segunda-feira, 31 de março de 2014

decote, flor e zíper

A janela aberta e o calor da noite parece que está em todo lugar, ela enxuga a testa na manga da camisola, Virgem santíssima, essa noite de pecado e eu aqui no cubo, minha casa é um cubinho, já cansei de dizer isso. Enche o cabelo de grampos até afastar da nuca os fiozitos molhados, a mão em leque num abano mais charmoso que eficaz, cotovelos no parapeito.
A escuridão quieta de apitos distantes dos vigias pelos becos, O sábado é mudo só nessa rua, nesse cubo. Apoia a sobrancelha na grade da janela, Seria pior se além de cubo fosse cadeia, virgem santíssima, não gosto nem de pensar.
A taça de vinho branco desgelando sobre a pilha de livros, e a revista aberta no modelo roxo, laço na cintura. Volta à mesa, a máquina abarrotada de retalhos, Talvez se eu reforçasse um pouco mais no decote. O pé descalço no pedal e o barulho da agulha rápida no traçado preciso, alfinetes na boca e o olhos tensos no desenho, qualquer deslize e haja remendos. A mão alternando entre o cigarro, o vinho e o tecido entortando sob as engrenagens.
O quarto um cubo avermelhado de abajures, procura nas gavetas o óleo para o cabeçote, Desse jeito não termino nunca. Dedilha as bordas do decote e folheia depressa a revista, Ponto em trança... talvez uma flor preta com esses restos aqui, vai ficar uma delícia. O cubo cada vez mais quente, goladas de vinho e o melado escorrendo no queixo, limpa com o dorso da mão. Cigarro, janela, abano, vinho, pedal. O silêncio e a intermitência das correias, polias, motores, a agulha na obstinação frenética sobre o pano roxo.
Esse lugarzinho é um cubo desses japoneses, é japonês, não é? O quarto vazio mas ela interrompe a costura para falar, o repentino sossego de todo um bairro morto, Aqueles cubos coloridos que tem de retorcer e trocar os lados até ficar da mesma cor, meus retalhos coloridos pelo chão, essas paredes que de repente recuam, apertam, uma sufocação, virgem santíssima. Deixa o silêncio um segundo e limpa o sono dos olhos num aperto doído de indicadores. A máquina cortando a noite em mini-britadeiras prateadas, o ziguezague brilhante embaçando a vista, Daqui a pouco algum velho sonolento me enfia o nariz pelas grades, o silêncio, o silêncio! um cubo deve ter vizinhos em cada um dos seis lados, virgem!
Puxa com cuidado o vestido e vai colhendo os restos de linha, escova as pregas e faz o teste do zíper num cuidado improvável, Duvido que você resista a uma abordagem das violentas... imagina o vexame você travando justo numa hora dessas. Tira a camisola sem conferir a janela e entra na roupa que lhe sobra na cintura, nos seios, pende sobre os ombros em ares de arlequim. Aperta os seios no espelho e faz um beicinho olhando fundo nos próprios olhos, a barra da saia quase nas canelas, Essa flor a gente prende aqui, vai ficar deslumbrante.
Desce do vestido e pendura na maçaneta do armário, uma sombra feminina a espreitar-lhe o sono, Se ventasse era capaz até de você dançar nesse cabide. Deita num salto, os últimos goles do vinho, as paredes trocando as cores, retorcendo o cubo no encaixe impossível, Vai ficar bom nela, você vai ver, com aquele peitão você vai ser o mais bonito de toda a festa, talvez ela me agradeça com um beijo rápido. Levanta de súbito para ajustar a flor no alfinete, Pode ser que peça ajuda pra vestir, e você não vai me deixar passar vergonha com esse zíper vagabundo, certo? muito bem. depois ela vai dizer que era exatamente o que ela estava pensando e vai procurar na carteira o resto do dinheiro e eu vou dizer que não, que você é um presente, você é especial, e vou terminar de subir o zíper, e ajeitar a flor, e você vai me olhar com essa carinha de cumplicidade e, se eu tiver sorte, com vento ou sem vento nós vamos dançar feito loucos, eu e você, cada vez mais cheios do perfume doce, e rodar e rodar e até eu tombar sobre você, o decote, a flor entrando na minha boca.
Faz um carinho lento em volta da flor, e volta para a cama, séria. Fixa de novo os olhos no vestido, Agora dorme.

