quinta-feira, 16 de abril de 2009

texto bem velho sobre o mamão da mila! - revivendo o HD antigo



Mamão

Ela se sentou sobre o pé direito, na cadeira da sala, e deixou o outro pé balançar entre as unhas do gato. Deitou a cabeça no braço apoiado na mesa de vidro, e foi comendo, displicente, a pequenas colheradas, um mamão. Aos poucos percebeu que o mamão a contentava naquela manhã; quem sabe até ele merecesse que o comessem direito. Ajeitou-se na cadeira, livrando sua meia preta das patas do gato e cruzando os pés. “Perna de índio!”, ouvira tantas vezes na escola e outras tantas já dissera quando dava aulas.
Foi comendo o mamão com cada vez mais avidez, admirada da doçura da fruta. A colher raspando tímida no pomo e trazendo rugas alaranjadas à boca. Chegava a sorrir, a menina do mamão doce. Via a fruta emagrecendo aos poucos, e pensava até que à última colherada me faria um telefonema -- você não sabe que mamão doce acabei de comer!
Acontece que, quase ao fim da refeição, um azedo insopitável lhe fez cuspir sobre o restante. Ficam nela uns lábios contraídos para o lado, uns olhos arregalados e uma testa franzida de explícita decepção. Ela olha o mamão traiçoeiro, com a última mordida cuspida com rancor dentro dele, e vê nele todo o mundo que algum dia já conheceu. Os amigos, os pais, professores de infância: todos grandes e frustrantes mamões. Tão doces na superfície, tão apaixonantes, até que chegava ao âmago deles e doía na língua o amargo, a podridão.
Quando me contou sobre os mamões de sua vida, primeiro pensei no meu âmago e temi que lhe tivesse azedado na língua. Depois temi que ela jamais tivesse me cavado tão fundo com sua colherzinha displicente, sem nunca sentir na boca todo o meu amargo.
Depois, pensei que meu mamão é diferente do dela. As minhas pessoas chegam totalmente desinteressantes, poucas me levam à primeira colherada. À segunda, quase nenhuma! Vão abrindo aos poucos o meu apetite, a colher indo e voltando mais fundo. Cuidadosa, embora com mais e mais vontade. Quase todas endurecem ou estragam antes de dar à minha colher suas energias mais íntimas. E o pequeno azedo na ponta da língua me dá mais encanto do que todas as camadas doces, o azedo escancarado sem disfarces, entregue sem vergonhas. Revelar o açúcar, qualquer um revela! Especial é o mamão que me deixa chegar àquilo que procura esconder. Quero um mamão que me deixe realmente prová-lo até o final, doce ou azedo. Nu e descascado à minha frente. E que, de tão devorado, não tema mais nada e se faça cada vez mais doce na minha colher.
Depois, ainda na mesa do mesmo bar em que ela reclamou das frutas da sua vida, lembrei, com desgosto, de que simplesmente detesto mamão.

