim livre de empirismos, foge às sabedorias íntimas que não vêm nas notícias nem nos livros, e fico pensando se o mundo não se divide justamente entre pessoas que sabem colocar o condicionador de volta, assim nessa violência sofrida do frasco sufocando na palma da mão, a tomar fôlego com a boca emborcada no que ele próprio cuspiu, e pessoas que simplesmente jogam o excesso no chão por não visualizar qualquer outra possibilidade. E nem sequer pensam que há pessoas que pensam nisso.
E então você provavelmente está desse outro lado do mundo, o mundo das pessoas que não têm segredos coletivos, e que jogam o excesso do condicionador no chão ou mesmo ensebam os cabelos, e que não pensam que há pessoas que pensam nisso, não pensam que há pessoas que pensam na vertigem do sono da tarde, e na aflição de olhar muito tempo um quadro de Jesus temendo que ele possa piscar, e na angústia de não saber se aquela senhora que entrou no metrô já percebeu que é idosa há tempo suficiente pra não se ofender se você ceder o assento, e depois na angústia de imaginar o dia em que alguém lhe ceder o assento pela primeira vez, e ficar pensando se você já terá se acostumado com sua própria idade antes que alguém lhe surpreenda com isso, e no meio desse pensamento não ceder o assento, apenas levantar e sair, na esperança de que ninguém o ocupe, apenas aquela senhora que talvez ainda não seja tão senhora assim.
Você está aí, desse outro lado, no mundo das pessoas sem segredos coletivos e talvez esteja aí nossa dissintonia, esteja aí a razão de eu sentir tanta cumplicidade em todo o resto do mundo que não é você. Daí eu chego do trabalho e você já está aí sorrindo com toda a sua leveza, e pelo menos eu posso imaginar que quando você fica aí olhando a janela não está pensando em todas as pessoas que vivem nesses tantos apartamentos e se perguntando se alguma delas não poderia te fazer mais feliz, você não deve estar fazendo isso porque é isso que muitas pessoas fazem, em segredo coletivo, procuram outras janelas onde mora uma felicidade ideal, e daí você vem na minha direção com um copo de alguma bebida e eu fico ouvindo esse zumbido que é a nossa musiquinha fora de sintonia, a música que a gente acaba gostando tanto de ouvir, e que se um dia desaparecer vai ficar um silêncio muito doído, mas que eu também vou me acostumar, porque a gente vai se acostumando com os silêncios que as pessoas deixam quando vão embora, difícil é se acostumar com a música fora de sintonia que na verdade talvez sejam nossas duas músicas tocando ao mesmo tempo e a gente nunca tenha reparado nisso, que estamos ouvindo coisas diferentes, juntos, e você me dá um gole do que está bebendo, e tudo pra você parece estar perfeitamente bem.
E você entra no banho, e eu passo o tempo do seu banho pensando em perguntar o que você faz quando o condicionador sai em excesso, e fico pensando que você pode responder que isso nunca aconteceu, o que seria um completo absurdo, um sinal chocante de que você se adapta imediatamente às novas situações da sua vida, em qualquer quantidade, ou mesmo você pode me responder que não faz nada, que só lamenta, e quando você sai do banho eu concluo que não é seguro fazer essa pergunta, porque talvez eu queira continuar ouvindo nossa música sem sintonia, e que talvez você depois do banho dê alguma risada silenciosa olhando a tela do seu celular e isso seja algum segredo coletivo só seu, dessa sua parte do mundo em que eu não vivo, e quem sabe a gente possa viver assim, sempre assim, pra sempre.


sábado, 7 de março de 2015

Março


O problema não é que ela ficou esperando mais de cinco horas, o problema talvez tenha sido a espera de tantos anos, pelo menos é isso que os policiais dizem, eles demoraram pra vir buscá-la, mas ela demorou muitos anos pra levantar essa cabeça, esse olho que já nem é roxo, é de um azulado escuro da mistura dos roxos passados que já pretejaram, esse lábio que já nem é rachado, é um lábio rompido, um rombo coagulado e seco de gritos interrompidos, um lábio aberto. Ela demorou demais e agora que chegou aqui eles podem demorar o quanto quiserem porque não estão lá para muitos milagres, sabe-se lá se eles mesmos não andam rompendo os lábios a azulando as molduras dos olhos das mulheres que eles têm guardadas em casa.