Sobre poços, sucos e formigas



Eram recreios cinzentos de correrias alheias, vozezinhas pelos corredores, pátios, quadras. Ela saía da sala de aula devagar, quem sabe tentando ficar, evitar a vista da alegria fria que não convidava, a festança que não abria sua rodas, sua músicas. A professora passava e sorria, às vezes condescendente, às vezes com indisfarçável piedade.

Ela sentava gorducha num dos andares gelados, atrás de um vaso enorme de onde cresciam miniárvores. Queria encolher e sumir doída na argamassa da parede, mas sempre o corpão grande demais, os cabelos num devaneio insolúvel, e elas tantas passando minúsculas, saltitantes, a lisura dourada dos fios cintilantes de sol, Nós-quatro-eu-com-ela-eu-sem-ela-nós-por-cima-nós-por-baixo-nós-quatro-eu-com-ela-nós-quatro-eu-com-ela-eu-com-ela.

Um dia a professora perguntou por que ela estava sozinha. O importante era demonstrar de pronto que era apenas uma opção, evitar a todo custo as comoções desastrosas dos cuidados pedagógicos. Era prioritário que se impedisse um discurso na sala de aula, a professora segurando a mão dela e lembrando a todos que não se devem excluir coleguinhas só pela aparência, ou pelo tamanho.

Aqueles recreios intermináveis com bisnaguinhas esmagadas no papel alumínio, o suco, o bolo, o Yakult, e a fome que continuava. A vontade traidora de comprar churros na cantina, todo o dia a resistência, a contagem dos minutos até o sinal da aula, até que não desse tempo de aumentar a barreira entre ela e o mundo com mais centenas de calorias.

Em algum canto fundo ela sentia que era melhor, que estava além de tudo aquilo, dos pisões, empurrões, das zombarias. As histórias engraçadas que escrevia, as professoras numa adulação sem fim. A Lua que a ouvia atenciosa e exclusiva. Mas era importante esconder o que não prestava, e o que não prestava era grande demais pra caber em qualquer discrição.

A educação física trazia o couro cruel das boladas diretas na cabeça, no estômago, impossível desviar da agilidade das princesinhas, dos meninos tão pequenos gritando-lhe o sobrenome – que terminava em ÃO – e então atirando humilhantemente a bola fatal, Queimou-queimou-queimou! Uma vez na sala de aula furou sem querer a palma da mão com um lápis, o sangue correndo rápido, a pele subindo, mas esperou silenciosa o seu número na chamada para gritar presente e só então andar desajeitada até a frente – era obrigada a se sentar na última cadeira e permitir a visão dos normais – chorando e pedindo para ir à enfermaria.

Quando vazou a garrafinha de suco, não quis atrapalhar a aula, passou horas preocupada em reter o líquido com a régua, um rodo sem ralo e sem pano puxando o melaço para baixo da cadeira, até que os alunos reclamaram de suas bolsas molhadas e a bronca veio em dobro. Sempre ela atrapalhando, sujando, sempre a gorda trazendo comidas impróprias na escola. Muito antes disso, aos dois anos, foi pela primeira e única vez encaminhada à diretora, por ter espontânea e barbaramente espancado um minúsculo menino que a caçoara demais quando derrubou o guaraná inteiro na mesa de aniversário de alguém. Sempre o comprido dos braços, o exagero do quadril esbarrando na fragilidade dos líquidos tão talentosamente contidos pelos normais.

Para diminuir psicologicamente o tamanho, buscava o ridículo nos adereços dos Bananas de Pijama, na mochila da Barbie. Lamentava não caberem nos pés os tênis de velcro do ursinho Puff – desde os oito anos calçava 38-39, e logo veio o sutiã. Logo virou a Louca, a Mongol, a Nenezão, até que começou a sentir gosto pela humilhação, pois era assim que recebia mais e mais atenção. Passou a trazer presentes das lojinhas de 1 dólar, que distribuía aleatoriamente – com algumas preferências – na entrada da sala. Começou a ter amigos, depois uma amiga de verdade, também gigante, mas que não tinha qualquer problema com isso. O seu grande amor – amou-o chorosa por quatro anos, desde os oito anos – finalmente segredou-lhe que ela não era bonita, mas “dava as coisas”, era boa. Era boa.