domingo, 12 de abril de 2009

Mago


Quando eu tinha 13 anos arranjei um namorado que tinha quase 17, espinhas, boné e walk man. Eu decidi que a gente se apaixonaria um pelo outro, porque era assim que as coisas tinham de ser. Eu infernizava a vida dele com perguntas constantes e labirintos adolescentes dos quais ele nunca escapava sem me machucar: se um mago surgisse e revelasse que eu seria muito mais feliz com uma outra pessoa, você me levaria à festa e me deixaria do lado do homem e sumiria pra minha vida dar certo? Então ele pensava uns instantes -- ou fingia que pensava -- e depois respondia que sim, que me levaria, e eu chorava o resto do dia em discussões inférteis porque na verdade ele tinha desapego, não lutaria por mim, abriria mão de um grande amor sem qualquer sofrimento. Ou então ele dizia que não, que não me deixaria, e eu chorava porque ele tinha um amor egoísta, estava me usando e não se importava que eu não fosse feliz com ele.
Amando ou não esse menino cresceu do meu lado, quase cinco anos reprovado em testes de amor e devoção, mas não largava porque precisava de alguma coisa em mim. Talvez dos meus anseios pueris por um amor arrebatador, ou da minha própria devoção. Precisava de mim pra desligar a televisão e censurar as refeições gordurosas de moleque teimoso, precisava de alguém que não soubesse absolutamente nada da vida material, do funcionamento dos objetos, dos países, dos animais, do mundo. Alguém a quem ele pudesse inventar as respostas, ensinar jogos de baralho que ele aprendia na vida, na noite, nas viagens, e vinha mostrar à sua Penélope encantada. Precisava de alguém que risse de tudo que ele dizia, precisava de um retrato na carteira, cartas apaixonadas. Cinco anos porque precisava de alguém para os jogos mais femininos no videogame, alguém pra comprar cuecas, alguém pra dividir um cachorro, alguém pra lembrar o tempo todo, o dia inteiro, que era preciso amar.
Hoje eu encontro o moleque já sem espinhas e já com a televisão desligada, bebemos duas cervejas e eu dou risada de absolutamente tudo que ele diz e continuo não sabendo nada da vida material, que ele me explica com meias-verdades que eu absorvo sorrindo e depois reproduzo aos trancos preenchendo os vazios da memória e dizendo aos amigos que foi ele que disse. Hoje eu encontro o moleque e entramos nas mesmas discussões inférteis, qualquer coisa no sangue que ferve no borbulhar da argumentação. Mas já sabemos que, quando um mago explicou, pela última vez, que seríamos mais felizes assim, cada um foi pra sua festa encontrar os seus. Ele me levou pela mão e olhou fundo nos meus olhos quase adultos desejando boa sorte, e depois de umas cabeçadas e de um medo quase virginal, a gente caminhou muito bem.
Hoje encontro o moleque e durante a cerveja ou vinho ele me explica alguma coisa que eu não sei e eu dou risada de algo que mais ninguém riu, entendo errado qualquer frase óbvia, pergunto da frieza dos homens, e ele estuda a fragilidade das mulheres, seus pequenos bibelôs de ferro. E às vezes eu penso que era isso que o mago queria, era exatamente isso que o mago sabia que a gente precisava encontrar.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Continho

Pensei no celular, com a bateria quase acabando. Mas pensei de um jeito diferente, de um jeito literário. Quando um pensamento vem de um jeito literário ele vem gostoso, vertiginoso, a imagem se forma de repente num canto diferente do cérebro e eu fico com medo de que ela suma sem que eu tenha tempo de ver tudo, mas também não posso olhar demais se não a nitidez estraga todo o prazer sombrio de alguma coisa que promete ser mais do que está sendo. Pensei na bateria que talvez fosse o motivo de eu estar voltando pra casa, os dois ou três dias de duração da bateria são a medida das minhas idas e vindas.
Pensei na minha mãe, querendo saber se hoje eu vinha dormir, se amanhã, se ontem, e pensei em mim pensando que devia ir pra casa senão ficaria sem celular todo o feriado. E essa idéia da mãe que sabe que a filha volta quando acaba a bateria flutuou cor pastel no fundo da cabeça e eu decidi que encaixaria no próximo Exercício, talvez ainda hoje.
A Mila costumava perceber quando o pensamento vinha literário na minha cabeça, qualquer coisa no meu olho que se perdia e um frio na barriga e talvez porque nela também viesse o pensamento ela fungava feito um cão farejando o ar e brincava que sentia cheiro de continho em volta de nós. Minhas melhores vertigens são quando a Mila de repente vira um pensamento literário no fundo da minha mente e eu tenho pouco tempo pra chegar em casa e digitar a Mila embaçada atrás da cabeça, na fumaça do cigarro.
Mas depois pensei que é que nem fazer cocô. Se me vem a inspiração não posso demorar, não posso pensar muito nisso, tenho de ir até o banheiro fingindo pra mim que não sei de nada, que nada está acontecendo. Vou chegando e me convencendo de que vai ficar tudo bem se não der certo, outra hora quem sabe, não foi dessa vez. Mas na verdade eu sei que fico carregando pesado no corpo todos os cocôs e todos os textos que não deram certo.
Vou me aproximando e a idéia que eu fingia pra mim que não existia e ao mesmo tempo não podia deixar sumir no túnel escuro infinito de mim pode dar certo e pode não dar. Meu pai diz que eu escrevo que nem ele faz cocô. Mas, pra mim, fazer cocô é incrivelmente difícil.

terça-feira, 24 de março de 2009

Da velha volúpia de me sentir translúcida (luiz, você ainda está por aí?)

