terça-feira, 29 de outubro de 2013

Essa mãe

(foto por Jim http://www.unprofound.com/viewpic.php?pic=abandoned.jpg&photographer=jim) 
Chamo uma senha e ela que lacrimejava discreta na fila senta na minha frente e inicia um choro infantil e inconsolável que atabalhoa o relato já excessivamente minucioso e meândrico. Como se ela tivesse decorado o número da senha e aguardado por horas até que algum atendente o chamasse e seria nesse momento que encararia de frente o seu desespero. Na fila talvez ela tentasse se distrair com os assuntos das outras mulheres, seus divórcios, suas casas, contratos, vizinhos, suas fomes, suas crianças sem pai nem nome, ela tentando escutar as explicações nas mesas e pensando que talvez seu problema não caiba nesse lugar; ninguém parece ter os olhos assim tão sem repouso, todos ali estão cheios de razão na luta por um direito que agora ela parece que precisa rechear de volteios e epígrafes pra me convencer, e a si mesma, de que é de fato seu. 
Ela sentada sem de todo chegar a sentar bem na minha frente e seus brados sobressaem entre os tantos atendimentos quase pacatos, resignados, e ela diz que não tem culpa, mas quanto mais repete mais eu sei que tem toda a culpa do mundo e eu quero que ela saiba que eu não me importo com isso, que dali em diante eu lhe dou toda a razão e que de qualquer forma ela não precisa da minha razão, mas não consigo dizer porque estou paralisada imaginando que talvez eu não possa fazer nada por ela. 
Como ela se detém em cada passo anterior ao trágico incidente, fantasio a hipótese do problema ao longo dos detalhes, feito um médico eliminando diagnósticos na sequência de sintomas, Eu avisei minha mãe que ia sair, mas teve um problema de comunicação -- e então ela retoma de outra forma a mesma passagem como se tivesse ensaiado muitas vezes dentro da cabeça e agora não perdoasse o mínimo deslize --, E eu tinha emprestado o celular para o meu irmão e ele trocou o chip e por isso eu não recebia ligações. Por uns instantes ela quase me convence de que uma confluência de fatalidades gerou O Problema, mas no meio do choro convulsivo percebo uma dor infantil de quem não esperava que as coisas um dia fossem chegar a esse ponto -- ou pior, esperava --, e ela que era uma menina foi ficando cada vez mais nova a ponto de eu ficar cada vez mais velha, e maternal.
Ela conta que se arrumava pra sair e sua mãe perguntou "Você vai lá?", e ela respondeu que ia lá porque achou que "lá" seria "sair", mas a mãe entendeu errado. Imagino a menina se arrumando para sair, para "ir lá", o batom rápido no espelho, o mau humor diante da pergunta da mãe que para ela é evidentemente uma censura, e ela amassa os cachos molhados e grudados de um creme frutado, as tiras da sandália já doendo nos dedos, a unha deve ser azul-claro com brilhos, e pega a bolsa e bate a porta e vai descendo as escadas de um edifício barulhento e escuro, várias famílias acampadas pelos corredores, até chegar na avenida onde muito tempo depois passa um ônibus que a traz de volta às cinco da manhã, sem celular, sem casaco, bêbada, solitária, suja, para dar de cara com a mãe incrédula a perguntar: "Cadê o bebê?" 
E repete para mim várias vezes essa parte, Cadê o bebê?! E explica que ela tinha dito para a mãe mil vezes que ia sair e que era para ela buscar o bebê na creche, mas quando a mãe disse "Você vai lá?" e ela respondeu impaciente que "sim", já cortando o assunto, o trato se desfez e ninguém buscou o bebê em creche alguma. Imagino as famílias nos corredores do edifício se avolumando em volta da moça, os olhares, os gritos às cinco da manhã, ela que já era indesejada no local com o bebê que chora e essas baladas, madrugadas, brigas. Fico pensando se quando ela saiu pra dançar ela cruzou na escada com alguma criança mordendo um brinquedo e pensou no filho e teve medo de que a mãe não tivesse entendido, mas pensou também que subir e esclarecer seria trazer à tona novas brigas, a mãe diria que não ia buscar criança nenhuma, que o filho é dela, e então isso seria um fato, não seria um mal entendido, ela teria de deixar de buscar porque quis, e então era melhor continuar descendo as escadas protegida na ideia de que o filho estaria magicamente em casa quando ela chegasse, ou quem sabe se não estivesse isso seria um problema para resolver de manhã.
