terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Para que as mocinhas e os gatos possam amar completamente



Nós precisamos de você. Precisamos que abra os olhos e diga sorrindo que viveu festas incríveis de fim de ano num sonho profundo e confuso de contusões e plaquetas mas que tudo foi regenerando feito os fígados heróicos dos nossos grandes mitos. É necessário que você levanta-te-e-anda porque não podemos conviver com essa lenta revelação do retrato da nossa vulnerabilidade, surgindo aos poucos num quarto avermelhado.
É preciso que você resista porque nós, nós estamos acostumados a ver nossos homens morrerem de fome, de acidente, de tragédia, de deus, diabo, bomba, de amor e de ódio. Bastava que houvesse um motivo, uma razão e desligaríamos nossas televisões quase satisfeitos, a repetir incredulidadezinhas cansadas sobre a barbárie e o caos. Saberíamos que há estrupícios que golpeiam inocentes porque são negros, homossexuais, ou porque têm o dinheiro cobiçado num assalto malsucedido, ou porque aconteceu qualquer uma das nossas tantas razões que nos preenchem da resignação e automação dos lamentos de elevador.
Mas você não, é preciso que tudo isso passe ou que alguém descubra a razão dos golpes repentinos, um motivo que seja, quem sabe você estivesse lendo justamente o livro que o homem queria ver. É preciso um motivo ou uma salvação antes que você escancare diante de nós o grande paradigma dessa dolorida efemeridade.
Desde que você desmaiou assim fundo, dói sentir a preparação inútil dos dias. Cada segundo de estudo, trânsito, cada partícula de plano para um pseudofuturo parece ingênua e tristemente ridícula porque um dia qualquer desses tudo acaba em três golpes gratuitos, e é tão angustiante ficar aqui perdendo tempo nesse buraco quente que é o metrô ou nessas salas fedidas onde a gente tem de trabalhar.
É preciso que você acorde e conte que isso tudo é uma brincadeira, porque não é possível que as pessoas, que tudo isso que elas constroem dentro de si, que acabe tudo assim como nos videogames, mas até os bonecos do videogame têm explicação para o gameover. E o seu silêncio por enquanto só me dá vontade de largar tudo, qualquer coisa que se assemelhe a um planejamento. Largar o trabalho, o estudo, e ficar todo o tempo que ainda me pode restar fazendo o que tiver de mais imediato, de mais despretensioso, só para não ser enganada por essa coisa horrível do acaso.
Mas aí eu lembro que era isso que você estava fazendo, dando um tempo pra você, uns minutos de um livro colorido num canto da livraria. E então eu só consigo pensar que é preciso que você acorde e diga que está tudo bem, e restabeleça a ordem das coisas. Senão vou viver pra sempre feito a mocinha que não começa nunca a se arrumar: o pânico de o namorado cancelar o passeio – cabelo, batom, maquiagem, vestido, quanto mais trabalho maior a dor do tempo perdido.
Não quero ser abandonada pela vida já trajada para o triunfo e sem receber as medalhas prometidas, largada numa cama quando ainda houver tanta dança, tanta música me esperando nas festas. Enquanto você não acordar, nós vamos viver feito um gato reticente, num canto escuro da sala, estranhamente distante do dono, tamanho o medo indisfarçável de, de repente, amar mais do que sete vidas poderiam suportar.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Texto do Reveillon do ano passado



2009 – O que não quero em 2059

Em 2059 não quero uma neta
distante
há duas gerações de anos luz de mim
desfilando novos dilemas mesquinhos
novas tendências da moda música política
computadores biônicos
tridimensionais
Não quero visitas
Caridade
Filhos ocupados mas diligentes
Evitando tabus
-- porque velhos são cheios de tabus
Mesmo eu –
Novos tabus
das novas tendências
que eu não vou entender
Não quero os jovens
achando que sabem qualquer coisa
que eu não sei
não lembro
ou nunca vi
Eu que sei coisas
Que nem em 2059 os meus netos vão saber
Eu que em 2009 penso que sei bem mais que os meus avós
Em 2059 não vou querer que me respeitem
Que me poupem
Dos novos assuntos
cabeludos
me desligando pouco a pouco do que há de bom
Em 2059 vou passar o ano novo pelada
em cima de alguma mesinha de centro cafona
rugas nos seios barriga bunda sexo
-- muitas e muitas rugas no sexo--
serei um disparate uma barbaridade um vexame
Vou devorar a vida o tempo as festas do colégio da minha filha
--vai ser tão bonita, a minha filha --