Hoje não sei dessa menina, mas tudo dela resiste imbatível em mim. Tenho sonhado com formigas – o que parece indicar solidão. Tenho tido recreios solitários de mil vozes contentes, mas os professores já não se preocupam com a minha inabilidade em abordar os outros. Tenho pedido carinho demais e recebido infinitamente menos, e tenho concluído o revés do que pensava a menina gorducha: as pessoas que se bastam não são incrivelmente suficientes e interessantes, elas têm na verdade muito pouco a trocar com os outros.

A menina sozinha era um poço de amor acumulando num canto, um poço doendo profundo de devoção, uma entrega completa esquecida na água parada daquela solidão incompreensível. A menina sozinha ainda é esse poço, mas cada vez mais turbulento de tanta pedra, tanto gelo, tanta gente que buliu aqui e sumiu no vazio dos seus egos secos. Eu e a menina somos líquido quente, doce. Líquido que vaza vexaminoso das garrafinhas, copos, latinhas, que transborda exagerado de cada abraço, que não cabe mesmo na imensidão de mim.

O vôo



Exploro o espelho como querendo virar suas páginas, eu quero ter coragem de me perguntar por que eu preciso às vezes me prender assim, por que é que de uma hora para a outra eu baixo os olhos e ato pés e mãos aos móveis mais pesados da sala nova.
Bem na hora do vôo as minhas asas num muxoxo proposital e vexaminoso, as garras escondidas na minha própria carne, os olhos distraídos num torpor de fantasias. Por que será que justo na hora de crescer meus braços, estender as mãos até tantos dos meus sonhos – por que tantas mortes no meu sonho agora? Por que tanta morte nos meus sonhos? –, por que será que quando o mundo me vê tão grande eu me encolho doída na caixinha mais minúscula que alguém me oferece?
Por que será que a vertigem do vôo que eu talvez pudesse dar me finca os pés, afunda os passos nessa lama densa. Que lugar comum é esse que a que eu me entrego e me apago e me rasgo.
Onde a vontade de quebrar minhas correntes, despontar livre de novo, desperta, desencaixada dos cubículos pequenos, da mesquinharia da vida dos outros, de volta no eixo das minhas palavras, do meu samba, da minha noite.
De dentro da caixa mais pequena que me coube, chego a pensar que foi o medo da queda que podia vir depois de um vôo. Mas virando as páginas desse espelho cru, penso que é o pavor de bater mil vezes as asas, espalhar vento nos cabelos de todos, fazer um estardalhaço de giros, arfadas, gritos, sem conseguir – nunca, jamais – sair do lugar.

