terça-feira, 16 de outubro de 2018

Estarrecimento é quando

É preciso que o cachorro ainda pule quando eu abro a porta, será que ele pode parar com isso essa semana? Um dia abro a porta e ele me olha do fundo da sala, imóvel, ele entendeu tudo, o país, entendeu os meus olhos todas as noites quando abro a porta eu mesma ainda sem acreditar, meu cachorro de repente também com esses olhos imóveis de estarrecimento. 
Estarrecimento é quando o cachorro não consegue sair da cama para comemorar a sua chegada, e é quando você não consegue sair de casa para comemorar a sua vida, é quando o vizinho não encontra a porta, não sabe onde foi parar o seu país. 
Eles dizem que o Brasil tem mais de sete mil quilômetros de litoral, o mar batendo bonito na areia, mas já não parece assim, aonde foi o mar, não cabe o mar e tudo isso na mesma terra, estamos secos de incêndio. 
A gente procura, eu e o cachorro, as janelas dos vizinhos sentindo a mesma coisa, é preciso que os vizinhos sintam a mesma coisa, não porque diminua a coisa, a coisa é imensa, mas só porque parece que poderemos um dia pular todos juntos da cama e comemorar o retorno do país, o barulho do elevador do país subindo de volta, o som das chaves na mão do país, nós e os vizinhos, é bom saber que eles moram nas mesmas dores, esperam os mesmos gritos. 
É preciso que o cachorro ainda salte e abane o rabo quando a gente entra e os vizinhos ainda recebam desconhecidos sensuais para um pouco de vinho ou uma paixão ou um pedaço de pizza, será que os meus vizinhos vão continuar recebendo desconhecidos diante da minha janela morta, quando o país inteiro estiver apagado, vai ter alguma luz nas janelas? 
A gente escuta que o ódio cresceu ainda mais, e pra onde pode ser, que espaço tem, se não é no ônibus silencioso que a gente pega pra casa, se não é na janela do vizinho, se não é no cachorro, é preciso que o cachorro tenha alguma felicidade, pelo menos ele, a energia de pular da cama até a porta, se nem ele vier, já não sei, se eu abrir a porta e ele não vier, não sei.

sábado, 25 de agosto de 2018

Vida minha vida


Vida minha vida
Entro no bar de outras épocas, é tão bom entrar num bar de outras
épocas, as mesas repletas de outras formas de mim. Mas a nostalgia não é só minha, descubro que amanhã é a última noite desse bar que tem tantas décadas, as capas enquadradas dos melhores discos brasileiros, todas as capas do Chico Buarque, manchetes de época, tudo tem papeizinhos brancos colados nas molduras com o nome de alguém e o telefone, cada um que conseguiu garantir uma lembrança do bar.
O bar de outras épocas. Eu vinha aqui com pessoas de outras épocas, começa a me doer essa implosão do tempo em cima das próprias ruínas. Os dois músicos não envelhecem, talvez porque cantam as mesmas músicas, hoje há comoção em tudo (Vida minha vida olha o que é que eu fiz), cruzo os olhos com um ex-namorado de uma amiga, um homem que nos fez tão mal, ele canta com os braços pra cima, abraça os músicos, está também comovido, sabemos os dois todas as letras, que trágica é a afinidade.