Cinqüenta anos em mim serão cinqüenta anos a menos no mundo.

sábado, 2 de janeiro de 2010

MIMETÓS


A contração discreta no cenho a cada puxada insistente nos fiozitos ainda rentes do rosto, o queixo já na vermelhidão dos poros doídos. A última inspeção no zoom do espelho que embaça à mínima respiração,
—Porcaria de espelho.
As primeiras palavras da manhã saem irremediavelmente escuras, espremidas no inchaço da laringe. Cobre o pescoço com as mãos e procura no reflexo um ângulo bom, um charme de cabeça que esconda a bolinha quase galinácea na frente da garganta.
Lara irrompe no quarto em busca compenetrada por um sapato,
—Você viu o outro pé deste?
mas já desiste calçando qualquer coisa roxa,
—Meu Deus, Nima, você ainda está assim! Desse jeito não chegamos nunca.
Nima não abala a pose no espelho, sente a pele das bochechas com o dorso da mão.
—Fica sempre uma sensação de carcaça...
E se ressente da voz que desmonta o jogo na aridez indisfarçável do acordar masculino.
—Está uma graça, e veja se vamos logo, Nima, seja um pouquinho sensata e abra mão da meia hora da maquiagem, anda.
Nima se ergue sem mudar o ritmo, traz o estojo de maquiagem com um sorriso de travessura.
—Falo sério, criatura. Hoje estou irritadíssima e você de novo pensando que mulher é assim, o tempo todo saiazinha e enfeitinho na cara, ah, faça-me o favor, cansei desse atraso de vida.
Nima abre o olho com os dedos e molha o lápis na ponta da língua, Lara minúscula espera de pé já com a bolsa no ombro.
—Ah, Larinha... Sabe o que eu sempre quis ser? – guarda o lápis e puxa do estojo um conjunto de sombras — Um manequim, uma boneca dessas de loja, sabe? Sempre achei lindo imaginar as vendedoras diligentes colocando os braços nas mangas dos vestidos, as mãos de gesso em posição de balé. Depois ajeitam as perucas, avaliam as combinações, ajustam o tecido à cintura com alfinetes... Fico pensando que elas devem ter até nomes, essas bonecas.
—Ah, não, Nima! Rímel, não! Anda logo, senão vou sozinha. Olha pra mim, está vendo algum rímel, vestidinho, esses seus saltos altos impossíveis!? Não precisa ser mais mulher que todas as mulheres que você conhece!
—Lara, Lara... Tudo tão automático pra você, minha pequenininha. Você pode abrir mão do que você quiser que continua tendo qualquer coisa nos olhinhos que dá conta de dizer tudo. — aperta os cílios no curvador e sorri melíflua olhando a outra pelo espelho — Eu só vou poder abrir mão disso tudo no dia em que todas as mulheres de todo o país tiverem outras manias, e quando todos os homens tiverem outras manias sobre todas as mulheres. — Abandona o espelho e num salto infantil estende um vestido à amiga — Mas por enquanto sou uma manequim sempre na moda, pode me vestir que eu fico bem quietinha na vitrine.
Lara enfia os braços dela nos buracos das mangas e passa com força a gola pela cabeça, a maquiagem num quase-borrão desastroso.
—Mas você acredita, Larinha, que eu descobri que as vendedoras arrancam os braços, colocam a roupa na manequim, e depois encaixam de novo?? A doida ainda se demorava um tempão de conversa pro ar e a desgraçada ali me olhando sem braço toda sumida num camisolão...
—Anda, Nima, não te tirei braço nenhum.
—Não tirou porque não precisa... Experimenta inventarem aí que mulher-que-é-mulher não anda por aí com braços. Ah! Eu era a primeira a ter de tirar os meus.
—Vira mulher de uma vez então, Nima. Vai lá, dinheiro é o que não falta. Não agüento mais, parece que não quer ser mulher inteira, credo.
—Já falei que não faço de jeito nenhum. — Sobe o zíper e procura um sapato na desordem colorida dos gavetões — Mania sua de achar que mulher é só cavar um buraquinho, eu disse, a qualquer hora me arrancam os braços pra enfiar mais fácil o vestido. Depois me arrancam o sexo, revestem tudo com uma pele fria e eu saio por aí, a mais genuína das infelizes... De jeito nenhum, Lara. Pode ir chamando o elevador, só falta trocar de bolsa. De jeito nenhum... Você pode negar o quanto quiser, mas meu pênis é bem feminino.
—Ah meu deus... Vem logo, o elevador já está aqui. Daqui a pouco você me aparece com um pacote de absorventes.
Nima se detém um instante no espelho da passagem, alisa o rosto num carinho apaixonado.
—E quando o ódio agride, Lara, quando o mundo vem com cinco pedras na mão pra cima de mim, eu preciso de um homem sempre pronto a revidar cada soco, a ameaçar os monstros com golpes cegos de braços. E esse homem leal eu só acho em mim.