Talvez ela me veja sentada atrás dessa mesa como espécie de anjo, heroína, com um computador mágico onde digito o nome da criança e descubro no sistema onde ela está, mas começo a fazer perguntas sobre os lugares em que ela pode ter procurado e ela chora mais, ela própria uma criança frustrada diante da única solução que tinha planejado a manhã inteira naquela fila: eu. Ela não tem onde pôr os olhos, nem os braços, e já não liga que todos escutem o seu desleixo, a sua falha, a sua noitada maldita, Cadê o bebê? Cadê o bebê? Ela pergunta alto e chora e talvez dessa vez a pergunta seja pra mim e faço ligações, muitas ligações e continuo sem saber cadê o bebê. 
Pela quarta vez conto a história ao telefone e anoto algum outro número, outro Conselho Tutelar, e a palavra Conselho parece reverberar na cabeça da moça, pensando que precisa de conselhos, muitos conselhos, e eu lembro que ela deve estar sem dormir há muitas e muitas horas, talvez ainda esteja bêbada, e penso também que tenho um milhão de pessoas para atender que talvez só precisem agendar um divórcio rápido e o tempo está correndo. Ela vai escutando eu contar e recontar a história que na verdade é a história dela e sinto um olhar de cumplicidade quando ela percebe que eu floreio os fatos para mitigar toda a culpa, E o irmão trocou o chip... 
Quando finalmente o conselheiro certo atende o celular é com revolta descontrolada que ele grita que essa criança não volta mais, que se depender dele não volta, e eu tento não alterar o tom de voz porque a menina com os olhinhos vidrados em mim tentando adivinhar a notícia, Mas o irmão trocou o chip e. O conselheiro parece estar no meio do barulho de muitos ônibus e até sua voz é suada de sol e multidão, e por ele fico sabendo que essa mãe -- é assim que ele a chama, essa mãe -- não mora mais na invasão onde morava e ele passou a manhã inteira procurando por ela. A menina tira da bolsa um papelzinho amassado com o endereço e diz que teve de mudar de invasão, e eu imagino de novo a sua expulsão, baladas, brigas, bebês, depois penso que talvez não fosse balada nenhuma, que a menina "ia lá" trabalhar, madrugada inteira, homens, os mais variados homens, embora quase todos iguais, em cima dela, essa mãe, essa menina com esse filho, Cadê o bebê, que não sei se veio do trabalho dela, não sei se valeu cinquenta, setenta reais, ou se foi de um amor qualquer desses jovens que desaparecem, esse pai, ela maquiando o olho num espelho quebrado, as famílias circulando pelos corredores, ela pendura na janela o vestido da noite anterior pra aliviar o cheiro de cigarro e volta às cinco da manhã rasgada, suada, sozinha demais, algum dinheiro no bolso da saia jeans, vários lances de escada até chegar no seu cantinho, Cadê o bebê, como se ela não tivesse imaginado que seria assim, como se esse bebê não fosse metade dela e metade do mundo que ela queria que ajudasse a criar, os bebês deveriam ser de todos, e agora ela aqui querendo de volta, Mas o senhor não imagina a fila que ela pegou pra falar comigo, e o conselheiro insiste que vai entregar para o judiciário, Cadê o bebê, e o bebê está em algum lugar na Avenida Sapopemba, mas não adianta correr lá, essa mãe, Mas senhor é só uma menina, Essa mãe.
Ao fim consigo que espere exatamente onde está porque ela vai encontrar com ele para conversar, ela vai agora, correndo, faço um desenho no mapa, é perto, mas ela demora a entender, chora e me agradece, como se alguma coisa estivesse resolvida, a confusão do sono, os braços segurando a bolsa em concha como se já fosse o filho, quer me abraçar mas eu não abro o braço e ela não solta a bolsa, tento apressá-la e ela não vai, explico que talvez não seja tão simples, mas que pode ser que as coisas mudem. Que hoje todas as coisas tenham que mudar, e que pode ser bom, que é tempo de repensar tudo, depois vejo que eu não sei de nada, que ela já viveu e pensou todas as coisas do mundo, essa menina, essa mãe, ela vai correndo e eu demoro a entender o que quer o próximo da fila, uma mulher larga e séria, e quando finalmente a olho nos olhos ela balança a cabeça indignada, Que absurdo largar o filho assim, essa mãe.