Hoje à noite o ônibus me fez pensar um monte de coisa a meu respeito, coisa boba que ninguém sabe mas fiquei pensando que é um absurdo ninguém saber. Quero ser um pêssego descascando numa puxada só, óbvia e doce na vermelhidão em volta do caroço.

Ninguém sabe que há dias – melhor dizer há anos, há todos os anos – boto o fone de ouvido no ônibus e. Primeiro vou dizer que todos os meus fones de ouvido têm fases bem delineadas de suas vidas: primeiro estão novos e pouco a pouco me convencem de que o antigo era melhor; depois de um mês, um dos lados perde a cabecinha de borracha, e eu continuo enfiando no ouvido com o metal arranhando e quase soltando; depois essa lado quebra de vez e eu fico escutando de um lado só, até me frustrar com o silêncio total e me dedicar a encontrar o próximo. E é essa dinâmica que me faz parar de ouvir as mesmas três músicas e passar para as próximas três.

Todos os dias tenho colocado o fone que está na fase de funcionar só do lado esquerdo e ouço Living La Vida loca do Rick Martin no último volume, e me imagino fazendo coreografias de musicais Broadway, geralmente tenho saias muito curtas e faço movimentos rítmicos completamente alheios à minha realidade física. Depois ouço a mesma música de novo, e pela terceira vez, e imagino que alguém que não me conheça muito bem esteja assistindo maravilhado, querendo entrar na minha vida louca.

Eu podia guardar essas coisas pra mim e pulverizá-las todas entre os meus personagens pouco a pouco, mas não seria honesto, nem me satisfaria, e além disso ia aumentar a paranóia insuportável dos meus amigos de procurar vestígios de mim nas minhas criaturas como inspetores ardilosos à caça de digitais engorduradas na cena do crime. Quando eu era pequena imaginava uma câmera que me seguia, e meus conhecidos eram fiéis telespectadores. Quando eu era pequena, isso devia ser falta de amor-próprio, e hoje em dia deve ser amor-próprio demais: vocês não podem perder um detalhe desta maravilha que sou eu.

Algumas pessoas ouviram falar, mas ninguém desconfia o quanto minha cachorra me magoa quando não se importa comigo e foge de mim. Minha cachorrinha me evita. Aliás isso já está no livro novo que eu estava escrevendo, e dane-se o próximo inspetor que tentar me algemar com essa história de me expor nos meus personagens, eles todos fazem isso, todos os escritores que eu amo, todos aqueles que eu daria tudo pra ser.

Aliás, ninguém sabe que esse meu próximo livro está parado por algumas razões, talvez eu não saiba que é porque não estou pronta para falar de um amor de lésbicas como aquele. Ou talvez seja porque eu estava gostando muito e fiquei com medo, o maior medo do mundo de o meu namorado não gostar. E ele morre de medo de não gostar, cada palavra que eu escrevo é uma contorção nos olhinhos aflitos, Ai meu deus o que eu vou dizer se eu não gostar, o que eu vou fazer, eu não estou gostando, meu deus alguém me ajude isto está uma porcaria, socorro! E ele é o único que ainda diz alguma coisa quando não gosta, os outros ficam em silêncio, e meu deus como eu detesto o silêncio de vocês, isso é outra coisa que vocês têm que saber.

Outra coisa que ninguém sabe é que eu gosto, sim, de direito. Daquela partezinha que eu fico fingindo pra mim que um dia vou poder mudar. E que eu queria que acabassem de uma vez por todas com essa história de reputação ilibada pra algum dia eu virar juíza, eu poderia sim virar juíza e fazer de um jeito diferente, avisar todo o mundo que não precisa de terno, fazer tudo ao contrário – e ficar condenada ao interior do interior do estado para sempre. Mas não vão tirar a reputação ilibada – e isso tudo fica no Google em cachê sabe-se lá por quanto tempo, e além do mais eu sou um pêssego descascando ao mínimo toque – e a Justiça nunca vai chegar na lama, nunca vai entender a lama, nunca vai chafurdar, espirrar, engasgar na lama e olhar pro mundo com os mesmos olhos embaçados de lama. Um amigo meu – cuja profundidade na lama me impede de compreendê-lo – sempre diz que está com os pés na lama e ninguém vai entender nada disso com os pezinhos no salto alto ilibado da reputação.