Mari Carrara - inspirado no estudo de Hélio R. S. Silva

domingo, 13 de dezembro de 2009

Discurso de Orador - Turma 178 diurno - Direito USP


“Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana. Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo, e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação. (...) E como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não era o que eu pensava e sim outra – como se antes eu tivesse sabido o que era!”
Clarice Lispector

Uma manhã ensolarada de segunda-feira, o centro da cidade de repente a paisagem em que passaríamos nossas próximas infinitas manhãs. A fachada imponente da faculdade inaugurando o que costumam chamar de os cinco melhores anos da nossa vida.
Centenas de gigantes coloridos com seus tubos de tinta, bebidas, músicas e preconceitos. Para alguns de nós, a novidade completa: longas viagens de outros cantos do país, quem sabe do mundo, para uma São Paulo imensa de solidão, sujeira e o barulho tentador escapando dos bares, teatros, cinemas.
Nosso deslumbramento ocupava cada espaço que se abria na faculdade, a bateria retumbando nos corredores entre flashes e cartazes. E essa noite desce bonita por sobre aquela manhã. Chega amadurecida, profunda, e cheia dos dilemas que o nosso torpor inicial nem imaginava.
Esta noite é a concretização de um sonho; se não o nosso sonho mais sincero, ao menos o que sonhou aquele adolescente que se afastou de nós dia após dia, como se cada aula, cada evento fossem golpes furtivos da maturidade em nossos olhos. É o sonho de um adolescente que viveu o inesquecível alumbramento do começo dos tempos de faculdade, e que agora não pode estar aqui para rir o mesmo riso livre e chorar a emoção leve das primeiras conquistas. Porque esta noite traz uma história que cinco anos de inúmeros códigos e livros não são capazes de narrar.
Nas primeiras semanas de aula, aprendemos o que é porão, jurisprudência e e-group: o cantinho eletrônico em que nos carregamos até a última prova. A sala virtual em que tivemos um contato solidário e turbulento, que às vezes desaparecia nos intervalos, sumia nos ruídos do pátio como se não nos conhecêssemos.
Hoje, é assombrosa a agilidade do tempo, a distância instransponível entre as primeiras manhãs e a opressão sombria de preencher qualquer coisa que não a palavra “estudante” no campo "profissão" do formulário da videolocadora. Lembramos com nostalgia as risadas escandalosas embaixo da bandeira franciscana nos primeiros Jogos, as danças sobre a mesa da sala de aula, as manhãs de começo de férias numa conversa de bar que não deveria terminar nunca. E alguns vínculos se estreitando em longos beijos, namoros, viagens e conversas que, se não nos fizeram melhores juristas, com certeza construíram muito do que há de humano em nós.
Embora a faculdade de direito nos tenha mostrado o que há de pior no mundo, com certeza trouxe também o que há de melhor. Pessoas incríveis, que farão a diferença em cada uma das nossas decisões. Juízes, advogados, bêbados, músicos, filósofos, loucos; todos atrasados para o escritório, para a prova, procurando a lista num canto da sala, chorando na fila dos banheiros químicos, aplaudindo em pé na sala dos estudantes. É por esses nossos amigos que sorrimos agora, com toda a sinceridade.
Sentamos todos juntos, durante cinco anos, e compartilhamos incansavelmente nossas ansiedades e expectativas. Anos lendo nossos nomes nas tábuas, frases cômicas pra expiar o desencanto. Quanto àqueles que conseguiram se encontrar, cinco anos emprestando cadernos, digitando as aulas num empenho que trouxe muitos de nós até aqui. E cinco anos registrando na mente momentos de tão pura alegria que, se fecharmos os olhos agora, fica no fundo a fotografia de um encontro banal pelas arcadas, que deixou a imagem indelével de uma amizade que, por mais que alguém ouse dizer que não, vai com certeza durar pra sempre.