domingo, 22 de setembro de 2013

Janelas

As pessoas com suas janelas, é isso. As pessoas trazendo de tempos em tempos as suas janelas e depois levando embora, às vezes pra sempre, e a gente vai acumulando vistas de tantos bairros, tantas chuvas feias de cimento e trânsito, jogos de luz e sol que nunca mais a gente vê, vão ficando atrás dos olhos, cortinas pesadas cobrindo essas janelas que não tenho mais. 

Talvez se a gente tivesse mais cuidado e não fosse assim subindo tão logo nesses apartamentos e abrindo persianas e apoiando, parapeitos, camas, se a gente não fosse logo vendo o mundo assim da janela dos outros, enquadramentos, ventos, vizinhos, de noite no teto o desenho rítmico da sombra dos carros cruzando os fachos, faróis, se a gente não abrisse a janela e não quisesse de repente abri-la todos os dias, ver como amanhece essa vista todas as manhãs, o barulho dos ônibus, o apego. 

As janelas que muitas vezes eu busquei quando a vista de dentro era insuportável, ou quando já não tinha nada pra olhar, essas janelas de amplidão, fugas, saltos que nunca dei, eu que nunca soube ser ausência nem contemplação. Essas janelas que eu não vi mais e às vezes me pergunto como é que vendo todo dia o mesmo mundo na mesma altura as pessoas conseguem não virar uma só, como é possível continuar tão diferente, o que será que os outros olhos viam nas suas próprias janelas que eu nunca consegui ver. 

Quem é que um dia vai me devolver tanta vida, tanto mundo, prédio pássaro flor e chuva que me foram tapando, quem é que vai me devolver meu pulso apoiado firme no ferro gelado da varanda, a testa marcada da rede de proteção, quem vai me construir a maior janela do mundo e não vai fechar nunca. 

Mais uma janela nova que eu abro, visão que eu sei que logo vai sumir e ainda assim eu abro, pandora das dores do mundo, a janela com seus medos que eu não consigo sustentar, nem curar, e quanto mais eu olho mais os medos vão ficando meus, as dores, os mesmos desesperos no cálculo preciso da mesma vertigem, e eu sigo abrindo a janela até que ela já não abra, e pensando que talvez agora, de tanto ver o mesmo céu, perigosamente a gente os mesmos olhos, o mesmo olhar, e a mesma queda. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os casais nas mesas




A cada três minutos o telefone toca em todas as salas e eu me pergunto se alguém de fato atende. A funcionária disse pra ficar tranquila que não é pra eu atender, mas quem é que fica tranquilo com uma coisa dessas.
Os casais nas mesas ao lado -- mesas da repartição, não são mesas de bar, café ou restaurante -- discutem os detalhes do divórcio. A criança Joyce-Silva-de-Souza se distrai com o grampeador e o senhor Jose-Olímpio-Souza diz para a ex-mulher que ele não tem dinheiro para a pensão da menina. Nem nunca terá, Joyce não precisa de muita coisa.
Preencho o formulário e penso como as coisas deviam ser quando fizeram a Joyce-Silva-de-Souza, e tenho raiva porque as pessoas transam todas iguais, mas às vezes tenho raiva porque na verdade fazem todas muito diferente. Cansei de estranhar as pessoas, e também de estranhar esse lugar.
O telefone de novo bem alto e na mesa ao lado o homem diz que a culpa é dela que sempre mentia e eu quero dizer que não interessa de quem é a culpa porque a culpa é dos dois que estão aqui atrasando o almoço de todo o mundo, Lindinha, devolve esse grampeador pra mim, por favor!
Os casais nas mesas ao lado -- e dessa vez são sim mesas de restaurante -- discutem os detalhes do divórcio embora talvez não percebam que é isso que estão fazendo, as mulheres se distraindo com o guardanapo. Eu me preocupo com a saúde das pessoas porque quero que vivam até os 90 anos pra ficarem mais tempo comigo mas elas não sabem nem se querem ficar comigo até o mês que vem. A maioria não quer.
Joyce ainda se distrai com o grampeador enquanto distribuo seus finais de semana e sua mãe talvez se distraia pensando que se sentirá sozinha.
Os vovôs e as vovós são quase todos juntos e nunca discutiram o divórcio, os vovôs desde meninos aprenderam a enganar as vovós, e as avós a torcer e esperar pelo encanto e bênção de não serem enganadas e agora que a gente aprendeu a não esperar e aprendeu também a discutir os detalhes do divórcio, agora quem será que a gente vai enganar? O telefone mais uma vez e não acho o carimbo no meio desses papéis, MENINA me dá AGORA esse grampeador!
Se todas as manhãs nas mesas dessa repartição há tantos casais discutindo os detalhes do divórcio e da pensão feito uma igreja maldita a separar até que a morte una, a apaziguar o que Deus juntou nesse sacrossanto descuido milenar, do que é que gente vai falar nas mesas dos restaurantes, quem é, meu Deus, que a gente vai enganar?
Os telefones não param de tocar em todas as mesas, e não é da repartição, são as mesas dos restaurantes, enquanto os casais discutem os detalhes do divórcio sem perceber que é isso que estão fazendo, e a criança de vestido florido não quis terminar o frango e está se distraindo com a faca.  




