segunda-feira, 2 de junho de 2014

A Guerra
Eu nunca mais voltei naquele lugar e por isso a minha lembrança é de que era o maior lugar do mundo. Minha mãe me puxava por uma ladeira enorme, fazia muito sol e as pessoas na fila tinham todas muita pressa ou muito desânimo. As que tinham desânimo parece que iam ali sempre, como que todo dia.
Já fazia muito tempo que em casa ninguém me dizia nada, deixavam a televisão ligada e se calavam, e eu já não perguntava dele e já eu mesma quase não falava, e nem olhava mais a porta no horário da novela porque eu já tinha entendido que ele não ia aparecer de repente. E nesse dia eu ainda não sabia se queria ou não queria ir, mas não tinha ninguém pra ficar comigo tantas horas e – Pega um brinquedo e vem, menina – eu puxei da cama um boneco qualquer que tinha sido dele, e corri pro trem.
A mãe continuava não dizendo nada e eu não perguntava porque pra todo o mundo parecia mais fácil se eu simplesmente não estivesse percebendo. Como se eu não tivesse reparado que meu irmão nunca mais voltou pra casa, nunca mais me trouxe nada, nem me jogou pedaços de tomate durante o jantar, nem me escondeu no armário na hora do banho, nem fez promessas, projetos grandiosos que ele me contava depois de me sentar em cima da mesa da cozinha onde ele dizia que as coisas eram levadas a sério. E naquele dia no lugar imenso minha mãe não tinha nenhum alívio no rosto, mas por alguma razão eu tinha passado a noite conversando com a lua e me dei toda a certeza de que ele ia voltar pra casa.
Eu já sabia que ele tinha começado a vender droga, e que tudo tinha dado errado. Mas eu sabia também que isso um monte de moleque fazia ali no bairro e eu sentia que naquela tarde ele ia pedir desculpas a quem quer que fosse que ele tinha desobedecido, e ia ficar tudo bem. 
Quando a gente entrou, eu me lembro do frio, um frio sem sentido que era como se o sol nunca chegasse ali. Fiz que o boneco voava pelos corredores, mas fiz só pra minha mãe achar que eu estava feliz com o passeio, mas era difícil fingir porque minha cabeça ficava bem na altura das algemas dos homens que toda hora passavam puxados por guardas gigantes, os rostos baixos, a roupa igual, e eu a todo tempo num susto achando que qualquer deles podia ser o meu irmão – e era; qualquer um.
E os homens nas algemas estavam todos de chinelo e eu lembro que achei aquilo muito estranho porque chinelo é uma coisa tão livre. Ficava olhando passarem tantos pés soltos em havaianas puídas e aqueles pés me lembravam de praça, churrasco, pipa, rua, demarcação de gol de futebol. Depois pensei que a gente usava tanto chinelo porque sapato é muito mais caro, mas aí logo em seguida pensei que ainda assim – e talvez por isso mesmo – chinelo fosse uma coisa tão livre.
A gente sentou finalmente e esperou por um tempo que me pareceu muitos dias. Minha mãe não falava comigo a não ser pra me dar um suco ou uma bolacha seca, mas de vez em quando falava com outra mãe, qualquer coisa sobre Deus, ou sobre injustiça – só que por alguma razão minha mãe não parecia achar nada daquilo injusto, e acho que isso é o que mais doía nela. E de repente ouvi uma senhora comentar algo que jamais tinha passado pela minha cabeça – O meu filho já é a terceira vez! – e nessa hora eu pensei que então dali pra frente seria sempre assim. Eu percebi que os rapazes uma hora crescem, e vão presos, e depois vão presos de novo, e pela terceira vez, e que era essa a sina dos nossos homens, como num país que entrega todos os seus meninos à guerra.
Durante toda a tarde minha mãe seguia com os olhos uma mulher apressada, de salto alto, que quase nunca parava em nós, e não olhava pra minha mãe porque sabia que ela estava esperando alguma notícia, e aí eu fui percebendo que de fato era sempre assim pra todo o mundo, tanto que a mulher vinha e dava a notícia para as outras mães, que já sabiam como as coisas eram, e saíam, como quem recebe uma hóstia e volta pra casa pra lavar roupa. E depois da notícia a mulher entrava numa sala em que as pessoas corriam, ou às vezes riam de quaisquer coisas, e quanto mais elas riam mais eu me convencia de que aquela era a ordem natural, de que os irmãos crescem pra serem presos uma, duas, três, intermináveis vezes.
Eu girava o boneco como se ele fosse um trapezista porque eu sabia que estava chegando a hora e era cada vez mais importante que eu não estivesse entendendo nada, e eu pensei bem forte que se eu rodasse o boneco exatamente 18 vezes – a idade do meu irmão – antes de a mulher começar a falar com a minha mãe, a notícia seria boa.
E eu comecei a rodar primeiro devagar porque pensei que ela ia demorar, mas ela foi chegando com a mesma cara que ela fez toda vez que tinha uma notícia, e eu rodei o boneco mais rápido, e mais rápido, mas ela já começou a falar com a minha mãe sem nem olhar pra mim e não deu tempo de eu rodar o boneco 18 vezes – e é capaz que até hoje eu me culpe por isso –, mas eu continuei rodando o boneco porque era importante que eu não estivesse entendendo nada – Nós fizemos tudo o que foi possível --, era fundamental pra minha mãe que eu não entendesse – Mas não significa que ele vai ficar preso os próximos cinco anos inteiros  –, na verdade era absolutamente necessário pra mim que eu não estivesse entendendo nada e como eu rodava o boneco como se não estivesse prestando a menor atenção de vez em quando a mulher de salto olhava pra mim e eu sei que eu tentei segurar o choro mas ele veio assim, silencioso, implacável --A senhora precisa voltar daqui a dois anos pra pedir... – e então ela me olhou de novo e acho que parou um pouco de falar, e eu percebi que até mesmo pra ela era preciso que eu não estivesse entendendo nada.
Minha mãe, que até aquele momento apenas assentia com a cabeça, também olhou pra mim, e eu senti que ela e a mulher de salto olhavam meu choro, e eu rodei mais rápido o boneco só que agora não adiantava mais rodar boneco nenhum.
Eu cresci uns vinte anos naquela tarde, e cresci sem meu irmão, que morreu nove anos depois, recém-saído da terceira cadeia. Eu disse que nunca mais voltei naquele lugar, mas na verdade eu nunca mais saí de lá. Ficamos pra sempre presos – eu, e também minha mãe, e a mulher de salto, que não deveriam nunca ter me visto chorar.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Núpcias (obs: por dificuldades na configuração, os próximos 13 textos são antigos)