Quero que todo o mundo saiba exatamente o quanto eu amo, porque embora o amor seja uma das coisas que eu mais repito, demonstro, insisto, exijo, às vezes me parece que é o que mais se esconde no superficial dos meus exageros teatrais. Queria que todo o mundo entendesse que se eu dou um sorriso sincero no elevador da faculdade, se eu puxo algum assunto, se eu me esforço, se eu adiciono no Orkut, se eu pego o telefone (aí você ultrapassou todos os limites da conquista, pergunte pra Rafaela!), se eu reagi com a minha própria voz (eu tenho uma voz detestável quando estou detestando a conversa) é porque eu amei, é porque eu amo, é porque eu gostaria muito de que você tivesse uma câmera pra assistir a cada pedacinho nervoso de mim, e queria que você tivesse uma câmera em você pra eu saber tudo bem rápido e não perder nada dessa coisa rara e tão refrescante que é gostar das pessoas.

(O Lucas – pronto, falei o nome e qualquer coisa poética-padrão perdeu-se no ar --, o Lucas reclama que eu não sou solícita e simpática com todo o mundo, perdão, muitos demoram e outros nunca me encantam, é bom pra valorizar a simpatia que vocês têm de mim. O legal de escrever um texto assim maluco é que eu posso fingir que estou falando de mim e ficar falando de vocês, ou melhor, falar de mim por horas fazendo de conta que falo de vocês.)

E uma coisa que todo o mundo sabe é que eu preciso de você, de todo o mundo, e isso fica evidente já no amarelo azulado das batidas doídas na casca do pêssego. E talvez por isso, pelo explícito dessa necessidade, desse machucado, desse roxo na pele exposta, que você, que todo o mundo, que a minha cachorrinha somem um pouco de mim.

texto velho, do outro blog:

a volúpia de me sentir translúcida. cada vício exposto sem rodeios nas rodas, nos encontros, nos bares. deixar meus trejeitos inflamarem no brilho das telas nos computadores de cada quarto. a tranqüilidade de ser uma só e sempre a mesma, seja às colegas, ao avô cristão, ao chefe ou ao psiquiatra. falar alto dos meus mais entranhados medos, e deixar ao capricho do acaso as cartas, os e-mails, as opiniões. publicar desejos indiscretos num receio vertiginoso de que os vínculos mais leves se afastem assustados por uma verdade que é tão comum, e se desmanchem em fofocas vazias. e deixar que me descubram despida de máscaras, sem educação, sem limite.
feito um menino espreitando a prima mais velha, entregar-me à concupiscência de observar pelo buraco da fechadura o novo amor no meu quarto, meu diário aberto no colo, numa leitura tão afoita quanto constrangida. deliciar-me nos seus rostos de susto, vê-lo enraivecer a cada confissão, a vontade de fugir agitando os seus pés sobre o tapete cor-de-rosa. e, sem entender nem consentir, vai se apaixonando a cada página, muito de mim numa overdose indefensável.
render-me ao deleite de pulsar nos lábios de quem descobre muito de mim em pouco tempo, e me dilatar nos olhos de quem esperava uma fantasia discreta de uma moça que quer ser aceita, mas encontra a indecência de quem não tem absolutamente nada a esconder. sentir o vento gelado ao escancarar a própria vida. pulverizar minha intimidade em metralhadoras e alto-falantes. derreter-me sob o calor dos olhares na pele tão transparente, e o encanto de me confiar, inerme, à curiosidade invasiva de quem quer que seja.
depois de tanta revelação, vulnerável ré de minha autenticidade, poderei alegar, realizada, aos berros, às gargalhadas, que só disse a verdade, nada-mais-que-a-verdade. e os que ali me julgarem guardarão, em suas pesadas consciências, a plena noção de que condenam a verdade em prol de sua própria e sempre viva hipocrisia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Resumo de uma Quarta Qualquer