Ainda que todos tenham passado pelo mesmo preparo, o diploma traz uma luz diferente ao cenário de cada um. Alguns vão se tornar bacharéis e, realizados, vão sentir o alívio da independência que se desenha já tão nítida. Vão responder às dúvidas dos mais novos, assinar o primeiro caso como profissionais de verdade, e de repente perceber que agora quase tudo está em suas mãos.
Mas muitos de nós ainda estamos num limbo desconfortável, entre o projeto que fomos e o que talvez já devêssemos ser. E neste lugar ainda há muito o que compreender. Vamos continuar explicando para as famílias que ainda não sabemos resolver tudo, que ainda precisamos de um tempo, mais um tempo e mais uma ajuda pra entender as coisas.
E quais seriam agora os nossos planos? Um tempo pra fazer planos, preencher o vazio simbólico desse canudo de hoje. Para perder o medo terrível de assistir à rápida debandada dos grandes amigos pelos concursos, nossa festejada mas tão dolorida dispersão por todo o país. Medo de com eles ver partir a estrutura que construímos juntos nesses anos, e descobrir que o Direito que conhecíamos dependia do grupo, dos longos cafés depois das provas.
Um tempo para aceitar o dia-a-dia sem um intervalo breve no sol do pátio, ou sem encostar as costas na pedra gelada das arcadas num fim de noite agitado de polêmicas. Difícil se desprender aos poucos do porão, onde de repente um amigo aparecia com duas cervejas e uma novidade digna de muitos brindes; um porão de uma época em que podíamos sempre deixar tudo para o dia seguinte, depois correr pra casa antes que o metrô fechasse.
Difícil para quem passou boa parte da vida acadêmica tentando aprender cada detalhe para ajudar da melhor maneira possível as pessoas que diariamente compõem a fila no Departamento Jurídico XI de Agosto. Difícil pra quem tirou do próprio relógio o tempo pra gerir o centro acadêmico, um tempo doído do gelo das bebidas servidas na correria das festas, e dos insultos, sempre tão frios. Mais difícil ainda para quem já fechou os olhos a qualquer coisa que pudesse vir da faculdade de direito, e agora precisa começar de novo, com olhos de calouro num corpo de adulto, numa nova faculdade que já vem sem a ingenuidade de antes, mas com a mais genuína das esperanças.
Longe da universidade, encastelados no centro da cidade, muitas vezes nos sentimos o centro do mundo, resguardados atrás de altas muralhas. Mas o retrato matinal da miséria no próprio Largo São Francisco construiu um pouco do sociólogo que não pudemos ser. A faculdade foi o nosso castelo majestoso e encantado, com seu emaranhado de portas e salas pelas quais nos perdemos durante um tempo que temíamos acabasse assim, sem satisfações em doze badaladas que nos trazem de volta à abóbora num encerramento que sempre soubemos aconteceria, mas que fizemos questão de esquecer, e simplesmente viver.
Nesses cinco anos, alguns professores nos fizeram sentir no estômago a aflição de escutar propagações centenárias de erros e injustiças, transmitidos aos alunos no tom enfastiante da superioridade catedrática. Professores que fecharam os ouvidos ao choro do mundo, e passaram a utilizar a Lei como uma baba eletrônica, capaz de anunciar cada lamento. Professores que, pela idolatria à regra, fecharam as portas das salas, levantaram a voz, não olharam nos nossos olhos. Ou, pelo desapego, simplesmente não vieram; esqueceram os alunos tantas manhãs com seus cadernos e mágoas.