A gorda com o hálito de gengibre tenta encaixar o fecho do colar de pérolas, baforadas no meu pescoço reclamando dos óculos, precisa dos óculos. Um homem com farelos de pão na barbicha passa uma base em espalmadas violentas no meu rosto, os primeiros golpes do casamento, talvez. A luminária na minha frente está me dando calor, películas de suor, ele diz películas de suor me enxugando com algodões e virando a cabeça da luminária de modo que o foco da luz no teto e não na minha cara. A luminária parecendo agora uma bailarina num gesto final, uma mãe em preces aos céus, um homem agonizando de joelhos com o pescoço tombado para trás, a luminária uma luminária apenas e eu apenas eu nesse vestido que não mereço.
Uma moça pequena me sorri e pede licença para prender a coroa nos meus cabelos, seis horas fazendo esses cachos e depois sei lá desses cachos, eternizados numas fotos e também o que são seis horas perto da eternidade das fotos. No quarto da minha avó uma foto em tons de cinza e naquela época sem cachos, o cabelo uma massa só sem a obscenidade dos fios. Agora eu num sorriso de promessas, a mão suavemente apoiada no corrimão de modo a destacar a luva, nos lábios um quê de trêmulos e os olhos se não brilharem de paixão eles podem depois arrumar no computador, fica bonito. Posso pedir pra deixarem mais verdes, eternamente verdes.
Seis horas com essas revistas baratas, posso mexer nas revistas porque não preciso fazer as unhas, no inverno ficam chiques as luvas, brancas acetinadas até um dedinho acima do cotovelo. Uma mão no corrimão e a outra quem sabe no ombro do noivo, ele com o sorriso mais firme, nada de um quê de trêmulos os lábios nem brilho nos olhos, a sobriedade da decisão sem deslumbramentos. O fraque cinza ainda sem a mancha de vinho que os colegas deveriam derramar sem querer no meio da baderna, às gargalhadas. O fraque ainda impecável e o fotógrafo talvez flagrasse um olhar espontâneo e uma risada minha, uma piada dele, quem sabe sobre uma tia digníssima que está bêbada. Talvez um flash no meio da minha careta de birra quando ele diz que vai dormir no avião o caminho todo, e me aperta o nariz na ponta dos dedos, Bobinha, e de repente a luz do flash e rimos de novo, outra foto. Mas o fotógrafo apenas A mão no corrimão, por favor, e a outra mão na taça, não, não, a outra mão no ombro dele. Sorriso!
Uma noiva abandonada no altar, a gorda diz uma expressão em francês quando consegue colocar as pérolas, terminam minha maquiagem e a mocinha pequena me traz até o salão vazio e eu já sei que abandonada no altar. A dona da loja me ajeita o vestido na cintura e confere as informações, perigoso o endereço sair errado. Quer no canto direito, pode colocar o preço do aluguel também, é sempre bom o preço para as pessoas não se iludirem, coisa mais triste as noivas iludidas. Chegam na loja com a revista nas mãos e talvez o meu sorriso trêmulo e os meus olhos magnificamente verdes e é isso que elas querem mas de repente o preço alto demais. Melhor um preço discreto ao lado dos meus sapatos, outro preço ao lado do vestido. Minha foto não num álbum de veludo vermelho, minha foto num catálogo, as madrinhas não no altar mas nas últimas folhas com modelos que disfarçam os quadris, um cupom de desconto válido às segundas-feiras. Às vezes chegam na loja com a revista amassada, pequenas correções à caneta no meu vestido, tem como diminuir o decote? Olho meu noivo de hoje e ele reclama do calor e pergunta meu nome. Mão no corrimão, por favor. Sorriso.