Justo hoje, nesse bar, que acaba, justo hoje esse homem, eu e minha amiga tão juntas, duas meninas, era preciso rasgar os vínculos, enfraquecer (Verti minha vida nos cantos na pia na casa dos homens). Quem sabe hoje ele mudou, já passaram catorze anos, não sei, ninguém devolve aqueles anos que ele roubou de nós duas.
Eu poderia ter aparecido neste bar daqui a uma semana, um mês, um ano, a porta fechada, uma loja de roupas, seria diferente de ter aparecido hoje, estou de repente cúmplice das coisas todas que acabam. O ex-namorado da minha amiga não me reconheceu, eu acho, penso no colágeno que perdi. Minha mãe está fazendo 60 anos, ela gostaria deste bar, desta noite, um bar de colágenos imemoriais.
Minha outra amiga envia no celular um estudo, um alerta, beber dá
câncer, sorrio para o meu copo, eu hoje cúmplice das coisas todas que acabam. Um perigo estar sozinha no bar de outras épocas, que está acabando, onde eu vinha com pessoas que acabaram, de outras épocas. Se não conhecesse o ex-namorado terrível da minha amiga eu sorriria agora para ele, dançaríamos, erraríamos, começaríamos os próximos cinco anos mais apavorantes da minha vida (mas vida ali quem sabe eu fui feliz), um perigo a qualquer de nós estar sozinho no bar de outras épocas que está acabando.
Quando será que sabemos que um filho já pode ficar sozinho no quarto brincando, não vai botar um brinquedo pequeno na boca, a cabeça num saco plástico, o que foi que a minha mãe viu em mim e soube que eu já podia ficar sozinha no quarto, o que eu fiz pra conquistar isso, e depois quantas vezes mais, quantos anos, sozinha no quarto.
O quarto de outras épocas. Minha amiga avisa da bebida que mata mas
é o bar que está aqui morrendo (Vida minha vida olha o que é que eu fiz), que saudade difícil é esta, o bar de outras épocas, o quarto com brinquedos que eu já não ponho na boca, então eu muito sozinha com os brinquedos de várias épocas, o ex-namorado da minha amiga, tão terrível, encantador, os mesmos braços abertos para o céu, cantando as mesmas músicas, as pessoas de outras épocas, pessoas que eram completamente para-sempre, cantando as mesmas músicas no bar que a gente não sabia que um dia acabaria, porque a gente não achava que nada acabasse (Arranca vida estufa veia e pulsa pulsa pulsa pulsa pulsa mais). Quero mais.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Passado








que nem quando uma coisa nossa 
um batom, um telefone, um frasco,
cai no chão:

é preciso abaixar e apanhar a coisa
e elevá-la devagar
apenas um ou dois palmos do chão

e então nos mantemos assim curvados
vergados sobre a coisa
a examinar eventuais rachaduras
como se um milagre viesse da nossa reverência

em volta todos passam
trombam nosso quadril dobrado 
a lombar em deferência cerimonial
mas é preciso que a coisa permaneça ali 
entre a queda e o salvamento
suspensa
até que se tenha certeza de que tudo ainda é como antes

como se a velocidade do resgate
fosse mais perigosa que a queda
ou, senão

como se, após breve exame do estrago, 
fôssemos abandoná-la de volta ao chão. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sirene


De tanta alegria, esse era um amor que assombrava os meus dias com a possibilidade da tragédia, porque só a tragédia encerraria aquilo que a gente vivia. E por isso esse amor era um cão alerta dentro de mim, que me revirava as entranhas cada vez que eu ouvia uma ambulância ou bombeiro rasgando a rua depressa na fúria que exigem as tragédias.
Podia ser você, no fim da avenida embaixo de um ônibus, de um poste de energia, uma facada, um enfarto, e era importante calcular os seus horários, intuir sua geografia, e de fato como um cão que precisa antever o perigo ainda que não possa fazer nada contra ele, eu não podia relaxar enquanto aquelas sirenes não deixassem de ser possíveis reverberações urbanas dos seus gritos.
E eu pensava com muita força em você recebendo os socorros, você até sorriria para os paramédicos porque era importante que eu pensasse em você muito bem, como se a minha convicção de que você estava em perigo, mas ainda a salvo, pudesse manter a tragédia afastada. A tragédia é para os incautos, os que não estão prestando atenção em todos os caminhos do perigo.
Daí você me escrevia sobre estar trazendo chocolate ou pepino da vendinha e depois chegava e ia tirando a roupa e depois falava qualquer coisa embaixo do chuveiro e entrava no nosso lençol e me abraçava como se você não tivesse quase morrido, como se você não pudesse quase morrer todos os dias e acabar com tudo isso, como se você não corresse imensos riscos gerando toda essa felicidade, a felicidade que sempre chama tanto a atenção da tragédia.
Então só dessa vez as sirenes passaram correndo na minha frente e não acionaram nenhum tipo de mecanismo dentro de mim, talvez porque você supostamente não estivesse ali na região da nossa casa, você certamente no meio das suas correrias e essas sirenes tão completamente dissociadas de você, por isso eu continuei caminhando, descendo a avenida talvez sem lembrar que você existia e menos ainda que você podia deixar de existir.
E quando eu cheguei enfim na nossa rua as sirenes já não soavam e as luzes rodavam lentas, sem pressa nenhuma, e eu supus que fosse um gato na árvore, bem na porta do nosso prédio, e os vizinhos já quase carpideiros me olharam plastificados e ninguém dizia nada, mas também não me deixavam exatamente passar, apenas tentavam me paralisar numa tensão que não existia em mim, fosse o que fosse que eu não tinha nada a ver com isso, eu trazia suco de laranja pro dia seguinte, você ia ficar tão contente com o suco de laranja, eu tinha uma bolha no calcanhar por causa do tênis novo e vinha sonhando com um banho, mas era isso, o corpo embaixo da lona preta, você tinha pulado do vigésimo andar. O nosso vigésimo andar.
A única vez em que eu não senti o perigo, única vez em que eu não espreitei por entre os meus delírios os caminhos da tragédia, essa tragédia que tinha aprendido a seguir também a tristeza, a mais discreta das tristezas, eu fiquei pra sempre dentro daqueles quatro ou cinco quarteirões que eu desci depois que as sirenes esvoaçaram o meu casaco descendo a avenida numa pressa que eu não tinha, fiquei ali nos minutos em que você morria e eu nem desconfiava, não tentava te salvar com a minha previdência nem com a minha felicidade.
Você ficou soando dentro da minha cabeça na única sirene que me atravessou e eu não ouvi, eu relaxei uma tarde e você morreu.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Se eu fosse uma casa