(personagens, repartição e pessimismo totalmente fictícios)

sábado, 27 de julho de 2013

Inverno Pessoal




De repente aparece um sol e é como se eu descongelasse devagar, e descongelar dói muito, os dedos, os pés, até a barriga num formigamento, chego a pensar se eu quero, se eu consigo mesmo esquentar, voltar, aceitar esse sol e a vontade – e a obrigação – de movimento que ele traz.
Meu inverno pessoal que me acomete de muitos em muitos anos, feito uma Copa, um Cometa, e me paralisa. Vou ficando opaca, sozinha por todos os lados e até mesmo por dentro, um inverno que me leva de mim e quando devolve é nesse sol lento e ainda gelado e eu demoro a saber que estou de fato de volta, e por um tempo ainda vou achar que não estou.
A paisagem já não é a mesma e aqueles tantos projetos que eu talvez chamasse de sonhos sem saber que projetos são sonhos muito mais maduros, eles todos sumiram, não adianta descongelar que eles já buscaram abrigo nas mentes que estavam prontas e firmes.
Eu perdi. E perdi pior do que perder dos outros – todos os dias sabemos que há outros tão melhores –, eu perdi de mim mesma, para o inderrogável espectro de mim, de um passado cheio de um futuro quase glorioso.
E não importa o quanto eu corra e grite e ferva debaixo desse sol que volta tarde demais eu mesma já me derrotei nesse longo inverno pessoal e o que quer que possa brotar dessa devastação não parece vir de mim, nem parece quente, nem parece vivo. O que eu faço agora debaixo desse novo sol é um simulacro ainda frio de um tempo morto.  

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pasta Azul





Se eu soubesse que a gente tinha tão pouco tempo eu jogava no ralo do pátio de pedra aquela sua pasta azul – uma pasta de plástico azul, não era? – com os textos enfadonhos, catedráticos, dogmáticos, absolutamente estáticos que arrastavam nossas tardes – por que é que a gente não percebia que eram nossas-tardes-livres? – doendo nos ponteiros que a gente não sabia domesticar nem cuidar: esses nossos ponteiros trágicos.
Se eu imaginasse que era tão pouco o nosso tempo até o dia em que o tempo já não era nosso eu tinha congelado a gente naquelas arcadas até refrescarem nossas olheiras roxas de festas imundas, entediantes, imprecisas e ficar só aquele seu sorriso no meio do cabelo molhado, aquele seu sorriso que era quase um grito doído de quem tinha atravessado vinte voltas dos ponteiros sem conseguir terminar ou aceitar qualquer dos textos da pasta azul. 
E logo eu, que não sabia nada disso e sob o peso dos textos não lidos tentava levar você pelos caminhos vertiginosos dos meus ponteiros, logo eu que tentava te proteger da paz, do lar, da independência, logo eu que o tempo todo tentei proteger você contra a proteção, mas eu que agora numa mesa qualquer distraidamente arranquei todos os espinhos da rosa que era pra ser sua, logo eu que deixei a rosa completamente inofensiva pra você, acabei ficando eu mesma com ela e não soube cuidar nem por uma noite.
E hoje em tempos de legiões urbanas diversas, que a gente tenta discutir e escolher um ponteiro que nos sirva, nesses tempos de sempre de rua, polícia, drogas, faixas, brados, leis e cadeias, nesses novos tempos nossos que talvez sejam igualmente curtos sem que a gente saiba – qual será a pasta azul que nos tem pesado inútil na mochila? –, logo eu que só queria chegar logo na placidez desse futuro certo pra enfim poder enlouquecer em paz, logo “eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir”.

domingo, 5 de maio de 2013

Casa do Amor III




O que será que dá nos móveis que se eletrizam, repelem, que será que dá nas paredes que se engrossam e apertam, justamente quando a casa está tão linda. Quando tudo é bonito, nas cores certas, nos silêncios adequados, o que será que dá nas janelas que enquadram vertiginosamente as ruas como se lá fora estivessem todos os melhores caminhos.
Quando os espelhos sintonizam os abraços mais naturais, depois do café da manhã, os abajures na parceria das leituras, das refeições, que será que dá no armário que começa aos poucos a cuspir as roupas, amontoá-las no seu desejo secreto de mala, o que há nos casacos que se dobram imperscrutáveis na melancolia das gavetas de alfazema e camomila rosa. Quando toda a casa dança nas melhores músicas, descansa serena nos mais impecáveis lençóis, o que é que dá na cama que endurece, congela, expulsa noite a noite quem já nem dorme nem sonha.
O que será que dá em nós que não há dentro nem fora que acolha, não há haste que sustente o fardo imenso da bandeira branca. E o que será que dá no baque da porta que derruba os quadros, desfigura os quartos, paredes, descasca a tinta, trinca as janelas, e já não se pode voltar, mesmo que tenha sido só um passeio noturno de gata assustada, já não há lençóis, nem música, já nem há mais casa pra voltar.