Passarela




Mastiga um pedaço de porco com a pele estalando nos dentes que ela palita discretamente com a ponta da língua, discreta mas eu sei que é isso que faz com a boca se torcendo e os olhos virados para o lado na concentração da busca. O decote mostrando demais de um peito que já não serve pra mostrar, as veias azuladas saltando no branco translúcido da ausência de sol que o médico recomendou e ela obedeceu para sempre, sol nunca mais, nem um mormacinho, ela diz às vizinhas num tom apocalíptico, balançando a cabecinha de cabelo oleoso e o beicinho rugoso contraindo de desgosto, nem um mormacinho!
Quero me esconder atrás do cardápio e evitar o olhar que já sei que vai lançar sobre a minha torta de chocolate, a pupila dilatando naquilo que ela julga um diálogo mímico, talvez abaixe o olhar para insinuar o caminho da sobremesa direto aos meus quadris, meio quilo a mais e eu estou fora de tudo, ela sempre disse que isso não era pra mim e eu insistindo, não é assim?
Passa o guardanapo na boca e depois fica observando a marca do batom no papel e detesto cada uma das manias, no fundo odeio e não é porque é mãe que a gente tem de viver do lado assim, podia ser qualquer pessoa e calhou de ser essa que eu odeio, se fosse uma colega do trabalho eu já tinha mudado de mesa, de restaurante, de cidade. Pega minha mão e o cinismo de metade de um século se abrindo num sorriso esverdeado de temperos, Ela está evitando esses modelos mais ousados depois do acidente, não é, minha filha?
O acidente que a família cala num baixar barulhento de olhos à comida e eu me levanto rumo ao banheiro e ouço todos os olhos levantando barulhentos às minhas costas, acompanham meus passos adivinhando um tombo como se agora eu mais frágil, vulnerável, eu enorme e minhas pernas dois canudos a bambear nas sandálias. O corredor até o banheiro feito a longa passarela sob flashes e filmes, lembro bem, meus pés na corrida sincronizada do desfile ensaiado, minha mãe na primeira fileira com os óculos vidrados nos meus joelhos, talvez averiguando a proporção ideal entre coxas e canelas e eu numa torção repentina e a queda rápida. O tombo talvez no intervalo preciso de um movimento de pálpebras, minha mãe piscando e eu no chão com a ousadia do seio esquerdo à mostra agora humilhado pelo tornozelo que se recusa a se erguer, alguém me recolhe da passarela pelas axilas. Queda rápida demais sem a elegância das árvores que vão se anunciando lentas, rítmicas, até acalcarem o solo na imponência arrebatadora de um poema incrível. Eu no chão de repente com o seio maquiado de fora e minha mãe no balançar da cabeça como se dissesse às vizinhas Nem um mormacinho mas dizendo qualquer coisa que eu nunca quis saber, ela sumindo na platéia.
Chego à pia sem novos tombos e o espelho mostra qualquer coisa dela no queixo e talvez nos lábios, o espelho um retrato dela e eu sei que as fotos não me importavam, as revistas, os colegas, o namorado, o fracasso, nada de importante enquanto me puxavam pelas axilas. Somente ela e a cabecinha balançando, ela sumindo na platéia.