Matriarcal


A janela aberta e dois ventiladores bamboleantes, a ferrugem arranhando num ventinho quase sem movimento, Pode vento que não se mexe, mãe? Alena bate no chão um boneco verde, entre o losango das perninhas molhadas de suor e carpete. Bem baixinho, faz a voz do bicho que conversa tristonho com uma tampa de caneta.
Mãe, pode uma dinossaura ter um filho canetinha? Estela suspira um monossílabo, virando a poltrona de leve na direção de um dos ventos estáticos, Não é possível que não se faça uma porcaria de um vento! Pende a cabeça para trás e estica os braços numa cruz úmida, pontinhos de pó misturando na testa. Passa o dorso da mão displicente na cabeça da menina. Queria saber, mãezinha, pode um bicho desses ter pra filhote uma canetinha...
Lá fora o silêncio do calor já abafou todas as vozes, até a feira vende silenciosa as suas frutas derretidas, Nesse calor ninguém faz filhote, não, Alena, nem dinossauro nem caneta. A menina aperta o plástico do boneco e olha os olhos estrábicos de ternura, a lingüeta do bicho pendendo para o lado num charme perene, Deve poder sim, mãe, é só o pai ser bem caneta, pode nascer uma caneta... verde, talvez...
Estela alcança as chinelas com as pontas dos pés sem se mover da cruz, Vamos virar bolinhas de sagu nessa fervura. Alena faz o boneco escalar devagar a poltrona até chegar à cabeça pendente da mãe, os olhos envesgam de ponta-cabeça diante da linguinha marota do dinossauro, Por que você não leva esse bicho pra comprar umas laranjas aí na frente, ahn?
Alena senta de repente no chão, encosta nas costas da poltrona, a cabecinha encaixada embaixo da cabeça da mãe, Meu pai é como, mãe? eu pareço mais com ele ou com você? Estela desfaz a cruz desenrolando o dorso, a cabeça doída da peripécia. Afasta os cabelos da nuca, abana, sopra por dentro do vestido, Por que você pareceria o pai, Alena? criança não tem nada que ver com pai, não. pai é coisa que inventaram, você não tem mais idade pra acreditar nessas coisas.
Alena levanta e rasteja no tapete quente até a janela. Contempla quieta a lentidão do sol sobre as gentes passantes, Mas ninguém faz filhote sozinho, né... Estela respira num enfado, ajeitando a coluna na poltrona, E você não está vendo que você inteirinha foi eu que fiz sozinha, menina? ...vem aqui. Alena olha a mãe e afasta a cabeleira dos olhinhos sérios. Corre de repente num salto, cai num abraço suarento que ela aperta esmagando o dinossauro entre as barrigas. Você vai aprender na escola, Leninha. Estela ajeita a menina no colo em posição de estudos, as perninhas imóveis de atenção. Antes ia tudo bem, mas um dia eles inventaram que os filhos eram deles, amarraram a gente em casa pra não acontecer filho de outro, e ficaram aí, mandando em vocês, enchendo a vida dessas regras deles. tudo mentiras, Aleninha, tudo umas mentiras.
Alena ilumina o sorriso confuso, acomoda a cabeça no colo quente. Estela vai acumulando devagar os cabelos da menina num chumaço molhado, procura alguma coisa pra amarrar o penteado, Fui eu que fiz você, completinha.
Alena balança as perninhas, abraça o dinossauro num consolo sincero, Então não tem jeito de nascer uma canetinha.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Se você fosse sincera




Fui desviar o olho pro céu e notei a velha lá em cima no terraço. As pessoas continuaram passando, esbarrando, cornetas, confetes, espumas, a bateria seguindo na frente desencontrada, as mesmas marchinhas já desde uns quinhentos metros, Se você fosse sincera ô ô ô ô, a velha tão branca com o olho franzindo no sol, o calor me doendo na cabeça, no ombro, e toda a gente ainda me empurrando, cantando, os carrinhos de cerveja pedindo espaço, a pele da velha com bolhas de outros sóis em outros carnavais. Apoiei num carro estacionado e encolhi os pés pra que menos pessoas pisassem, e não é isso o Carnaval, encolher os pés pra que ninguém pise?
Embaixo do terraço da velha o portão de um ferro avermelhado protegendo uma garagem em que ninguém entrava há pelo menos uma década, a casa tão grande e majestosa sumindo numa decadência de rainha, a velha num pijama azedo às três da tarde olhando atentamente um carnaval que escorre sem talento embaixo do terraço. O joelho dela doendo a cada pulo das mulheres na rua.
Do lado da velha, segurando de leve o braço murcho, a preta da casa, lá nos seus sessenta e cinco anos, muito forte, a cara triste, olhando a festa num enfado evidente, sussurrou algo no ouvido da patroa, quem sabe algo como Vamos Dona Eulália Já Está Bom De Sol Por Hoje, e dona Eulália sem mover o braço nem os olhos e apenas permanecendo onde está porque é assim que ela vem dando as ordens ultimamente, ainda mais no meio desse barulho.
Sinto vergonha de estar aqui, nem tanto de Dona Eulália que embora doam as bolhas e os joelhos olha o carnaval passar sem querer voltar pro quarto, do alto de seu terraço descascado de azulejos quebrados e plantas mortas, mas da preta da casa, que olha a rua sem inveja nem saudade, estudando a gente que passa com o canto do lábio numa torsão de desgosto, o cenho contraído no estranhamento alienígena a se perguntar talvez por que tanta alegria num feriado só, por que tanto pulo nessa música que já vai distante e esses pés sambando tão determinados e encharcados de sarjeta cachaça e groselha. Estou com vergonha é diante da preta que talvez nos olhe como aos netos de Dona Eulália que não a visitam, às vezes nem para fazer o pagamento da governanta que está quase envelhecendo junto, pelo menos a menina dia desses veio lhe dar uma televisão antiga dessas pesadas, um namorado esquisito ajudou a colocar no quartinho dos fundos, Mas não assista muito alto senão você não escuta a vovó.
A casa parece comprida e deve ter aos menos cinco quartos vazios acinzentando de umidade, mas a preta da casa continua nos fundos, em algumas manhãs até pega chuva entre o quarto e a cozinha, ela que chegou na casa antes dos netos, mesmo dos filhos, nem tinha nome direito e até hoje também o nome que deram nunca lhe valeu nada demais.
E agora a multidão que segue o bloco, mobilizada por uma compaixão contagiante, começa a acenar à velha e à preta, gestos convidativos como se a elas só faltasse o estímulo certo, como se a artrose a engessar as juntas fosse um capricho, um jogo de charme, e eles chamam mais, sorrisos, saltos, a velha esboça um sorriso, a preta cochicha qualquer coisa, talvez sobre a água que ficou fervendo para o escalda-pés.
Um grupo de cinco jovens estanca o cortejo embaixo do terraço fazendo mais sinais para as velhas, um deles ainda levanta uma garrafa de cachaça, gentil oferta que não chega ao deboche porque eles são o rosto da bondade nas suas sandálias coloridas, cabelos grudados na geleia amistosa dos cachos permanentes, o sorriso ingênuo ampliando o convite à folia, até seguirem na dança como se a velha não existisse, porque de fato já quase não existe, nem a preta da casa.
E as duas ainda ouvem ao longe a marcha distorcida dos alto-falantes e ladeiras, e a velha sorri talvez pensando nas tradições que não morrem e a preta puxa de novo o braço da velha na direção da casa, quem sabe pensando nas coisas que simplesmente nunca mudam, Mas como a cor não pega mulata, mulata eu quero seu amor.




terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Vocês que nunca chegaram a me amar



Vocês, vocês todos, que nunca chegaram a me amar, um minuto de silêncio por cada ano da minha vida que eu gastei gritando, girando, dançando, vazando por toda a casa, escorrendo pelos caminhos viciados até os mesmos endereços, o tempo rasgado de ansiedade na espera pelo ônibus que não passava, querendo chegar depressa aonde eu era apenas conveniente, agradável, talvez valiosa, mas nunca tão ansiada, aguardada, nunca amada, vocês que nunca conseguiram me amar, eu espero que vocês me perdoem.
Espero que perdoem que eu tenha sido tão difícil de largar, que eu tenha compensado em dedicação e tolerância tudo o que não produzia em paixão, que eu tenha feito tão numerosas as manhãs em que vocês acordaram sem vontade nenhuma de me ligar, e tantas as tardes em que acabaram me ligando simplesmente porque eu não liguei, e tantas as noites em que dormiram comigo se perguntando o que será que faltava se eu sempre trazia tanto.
Vocês, que há 27 anos não conseguem me amar, espero que um dia me perdoem por eu ter ocupado em zelo, préstimo, risadas, quase todos os minutos dos seus dias e dos seus pensamentos que vocês tentavam preencher de mim e não conseguiam de tão lotados que já estavam de mim mesma.
Por eu ter sido dessa extrema devoção sem conseguir ser pequena nem por um instante, por eu ter me dobrado em súplicas por esse amor que vocês não conseguiram me dar, mas sem que de fato me diminuísse, sem que eu pudesse ser, nem por um segundo, realmente frágil. E por isso o meu amor tenha sido assim incompreensível, e impossível de se responder.
Espero que vocês me perdoem porque eu fui sempre tão gigante e descontrolada que deformei todos os meus espelhos. E depois de tanto tempo sem saber ser nem sequer um instante de ausência, eu tenha ido embora sem reparar no silêncio que eu deixei no meu lugar, no tempo que depois talvez vocês tenham passado gritando, e girando e escorrendo por caminhos que eu já não andava, eu espero que vocês tenham me perdoado, e algum dia, quem sabe depois de algum tempo, tenham, sozinhos, loucamente me amado.