Se eu fosse uma casa minha sala era assim aberta e imensa feito um escândalo que retumbasse nas paredes dos vizinhos e onde caberiam as gentes e os amores todos, um relógio na parede rodando todos os tempos, que o passado girasse sempre perto e tão em volta de mim que o tempo fosse ele todo um imenso agora. Na confusão dos meus ponteiros e a música alta e a minha bebida acabaria que ninguém nunca ia embora.
Cada livro na estante seria um livro que eu não escrevi, e seriam tantos que durante a noite tombariam sobre a minha cabeça na forma de uma insônia. As lâmpadas só se acenderiam com a energia dos outros, seria preciso que o telefone tocasse e que os amigos me escrevessem e apreciassem minhas fotos, que os homens viessem e depois voltassem sempre, querendo ficar e viver comigo, ainda que não pudessem ficar todos ao mesmo tempo, por maior que fosse a sala, para cada lâmpada acesa seria necessário um elogio, uma risada que me dedicassem, mãos dadas na rua.
E cada colher seria um pequeno espelho deformado de mim, um espectro dos meus olhos que me envergam e me incham, as colheres cintilariam neuróticas pela mesa, pia, ganchos nas paredes, haveria colheres refletindo concavidades em todos os cômodos.
E cada ovo da cozinha era um amigo, o barulho da casca quebrando de leve na quina da pia no mesmo som de uma amizade que se rompe, o ruído delicado e breve de qualquer coisa que se transforma, ou às vezes explode sem querer no chão e fica ali brilhando amarelo e inútil – não se tornará nem um suspiro.
A cama seria a minha memória, lembranças de tantos anos ressoando nas molas, tilintando metálicas em espirais seculares de vai-véns noturnos, matinais, memórias cinéticas de tardes perdidas, homens catapultados até mesmo pela curva tão complacente dos meus ponteiros, queridas molas que não esquecem, guardam no seu sacolejo e me devolvem elásticas cada pulsar que eu dei, mesmo criança em saltos proibidos, os pezinhos descalços e as mãos para cima, as molas a impulsionarem para o alto, risadas, alguém dizia que eu ia quebrar a cama, que nunca quebrou, ou que eu cairia, eu que caí tantas e tantas vezes depois e talvez justamente por não pular mais das camas. As molas e seus saltos de um jeito ou de outro sempre um pouco proibidos, vibrantes.
A água da torneira seria a minha tristeza, e minha alegria, e o meu amor. A torneira jorraria primeiro pelos encanamentos e se não acolhesse derramaria pelos ralos, pias, molharia as visitas e subiria encharcada pelas meias, calças, e escoaria pela porta o que não me bastasse, tudo que eu-casa não contivesse, afogaria um a um todos os filhos que eu não tive e até mesmo os que talvez preferisse não ter tido, e eles gritariam por instantes mas logo engoliriam depressa em golfadas toda a minha dor e o meu amor assim sufocantes, inundaria a calçada, e talvez chegasse a incomodar os carros, e ainda assim essa água toda, essa torneira, ninguém repararia, continuaria escoando e afogando e espantando tantos anos sem ninguém estancar.
As janelas seriam gigantes, elas seriam as outras mulheres. Cada prédio, cada casa, cada grito na noite, cada braço mais fraco que o meu, cada canto mais forte, todas ali ao alcance dos olhos, as janelas assim numa invisível rede que não cobrisse nada, mas que amparasse, incansável, cada salto, cada queda.