Mas a faculdade nos trouxe também professores e palestrantes cujas reflexões reacendiam nossa vontade de compreender, transformar. Pessoas que abriam diante de nós a janela para um país que, sozinhos, não conseguiríamos ver. E nos faziam debruçar, até quase cair, para ver as multidões, as cadeias, as filas; para enxergar de perto as casas com suas mães sozinhas e crianças nos quartos, nas ruas; para ver os divórcios com seus gritos, suas mentiras; para ver o abandono. Pessoas que mostraram que a realidade tem recônditos que o braço curto e mecânico da Lei não consegue alcançar. E nos fizeram ver que o ser humano é capaz de aprender o que a Lei não aprende.
Por esses professores, pelos amigos, pelas pessoas que apertaram nossas mãos à procura de justiça durante esse aprendizado, nós vamos nos lembrar daqueles que fecham a porta, que não escutam, não cuidam, e vamos perceber que não é desse tipo de profissional que o Direito precisa. Não é esse tipo de gente que o mundo quer. Vamos lembrar que a careta autoritária é triste e vazia. O intransigente balançar da cabeça de quem não escuta esmaga de raiva e desamparo aquele que busca ajuda. Nós vamos lembrar essa careta e as palavras duras, e, então, seremos juristas de olhos e ouvidos abertos, queixo humilde, mão acolhedora e coração sábio. E só assim poderemos estar onde a Lei não alcança.
É preciso lembrar que o direito é uma estátua viva no centro da cidade, que de repente se move e se revela, e preenche o nosso caminhar apressado – é preciso reparar nesse movimento. É preciso saber que nos corredores dos fóruns, nos tribunais, atrás das pilhas de processos existe uma criança, um menino rindo e correndo descalço pelos arquivos e pintando com os dedos as paredes dos escritórios, estampando em guache as digitais nos inquéritos. Ele aparece quando as histórias estão prestes a virar apenas palavras, mostrando que há muita vida naquilo com que estamos lidando.
Hoje vamos ficar cara a cara com esse mundo que até agora apenas sobrevoamos. Olhar no fundo da vesguice da Justiça e se ainda houver uma faísca da nossa velha coragem, vamos mostrar que não estamos aqui à toa. Guardar a cada história um pouco da dor e do injusto, e sugar do Direito o que houver de quente, vivo. Vamos pisar na lama e sentir o molhado do barro nos nossos próprios pés, descendo desse salto que nos eleva, ilibados, distantes, indiferentes.
E quando chamarem aqui o nosso nome, vamos nos perguntar se estamos preparados, se realmente entendemos o que esta noite está tentando mostrar no seu balé melancólico. E se ainda não temos os tais planos, não vamos nos contentar com subterfúgios triviais; nosso plano é grande demais pra caber numa resposta qualquer nas festas de fim de ano. Nosso plano é grande demais.
Vamos nos despedir aos poucos da fragilidade, do manto condescendente que encobria nossos erros com o encanto estudantil. Mas vamos continuar com essa mesma energia, nesse mesmo desejo de dar aos amigos e a nós mesmos o melhor de cada instante. Vamos continuar com esse sorriso de agora, porque temos a força e a vontade pra fazer desses anos que começam, estes sim, os melhores anos de nossas vidas.
O soar das badaladas anuncia o fim do nosso encantamento. Mas lembraremos que, ao sair assim correndo desse castelo, deixamos cair pelas escadas, por acaso, algo nosso, que fará com que esse tempo ainda incompreensível possa nos reencontrar – à maneira de cada um.
Um bom começo a todos.