Cinéfilos

ahahaha Mila, aqui vai sua encomenda. Pena que sou tão hábil em poesia quanto em pintura! beijos


CINÉFILOS


Um homem enorme sentado no chão
chorando os amores que não voltarão
E lá atrás está Jurema
unhas fundas no estofado
e o olhinho mareado
no silêncio do cinema
Vai voltar pra Diadema
e contar pro namorado.
Mas sábado a bilheteria
tem o filme que ela queria
Só que ele muito ansioso
quer ver o tal do homem choroso
unhas fundas no estofado
e o olhinho mareado
no silêncio do cinema
e na sala ao lado Jurema
em gargalhadas convulsivas
porque um anão de camisola
tomou pílulas laxativas
No busão pra Diadema
conta tudo ao namorado
e ele então se descontrola
quer ver logo o anão cagado
E sábado a bilheteria
tem o filme que ela queria
mas ele diz que nem rola
quer ver o anão de camisola!
E na sala ao lado Jurema
unhas fundas no estofado
vê um filme fabuloso!
mas lembra então com saudade
do abraço do namorado
mão com mão no estofado
no silêncio do Cinema
e não diz mais a verdade:
Meu bem, que infelicidade!
que filme mais odioso!
E sábado a bilheteria
Tem o filme que ela queria
mãos coladas no estofado
quatro olhinhos mareados
no silêncio do cinema.


