terça-feira, 19 de agosto de 2008

Segunda-feira à noite num café da esquina



Flora bate a cinza do cigarro na lata de coca-cola e Alice chega esbaforida, deposita com força a bolsa pesada na cadeira sobressalente e reclama do calor dessas noites de fumaça e obras, sempre uma perfuração aqui ou ali doendo no asfalto e nos ouvidos, Você ia odiar muito a minha vida hoje, Fauna! Flora traga sorrindo em volta do cigarro, sorri o melhor que pode com os lábios em semibico. Uma aula terrível! E agorinha xinguei um caminhão que atravancou o cruzamento passando no farol vermelho, estacionei ali mesmo pra te ver e ele disse Tchau Gordinha, gordinha, você acredita? Flora apaga o cigarro na madeira da mesa e amassa o limão do copo com a ponta da unha roída, Ele falou pra te irritar, linda, você está muito bem, você sabe, não sabe?
Talvez Alice saiba mas hoje tanto chocolate que se sente mesmo grande demais, o vestido exorbitando nos quadris, Preciso de um milk shake. Flora continua com os mesmos cabelos longuíssimos e as covinhas sorridentes fazendo chacota de algum problema que pode ser muito sério, e não é séria essa queda? Os livros acumulando no pó e as leis atrasadas no tempo e as notas caindo e elas disfarçam em espasmos de genialidade.
Sabe, Fauna, Fauninha querida, muita coisa pra aprender e a gente não lê, não escuta, não anota, vai pesando no ombro, passei o dia todo feliz porque ia te ver à noite, só um cafezinho de nada e já deixa a gente tão aliviada, Alice ia dizer mas Flora termina a coca-cola, Você se importa se a gente ficar só um pouquinho, quero fazer cocô. Tudo bem... Mas posso pedir o milk shake? O cocô espera o milk shake e Flora sente a brisa nos cabelos negros e longos, um pouco mais apagados de cigarro e decepção, a gente fica indo nesses motéis baratos que acabam com o cabelo.
Emprestaram um livro fantástico, Fauna, o dia todo lia e lembrava de você! Alice vasculha na bolsa num tilintar de chaves e balas, deixando escapar guardanapos sujos, papéis, preservativos, desodorantes até tirar o livro protegido no saco plástico, Meu amigo que emprestou, ele fica uma onça se uma digital de chocolate numa página, não quero nem imaginar, credo! Alice se apruma na cadeira e começa a leitura rápida demais sem se importar se a amiga escuta, ela não é de escutar muito bem. Tão bonita... deve fazer o quê, uns oito anos. Oito anos a garotinha de faixa na cabeça sentada no chão fazendo alguma lição de casa e Alice observando com seu jeito de achar os outros interessantes e querer conversar sem ter coragem, oito anos lendo livros juntas no refeitório do shopping, as férias como fossem eterna viagem pelos quarteirões do bairro. Agora o cabelo apagado de cigarro e a Alice gordinha ampliando os quadris à espera de um parto que parece a melhor coisa do mundo, Já pensou um bebezinho aqui, Fauna?
Alice vira a página e se não fosse o Caio Fernando Abreu que tivesse escrito teria sido ela, Alice odeia quando alguém escreve e não foi ela, “... naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, meu bem, o que acontece é que como bons-intelectuais-pqueno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virgínia Woolf....”. Alice pára a leitura porque Flora não ri, talvez não goste, talvez não consiga escutar no meio das obras, das olimpíadas na televisão de plasma do bar, das vozes neuróticas da noite de segunda-feira, ela não é de escutar muito bem. Mas o casal de meia idade na mesa ao lado está olhando contente, talvez ache bonito duas moças – bonitas? – bancando as cultas numa noite quente, talvez se enxerguem não oito mas muitos anos atrás em suas leituras boêmias, Qual o nome desse livro, mocinha?, e anotam num guardanapo úmido de cerveja.
Oito anos e talvez seja tudo a mesma coisa, as mesmas meninas com suas ancas parideiras e a mesma vontade de encher a rotina de cenários e viver pra sempre no palco. Alice gira na mesa a pulseira vermelha gigante e ameaça um carinho na mão morena, o amarelado charmoso nas pontas dos dedos, mas não é tudo a mesma coisa. Não poderia ser, Fauna, é que nem café com leite. não adianta adicionar mais leite e mais pó na mesma quantidade, nunca vai ter o mesmo gosto, nunca. foram trazendo mais de nós e não tem como ser a mesma coisa. mais pó, muito forte; mais leite, fraco demais. Alice fica com a sensação de já ter dito isso antes e Flora esquece os olhos em algum ponto confortável na rua, talvez um farol de estacionamento piscando em cima e embaixo na intermitência hipnótica dos faróis, Já li isso em algum lugar, essa coisa do café...
Fauna apóia o quarto cigarro num cinzeiro de plástico que o garçom trouxe meio molhado e saca um caderno da bolsa gigante, Vou te mostrar a casa que eu quero. Um desenho colorido caprichado de réguas e detalhes, na mesa gigante de centro uma planta aquática, Tem de ser aquática, Alice sugere que devem ser vizinhas e Flora concorda brevemente, Olha só, o tapete é laranja de fuxico, e essas coisinhas aqui são os brinquedos do gato, o gato fica aqui. você, não, Alice, você eu sei que vai atrás das coisas de anos atrás, talvez se case mesmo com quatro pessoas, talvez engravide uma mulher, mas eu... eu sou café com leite, não sou? cada vez mais leite! E ri observando o desenho da própria casa, faz um carinho na cama de casal que vai ser de madeira bem escura.
E de repente Flora tão menina podia sim ter feito o mesmo desenho oito anos atrás sonhando com marido e casa e hoje tão perto o marido e tão perto a casa e no entanto um medo terrível revolvendo o estômago, medo de um diploma vazio sem lastro no banco, a casa da mãe se perpetuando pelos anos, as economias lentas e os concursos fracassados, E se a gente não conseguir, Alice quer perguntar, E se der tudo errado, Fauna, tudo errado? Quer perguntar mas Flora chama o garçom, Vamos indo, Alice? preciso mesmo fazer cocô.

3 comentários:

Lucas Fábio disse...

Carregou nas tintas. Ninguem é assim. Precisava ser mais realista. (já vou dizer que estou sendo irônico pra você não fingir que não entendeu)

Anônimo disse...

É tão estranho toda vez que eu vejo a Camila pensar que ela é tão poética! Da vontade que ela vire e comece a dançar no elevador ou que ela começe a andar saltitante ou diga algo muito poético,mas não,alias não sei se algum dia a gente já se comunicou,pq eu não ouço quando fala e desconfio que ela também não ouve quando eu falo haha aí é no máximo,sorrisos.
"Bom dia" e a outra sorri na dúvida.hahaha.

Mari Carrara disse...

Hum... a mila é maravilhosa! Mas quem é você?