(mariana salomão carrara)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Uma noite comigo



Fico comigo que eu me saio melhor a mim! ah tanto tempo perdido com os outros. Esta noite tenho um encontro comigo no quentinho do meu quarto avermelhado, depois de um banho comprido porque eu gosto de gente limpa – só de mim tenho certeza da higiene, vá lá saber dos recônditos suarentos dos outros.
Hoje me encontro comigo que tenho mais a dizer a mim do que você pode formular em mil jantares prolixos. Eu não tenho a letargia do álcool nas minhas idéias hiperativas, tu-não-te-moves-de-ti mas eu tenho um espaço larguíssimo pra flutuar em mim, música alta que quero dançar comigo, os passos certeiros na harmonia perfeita.
Fui feita para mim e é comigo que vou me entender. Eu sei exatamente onde e quando a minha mão por dentro do vestido, sei do meu tempo. E quando não estou para o assunto minha mão não questiona e já se dedica a outros afazeres menos mundanos, eu comigo posso mudar de conversa, trocar de livro – nos encontros comigo posso abrir livros sem que me censurem, sou absolutamente compreensiva com essa falta de etiqueta.
Esta noite vou conversar comigo sobre essa dor nos ombros, posso conversar deitada. Eu sei de mim as estrias novas do peito direito e estou perfeitamente consciente de quando devo e quando não devo me ver nua, apago as luzes. Neste encontro quero falar sobre esse meu cabelinho da testa que implicou em crespar, sobre o medo terrível que eu tenho de deixar de viver. Vou olhar nos meus olhos e não precisarei confessar que não paro um minuto de imaginar que a minha vida vai acabar de repente antes que eu chegue à mesa de docinhos, antes que eu dê o meu maior grito, antes que eu tire a minha roupa até sair a pele, antes que me vejam assim, exposta. É bom ficar comigo porque uma pessoa que sabe dessa angústia jamais me espremeria o tempo com vicissitudes diárias e desejozinhos banais.
Neste encontro posso falar o tempo que quero, calar sem explicação – porque é impressionante a comunicação tácita que tenho comigo. Posso fazer desenhos na minha barriga enquanto me pergunto por que razão insisto em querer estar com outros se comigo o momento é tão profundo, eu que entendo do meu sexo, da minha fome, das minha dores nas costas. Eu que posso conversar comigo durante incansáveis horas, descobrir de mim segredos cômicos, rir sincera desse meu senso de humor. Logo eu que sou capaz de subir na cama e mostrar a língua pro espelho e depois perguntar se eu não posso ficar mais um pouquinho comigo.
Hoje você pode atirar o seu tempo nas mãos de quem você quiser, já falei que tenho um encontro comigo. E no final das contas você pode correr para os braços dos outros que tu-não-te-moves-de-ti, sabe-se lá se chega a mover-te de mim. Pode lutar para sincronizar os diálogos tão disparatados, as máscaras azedinhas dos vínculos sociais, pode ir que eu fico aqui comigo que eu sei chorar comigo quando tenho vontade. Sei o jeito certo de se aproximar de mim, olhinhos fechados na concentração da imagem.
Pode ir que fico a noite inteira comigo, porque a única coisa que não sei fazer comigo é dormir. Pra isso ficamos aqui, juntas, esperando você voltar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mirtáceas cor-de-rosa