As viaturas piscando silenciosas na noite, e ela ali envergonhada diante do portão da oitava repartição que procurou no último semestre, desfilando suas narrativas que de vez em quando ganham mais detalhes, mas outras vezes se tolhem doídas, a depender do olhar que lhe pousam, a depender das perguntas, a depender do que as crianças presenciaram, e de quem ficou a cuidar das crianças, e de quem arcará com as crianças, e de quem Jesus ama e quem Jesus talvez não ame, e a depender de quem as crianças serão um dia, e de quem ela pensa que é para ir de novo aborrecer o delegado, que insistência, ou de quem ela pensa que é para chegar em casa tarde, e a depender de quais vizinhos escutam o grito, e agora ela ali em pé sem querer discutir, já que as viaturas vieram em três ou quatro homens muito indispostos a levá-la sequer ao primeiro endereço informado cinco ou seis horas atrás por uma pessoa qualquer dessa repartição que os policiais nem bem aprenderam o nome, e que na cabeça deles é uma repartição que solta bandidos para depois pedir socorro quando eles agridem suas mulheres, e talvez seja mesmo, porque é uma repartição de liberdades, não de milagres, embora pareça uma Igreja, e talvez tente ou precise fazer muito mais do que Deus tem feito.

O segurança dessa repartição inominada tinha ouvido a história dela durante as últimas três horas, uma conversa assim informal, conversa de gente meio sentada meio de pé, porque ele tem uma banqueta dessas que deixam as pernas quase esticadas, para que se possa de pronto levantar e intervir numa grande emergência, ainda que não haja muito o que ele possa fazer numa grande emergência, fora estar simplesmente pronto pra ela, e ele assim metade sentado tinha ouvido tudo que ela tinha resolvido contar também pra ele, por tédio, confiança, ou necessidade de justificar o alvoroço, enquanto as luzes foram apagando, a cidade foi aquietando e ela foi ficando mais emocionada e mais sozinha. E a história no começo tinha parecido igual à de tantas mulheres que vão ali todo o dia, mas talvez porque tenha anoitecido, ou porque ela estivesse contando só pra ele, começou a lhe parecer que fosse uma história especial, ou que todas as histórias daquelas mulheres fossem especiais, e que pudessem todas morrer antes do próximo atendimento.

O segurança deve ter dito ao policial, quando ele finalmente chegou, que não custava nada levar a moça até a casa dela, pegar só uma ou outra coisinha, os documentos das crianças, ou mesmo as crianças, umas roupas, senão o homem queimava tudo, tudo mesmo, seria uma entrada rápida, sem cerimônia, não é questão de fazer mala, não é serviço de agência de viagem, imagine uma coisa dessas, como ela vai pra outro lugar assim sem nada. E eram três ou quatro homens indispostos a interferir num relacionamento que não era o seu, como se isso fosse assunto de relacionamento, indispostos a entrar assim na casa de outro homem escoltando sua mulher por entre os escombros da última briga, da última luta, para levá-la dali em suposta segurança, para algum lugar onde não haja isso que até hoje chamaram de amor, onde ela possa tentar refazer qualquer pedaço de si que ficou perdido dentro daquela casa, e eles disseram que não, talvez porque estava tarde, talvez porque agora aquele homem, aquele marido, talvez aquele mesmo que eles surram, torturam, escondem quando invadem a favela, agora ele tem uma dignidade, e não se entra na casa dele de noite, a casa que fica subitamente sendo dele, para levar dali algumas coisas, e levar também a mulher dele, ou talvez nem seja um desses que eles torturam, seja um religioso, um homem de bem, um homem tão de bem.