quinta-feira, 7 de julho de 2016


O crime tem duas pontas. Uma cativa, a outra aponta.Todas as mães podem perder os filhos para o crime. Blindam os carros no Rio de Janeiro, como se o carro fosse o próprio corpo. Prendem os filhos no Rio de Janeiro, como se o crime abandonasse um corpo preso. Abandonam os corpos no Rio de Janeiro. Os nomes das mães tatuados, as mães nos braços dos presos. As mães olham os ponteiros. Nas duas pontas do crime, tombam os filhos. Cortam uma ponta do crime e ele se espalha em torno de tudo, marginal. Todas as mães podem estar sozinhas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O tempo do farol


Os meninos do farol da entrada de São Miguel Paulista têm de saber o tempo preciso de cada conversa, o clímax no encaixe perfeito entre sinais vermelhos, senão no meio da história os amigos em disparada entre os carros, e o orador a administrar solitário a evasão da plateia sob o sol de um milhão de graus, depois a disfarçar a pequena humilhação crônica no resgate de um assunto que morreu pisoteado no asfalto com as balinhas de framboesa.
É preciso voltar para casa com no máximo cinco saquinhos não vendidos e dois gestos suspensos em histórias mal calculadas, os braços no ar bem no meio do melhor relato, todos correndo como se a conversa não tivesse a menor importância, justo agora que tem também uma menina, uma moça, que talvez ainda sustente um pouco mais o olhar no interrompido da vez, e vá correndo quase de costas com as balinhas, só até o colega dispensar a gentileza e correr também, nenhuma história merece tanto prestígio.
Esses meninos do farol da entrada de São Miguel Paulista talvez tenham raiva porque até apurarem esse tino narrativo são calados tantas vezes nas suas teatralidades, uma vida de hiatos. É capaz que tenham raiva porque já não são meninos, tão rapazes, e ainda meninos, sempre meninos.
Ou talvez tenham raiva porque aquele não é um farol da entrada de São Miguel Paulista, é a entrada pra quem vem do centro da cidade, pra quem vem de mais perto daquilo que é o perto, mas para eles é a saída, a borda, a beira de uma ilha cercada de córregos e avenidas muralhadas terrenos campinhos de futebol, uma ilha de santos paulistas cheia de assuntos mas também cheia de farol e é preciso calcular o tempo, calcular as vendas, e a menina é nova aqui e também não é mais menina, nem arrisca conversa, ainda testando os ciclos do farol da borda de São Miguel Paulista, agora sob uma chuva fina, o marulho dos carros na água do asfalto, à beira de casa, o farol de um mar que engole em ondas programadas as conversas dos seus banhistas.
Os meninos do farol da orla de São Miguel Paulista também têm uma lista de coisas rápidas a dizer antes da próxima onda, e ainda assim às vezes um vidro abaixa e uma pergunta fora do roteiro e uma resposta animada que quer continuar mas o farol muda e a água leva o carro numa curta buzina carinhosamente paulistana e os meninos sorriem, porque não tem importância, há outras histórias, outros ouvintes, a menina já ensaia uma palestra aos meninos, quarenta segundos de atenção, o tempo perfeito, em uma semana ela já sabe o que cabe e o que não cabe no tempo do farol, o tempo entre as ondas de São Miguel Paulista.