--Não sei, não, Ana, talvez fosse melhor o preto.
--Não, menina, nesses lugares vai todo o mundo de preto, fica uma maçaroca de gente igual, vai com este aqui mesmo, comprou pra isso!
Mirta acaricia o vestido com as mãos e joga na cama. Belisca as pernas reclamando do espelho, uma noite linda dessas e as mulheres inchando assim, homem é que devia inchar, explodir de hormônio. A calcinha aperta de leve os lados mas a amiga diz que está tudo em ordem, é preciso ir logo com isso. O rímel ágil em piscadelas entre as obscuridades do espelho mofado, a chapinha esquentando na escrivaninha.
--Mania de se maquiar pelada. Depois mancha o vestido.
--Um calor, Aninha, assopre!
Mirta estica o vestido na pele úmida e confere as costas num torcer desconfiado de lábios, o batom acumulando nos cantos.
--Está linda. Uma flor.
--Não está marcando?
--Marca o que tem de marcar. Uma flor bem rosa, as mirtáceas são cor-de-rosa?
Mirta aperta a franja na chapinha e assopra o próprio colo.
--Um calor, virgem santíssima! Já pode abrir a janela.
--Olha só, a goiabeira é uma mirtácea.
--A hora, aninha, desliga o computador! E eu agora sou a goiaba da festa.
--A romã também é.
--Romã fica mais charmosinho.
Mirta encaixa com dificuldade o fecho da sandália e rebola diante do espelho. Saltos de alegria súbita que ela contém num muxoxo.
--Será que ele vai gostar?
--Vai ficar de boca aberta, sempre te vê tão sem jeito com essa cara de dia-a-dia. Coloca uma fivela aqui, desse lado, pra enfeitar o cabelo.
--Não, falta o colar ainda. Olha só, já vou perder a primeira aula.
--Você devia faltar, como é que vai de lá até a festa sozinha com esse vestido.
--Ele vai me buscar na faculdade, Aninha! Disse até que vai levar um capacete rosa.
Mirta espirra um perfume azulado atrás da orelha e entre os seios e espera o positivo enfático da amiga.
--Linda! Vamos!
--E se ele não vier, Ana, ele pode não vir. Todo esse tempo aqui...
--Aí a gente fica na faculdade, bebe um pouco com o pessoal, alguém vai te achar lindíssima e você vai triunfante pra outra festa.
Mirta brinca com as pulseiras num desânimo distraído. De repente apaga a luz e sai desfilando nos paralelepípedos, a mão da amiga equilibrando o salto.
Mas a faculdade não acha bonito. Brincadeiras, assobios. Mirta busca o apoio nos olhos da amiga e não sabe se o coro a corteja ou insulta. Rebola para entrar no jogo, depois puxa a saia até esticar o pano sobre as coxas que ardem nos olhos de inquisição.
E foge da fúria azeda e calorenta da massa. O rosa murchando seco entre eucaliptos gigantes.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Receita antitédio para senhores e senhoras carentes


Ando pensando que pode ser que tenha alguém apaixonado por mim que eu nem desconfie. Pode ser que todo o mundo tenha, e pode ser que seja muito bom pensar o tempo todo que tem alguém perdidamente apaixonado por nós.
Pode ser uma delícia imaginar essa pessoa encostadinha num sofá da festa e a gente dança cigana-odalisticamente sem sapato e com os cabelos desvairados de admiração. Decidi que definitivamente existe uma pessoa apaixonada por mim, que me busca nos corredores, nas salas, bares, publicações, computadores.
Vou começar a andar mais altiva, meus passos tão desengonçados e pragmáticos vão se alimentar dessa elegância de passarela, desses olhinhos encantados me observando as coxas, os ritmos. Vou lembrar esses ouvidos ocultos nas rodinhas me auscultando o coração, os segredos, piadas. Vou começar a falar só de coisas interessantes, vou contar bem alto minhas taras, pesadelos, filmes.
Quero que esse meu admirador tenha certa fobia afetiva, que me diga bom-dias insignificantes que não me despertem a menor suspeita. Que tenha dificuldade de dizer os sentimentos, de fazer amigos, e que seja paradoxalmente incapaz de um crime passional. Quero que leia esse texto com o coração rufando debaixo da língua, como se a cada frase eu chegasse mais perto de desmascará-lo.
Quero que você me espere numa cadeira de praia na Augusta numa noite de quinta lendo um livro de ponta-cabeça. Se for mulher, quero que esteja de vestido roxo, óculos e alguma coisa maluca no cabelo. Quando eu vir você, quero que saia correndo. Quero que me espere no meu ponto de ônibus vestido de coelho da Alice, e quando eu chegar quero que diga que é tarde, muito tarde, e desapareça num desses becos. Eu nunca tenho coragem de entrar.
Depois quero que você esteja presente em todos os meus sucessos, puxe as palmas, acabe com a ansiedade desses meus aniversários que invariavelmente antevejo vazios e tediosos. E também nos meus fracassos vou saber que você está lá, e sua admiração inabalável vai me reconfortar. E vou sentir qualquer coisa de bonito num perfil triste que vou lançar ao léu, na esperança de que você registre o meu charme numa imagem precisa que vai fenecer brumosa no seu sono inquieto.
E quando eu morrer tragicamente deixando família e amigos completamente traumatizados, você vai se doer e contorcer até flutuar por sobre os meus espaços. Por um tempo, você vai fazer esse amor fiel colorir a melancolia das muitas saudades que eu deixei. Depois, vai sumir aos poucos, tons pastéis, até morrer por completo; irremediavelmente parte de mim.