E é muito tarde, ela sente um sono impossível, uma vontade de não existir, o segurança pressente um desmaio dela e a firma pelo ombro, depois traz uma água, o segurança que pode ser que nunca tenha batido em ninguém, e ouviu a história dela inteira durante muitas horas meio sentado, meio de pé, e talvez comece a se odiar, e a odiar os homens, e à guarda civil, e à polícia, porque é difícil olhar aquele olho preto-azulado inchado de um soco que deve ter arremessado a cabeça dela no armário, um armário com as roupas de duas pessoas que vivem miseravelmente juntas, e esse lábio rompido, ela inteira rompida tentando aos poucos acreditar que ainda consegue ser alguma coisa se sair viva de tudo aquilo. O segurança traz água, e talvez diga que está tarde e que é melhor que é ela vá com eles pra esse outro lugar, só dormir, e amanhã cedo a repartição inteira estará aqui pra ajudar, e outras mulheres com os olhos assim, ele pode ter dito, vocês todas juntas na fila marcadas nos olhos, como se fossem um time, uma equipe de mulheres marcadas que vêm atrás das suas cirurgias, arrancar esse cancro de testosterona e ideias difíceis de serem domesticadas, um time inteiro, os olhos roxos parando aos poucos de chorar, visualizações de uma vida que seja parecida com uma vida, você volta amanhã com todo o time, e daí eles vão te levar, você vai ver, a polícia vai buscar tudo direitinho na sua casa, agora melhor dormir.

E talvez ela tenha pensado que dormir fazia pouco sentido se você não sabe o que vai acontecer amanhã, porque dormir é só uma preparação, uma pausa, para que o dia seguinte seja possível, mas ainda assim ela vai, e pode ser que o policial, ao ver o segurança com a mão no ombro dela e o copo d’água, pode ser que ele tenha achado que era até razoável passar na casa dela e pegar um par de coisas, o uniforme e as meias dos filhos que devem estar com a irmã dela, se ela tem uma irmã, esses filhos que é importante que amanhã tenham o uniforme pra não parecer que as coisas estão sendo feitas assim às pressas, no improviso, para não parecer que existe o medo. E pode ser que ela tenha entrado na viatura e, embora cercada de tantos homens indispostos, indispostos mesmo sendo março, mesmo sendo quase 8 de março e a cidade estar repleta de cartazes da semana da mulher,  talvez ela tenha aos poucos parado de chorar, e enfrentado a extrema solidão que é isso de precisar dos outros para exterminar um problema tão dela, um problema que mora na cama dela, que manipula as facas da cozinha dela, um problema que ela amou tanto, e que ainda faz tantas promessas, promessas que  depois mistura com ameaças, um amor desesperado e que é preciso muito cartaz e muito olho roxo pra entender que não é bonito, nem é o único.


E talvez aqueles três ou quatro homens nas duas viaturas tenham decidido, por fim, que era possível passar na casa dela, e quem sabe um deles tenha olhado pra trás e dito que ela podia abrir a janela se quisesse. E ela baixa o vidro, e a viatura com as luzes piscando atravessando as avenidas, trançando os carros na súbita pressa de um milagre que vai finalmente acontecer, e ela sente o impacto do banco nas rodas e das rodas nas lombadas do bairro, o carro com cheiro do ferro da grade atrás do assento, das algemas, cheiro de sangue velho, e põe o rosto pra fora e fecha os olhos pra sentir as luzes da viatura piscando por cima do inchaço azul como se fossem infra vermelhos raios lasers de cicatrização, e quando ela abrir os olhos talvez acredite que está acontecendo, que está começando alguma outra coisa, que é março, que é semana da mulher, e que todas as semanas deveriam ser da mulher, e que talvez de hoje em diante sejam.