Zíper
Desde pequena ela puxa o zíper com essa força, quero continuar dormindo, não abro os olhos mas o zíper da primeira bota sobe de repente num rasgar agudo no meio da noite. Se eu abrir o olho vou ver a janela e as luzes intermitentes da rua que por algum motivo atingem um padrão, de quarenta em quarenta segundos o farol de um carro passa um feixe de luz pelo teto do quarto como um laser rastreando o ambiente, se eu me movimento quem sabe um alarme e o laser louco pelo quarto em redemoinhos de luzes e sirenes. Mas não abro o olho, a Amanda diz que tudo isso é parte da minha doença. Chama de doença, com um risinho charmoso no canto do lábio, e depois me abraça como se nada tivesse a menor importância.
Agora deve estar descalça de um pé, procurando o outro embaixo da cama, ou buscando uma meia para o pé descalço. Pelo silêncio, deve estar passando o batom, porque parou a respiração. Ou o rímel, no rímel também pára de respirar. Se eu abrisse o olho veria o rastro da luz da rua passar pelos cabelos enormes da Amanda e veria por um instante a poeira sobre ela, sobre os móveis. Não abro o olho e ouço as escovadas brutais que ela dá sem medo de arrancar os fios, eu sei que tira tudo da escova numa maçaroca preta e joga no lixo ao lado do vaso. Fica um montículo cabeludo sobre os papéis higiênicos parecendo uma vagina abandonada há séculos no banheiro.
Quando cresceram os pêlos ela andava pelo quarto nua como se procurasse uma calcinha mas era pra mim que ela andava, eu fingia que lia a revista mas de repente ela perguntava se o sutiã estava bom. Só o sutiã, nenhuma calcinha, e a agressividade da Amanda entre as luzes dos carros na rua ritmicamente passando o radar para detectar o menor movimento, a agressividade daqueles pêlos no meio da minha infância tão lenta.
Termina as escovadas bruscas e a outra bota de repente zíper na fúria dos zíperes de Amanda, por que tanto zíper e tanta força, no meio da noite o rasgo metálico, daqui a pouco é a minissaia que também zíper e a jaqueta zíper e a bolsa zíper e depois vai me olhar. Vai me olhar e se eu abrir os olhos vai fazer um sinal de silêncio que é um "zíper na boca", dizia isso toda a vez que me contava um segredo, sempre um segredo horrível que eu guardava com medo do zíper que eu talvez tivesse nos lábios.
Eu com medo das sombras dos abajures e a Amanda contando histórias de terror com a cara enorme no foco da lanterna, eu apertava os olhos na fronha molhada e fedida de baba choro e leite, eu gritava Pára, Amanda e ela ria com a luz da lanterna alaranjando as cavidades da boca e saindo em raios por entre os dentes. Agora não conta histórias mas ficam esses zíperes me impedindo o sono, a luz vacilante do abajur verde na penteadeira fazendo sombras, mil sombras nas paredes, no teto.
Deve estar contando o dinheiro na carteira e se eu abrir o olho vai me perguntar se está bonita. Eu vou dizer que parece uma prostituta, e ela vai rir e responder que então está muito bonita. Depois vai sentar na minha cama com todo o barulho dos couros e o perfume alcoólico que espirra inclusive nos cabelos. Vai sentar e vai me beijar a bochecha e me chamar de picurrucha mesmo eu já sendo tão grande, já sou grande, Amanda, não sou? E eu vou sentir o batom grudar devagarinho no meu rosto e depois no meu sono manchar o travesseiro e de manhã ainda a marca rosa do beijo aparecendo no espelho. Depois talvez pergunte se amanhã quero ir ao parque, vai fazer mil planos bem baixinho no meu ouvido, vai falar do parque e do shopping mas eu sei que só vai voltar na segunda-feira com olheiras e zíperes arrebentados. Vai me fazer um carinho no cabelo suado e balançar a cabeça com pena, morre de pena de mim. Depois vai sair bem silenciosa como se de repente, depois de tantos zíperes rasgando o meu sono, não pudesse fazer nenhum ruído. Então me faria um aceno e fecharia a porta lentamente, até sentir o clique discreto da maçaneta.
Mas eu não vou abrir o olho, nunca abro o olho. Termina de contar o dinheiro e eu ouço o barulho dos couros, das chaves, e o clique discreto da maçaneta.

Exercício 1



Quando o rádio-relógio despertar de novo, daqui a dez minutos, quero que esse peso nos olhos tenha sumido, quem sabe a voz do rádio na notícia exata -- gosto da mocinha do trânsito com a entonação musical e a ênfase no rodízio, repete três vezes as placas que não podem circular. Quero ficar deitado dois minutos enquanto a mocinha dirá que as avenidas estão fluindo surpreendentemente livres daqui até o meu trabalho, os carros todos a oitenta e cinco por hora e ela cada vez mais contente anunciando Livres! livres!
Depois quero levantar e sentir que o tubo da pasta de dente continua cheio, apertar gostoso bem no meio até transbordar pela escova. Quero lembrar que fui ao mercado no domingo e por isso tenho pão, queijo, mortadela, e quero que a Lúcia já tenha feito o café e dessa vez com muito pó, engasgando de tão forte – sempre faz tão fraco e eu nunca a coragem para um Lúcia, o café, talvez, um pouco mais forte, quem sabe?
Depois queria que o jornal estivesse aberto na mesa ao lado do café, queria que o jornal viesse num caderno espiralado fácil de virar página por página sem o cinza carvão desbotando na ponta do dedo engordurado de manteiga. Queria então que esse incômodo perene dentro da barriga fosse embora numa sonora flatulência de dois minutos ininterruptos até a Lúcia aumentar a música na cozinha com um sorriso duro e o olho arregalado.
Queria descobrir que aquele problema no computador se resolveu sozinho, junto com o cano entupido e o microondas que há duas semanas a Lúcia diz que faz um uivo vampiresco – queria que a Lúcia escolhesse palavras como vampiresco. Queria que um botão daqueles auto-clean de liquidificador me deixasse de repente de banho tomado e cueca nova, queria que as gravatas virassem estilinho cômico nos baús dos brechós de São Paulo.
Quero chegar no trabalho em apenas três minutos e descobrir que a Silvana faltou, vai faltar a semana inteira, infecção, e o Rubens também, mas o Rubens pode ser só intoxicação alimentar. Assim sem o Rubens não tem comentário sobre o futebol com a risada grotesca tremelicando o bigode, os dedos finos fazendo uns gestos da malandragem que eu retruco dizendo qualquer coisa sobre o jogo de ontem, algum comentário que ouvi dos manobristas ou de alguém no elevador.
Quero sentir a cadeira vermelha que é a única coisa que eu gosto naquele lugar, rodar, rodar enroscando os fios dos computadores. Quero fechar os olhos na cadeira vermelha e abrir de repente às oito horas da noite no café Boreal, a Daiane vai me trazer o mate com limão e o açucareiro, vai se olhar no reflexo da bandeja e depois vai perguntar se eu já assisti a um Almodóvar qualquer que ela alugou e não sabe se é bom, a Daiane deve gostar de filme; aquele jeito de cruzar os braços apoiada no balcão e ficar olhando a rua, a Daiane é puro cinema.
Quando eu pedir a conta ela vai fazer um muxoxo balançando o rabo de cavalo e limpando a mão de farinha no avental verdinho. Quero que esse grumo de papel higiênico molhado que está atolado na minha garganta desde os treze anos se dissolva de repente e eu diga sem engasgos que gostaria muito de ver aquele Almodóvar de novo. Não quero que ela abra um sorriso, nem diga um doutor-carlos-doutor-carlos –- quero que ela pare de me chamar de doutor. Quero que ela apenas me entregue a conta e com toda a naturalidade do mundo diga um então-vamos-indo, olhando o relógio.
Quero que ela tire a roupa sem rebolado ou mistério, como uma amiga fez pra me mostrar a tatuagem. Quero que ela tenha os seios humanos, com alguma marca de nascença e estrias discretas dos lados, quero que me deixe tirar uma foto com a câmera do celular. Quero que ela mesma tire a camisinha e fique brincando distraída, uma menina descalça no quintal com um balãozinho de água.
Quero que o DVD não funcione porque não estou com tempo para o Almodóvar que eu já vi, quero dar um beijo longo e ela vai apertar as unhas no meu ombro e me emprestar um livro que ela leu essa semana e achou a minha cara, quero que a Daiane também goste de ler.
Quero que a casa da Daiane seja do lado da minha e vou atravessar a rua e ver que a Lúcia deixou tudo arrumado e com cheiro de lustra-móveis – adoro cheiro de lustra-móveis – sem tirar do lugar nenhum dos meus papéis e ainda fez um macarrão molhado e um bife farinhento passado no ovo. Quero cerveja.
Quero o tubo de pasta bem cheio, um copo de água com gás no criado-mudo. Quero deitar na minha cama com três travesseiros embaixo da cabeça e dois atrás dos joelhos. Quero sentir as costas relaxando de orgasmo e lençol gelado e acender o abajur e estalar os dedos dos pés. Quero abrir o livro que a Daiane emprestou e achar esquisito, depois achar bonito, sentir o peso voltando para os olhos devagar.
Quero ler o livro que a Daiane emprestou e não entender nada, quero tomar um chá com ela amanhã e dizer que o livro é difícil demais pra mim.

Exercício 2

Quero uma cabeleira grossa e longa pra pentear com força e sentir os fios eletrizados na nuca. Quero uma poltrona daquelas de couros e engrenagens e um livro digno de uma dessas poltronas, e quero que os olhos não ressequem durante o livro que o Marcos me deu, um livro que é digno apenas desta cadeira de palhas soltas. Quero que meu filho fique inteligente de repente.
Quero uma cozinha sem móveis azuis, azul-bebê, o Marquinhos dizia azul-calcinha.
Quero rosquinhas secas que eu vou molhar devagar no café com leite, silêncio. Quero pingar o adoçante a cinco palmos da xícara para ver se acerto as gotas, caem pesadas em ondas de café, quero os óculos para ver as ondas e as horas: há alguns dias estou esperando uma carta anônima.
Quero que o Marcos pare de rir aquele riso ridículo, e me telefone menos vezes na semana, e deixe o emprego indigno que ele transforma em piada à mesa do jantar. Quero muito que ele fique, de repente, inteligente. Quero sentar na minha sala e abrir a janela e deixar qualquer coisa de luz entrar, qualquer coisa de calor nos pés que estico na fresta de sol sobre o carpete, os acarozinhos dançando no ar. Quero encontrar na estante um livro erótico, e quem sabe o sol e qualquer coisa de quente nos pés e nas coxas azuladas de veiazinhas, um mapa da vida na pele escamosa que eu evito no espelho, quero ter coragem de olhar para mim. Quero alongar os dedos doídos e as costas até esticar e colocar no lugar a peça que está solta, consertar tudo num encaixe instantâneo, esquecer o corpo e sua consistência amolecida de travesseiro dormido, voar num balão pendurada pela cabeça até esticar o pescoço feito Alice na maravilha ortopédica de um alongamento mágico.
Quero um país numa toca de coelho. Quero alguém com quem jogar baralho, quero baralhos que falam.
Quero o Américo aqui, mordendo sem força a maçã que ele deixava na cabeceira. O Américo que saiu uma vez para comprar cigarros, e nunca mais parou. Quero o Américo com os dois pulmões aqui na cadeira de palha que ele revestia de almofadas para facilitar a tosse, o Américo com a risada rouca, a careca cheia de xampu e as unhas compridas que ele pintava de vermelho pra provocar o Marcos. O Américo num carinho trêmulo entre tosses e sonhos que ele narrava aos detalhes durante a maçã matinal.
Quero que a minha neta apareça, apenas a minha neta, não quero os meninos. Mas quero que ela chegue sem a cara humilhada de criança feia, quero que chegue oito quilos mais magra e com um vestido verde escuro, quero que me fale de um namorado, pergunte da minha formatura e mostre uma tatuagem no ombro. Quero que tire os sapatos e vá até a vitrola rodar um tropicalismo qualquer e saltitar me segurando pelas mãos.
Quero receber uma carta anônima que diga que vou morrer tragicamente, no fim de semana, um crime qualquer de noticiário. Quero virar literatura. Queria ter morrido antes, o Américo entrando com o jornal e o leite e o meu corpo quase bonito ao pé da escada.
Quero que o criminoso seja um rapaz sem jeito, finjo de morta e ele me carrega no colo escada acima feito noiva virgem. Quero que encha a banheira e ajeite meu corpo de leve na água, quero sentir os dedos dele passando devagar entre as minhas dobras, no contorno das rugas, no cálculo preciso das machadadas. Quero um esquartejamento silencioso e estético – quero virar literatura –, e depois quero que o moço limpe tudo antes do Marcos chegar com as crianças.
Quero que a minha neta apareça de capa vermelha com doces na cesta e encontre na cama um lobo jovem que acabe de vez com a infância tardia. Um lobo rapaz que já saiba tudo o que eu sei, que tenha me devorado aos pedaços na banheira, que abra a boca enorme e não deixe a minha menina escapar por mais nenhum dia.