Muito triste, amor, vem aqui, faz passar, me faz feliz?
Como? – meio distraído, qualquer coisa colorida que se mexe na tela.
Não sei, faz alguma coisa, faz passar. (trecho pós censura familar -- parentes internautas!)
Metrô. Trabalho. Computador ON, quatro horas, Computador OFF — um dos meninos presos fazia aniversário justo hoje, podia já ter sido solto mas faltava a minha manifestação —
Celular com sinal no metrô, é preciso aproveitar cada segundo:
Lindo adivinha só já estou chegando, me encontra na esquina da augusta com a paulista na frente do
Não, preciso fazer cocô.
Ele cocô e banho e eu livraria — comprei mais um livro para adiar minhas leituras obrigatórias.
Oi, amor, que livro é esse?
Não sei, gostei e comprei, sobre um cara que queria ser escritor quando jovem e não virou nada.
Um lanche light no barulho da Augusta
Uma professora da faculdade no cine sesc, e uma outra figura bizarra que sempre encontramos
— e o velho clichê são-paulo-pequena-não-a-renda-que-é-concentrada —
Um filme de contos eróticos da idade média — ele ri daquele jeito dele que me dá uma vergonha carinhosa.
Subimos a ladeira e chego arfante porque subi falando, a gente fala demais.
Um ônibus até o outro cinema e reclamo do bilhete único que acaba muito rápido, saldo R$ 0,25
— ele inspeciona minha carteira à procura de um ímã que esteja desmagnetizando o cartão —
Ele paga menos no ingresso porque o total dá treze e eu só tinha uma nota de dez.
Amor, pra quê a caixinha dos óculos escuros agora?
Tinha dinheiro, da praia...
Esse dinheiro era meu! (risos — rs rs?) então me compra uma água, vai.
Nossa, que água cara.
Um filme lindo, abraço e aperto a mão dele toda vez que o casal sofre — ele cochicha promessas de amor pra me acalmar, diz que não vai ser chato como o homem do filme, e eu achando uma graça o homem do filme.
"A angústia do futuro diminui a felicidade do presente", ou algo do gênero, o filme diz que é um provérbio de um povo que não consigo lembrar. Nem ele.
Tão bonito!
Você também, linda.
Não você, o filme! você também...
Tomar algo antes do último ônibus?
Naquele bar que não existe!
Descemos a ladeira, o bar existe mas é um inferno, futebol ligado, todos de pé. Saímos? Saímos.
Subimos a ladeira, Estamos fechando, Só vinte minutos, Estamos fechando.
Quatro bares lotados, sentamos no último, cardápio cheio de cervejas, muitos homens vendo futebol.
É que hoje é quarta-feira!
Bosta.
Gritos, muitos gritos, algum gol maldito, os homens se deslocam para ver de perto, estamos cercados de sovacos palmeirenses.
E se a gente mudasse de bar?, Futebol em todos, Vamos no Black Dog tomar um suco.
Ah não, fila pra comprar, de pé.
Então vamos só namorar no ponto de ônibus esperando o meu Jardim Miriam, vai demorar mesmo.
Estamos chegando no ponto, ofereço uma bala de melancia porque quero dar um beijo enorme na boca.
Amor!! o Jardim Miriam ali, o que eu faço??
Ele corre chamando o ônibus, eu imagino que ele vai entrar e dizer surpresa-vou-dormir-na-sua-casa.
Uns segundos sem jeito, eu ainda segurando a minha bala, um tapinha rápido nas costas, um tchau-amor!
Um olhar cinematográfico pela janelinha, a cobradora está dormindo na minha frente.
Lembro com prazer que o bilhete único de adulto dura três horas, débito R$ 00,00.
Essas coisas me dão muito prazer.
Olho de novo a janelinha mas ele já vai, listrado, paulista afora, não vai lembrar das três horas do bilhete e vai voltar a pé só pra economizar R$ 2,30 — até agora não sei se chegou são e salvo. Não sabemos.
Ligo o MP3 na pasta Triste porque acho que estou no clima, The Last Time I saw Richard, na versão do Renato Russo pra combinar com a noite mal-acabada.
Ponho a bala de melancia melada na boca.
Justo o Jardim Miriam, que sempre demora tanto pra passar.
Chego em casa louca pra escrever esse dia, por algum motivo sei que vou lembrá-lo pra sempre.
Pra sempre. Os bares frustrantes, o ônibus prematuro, o gosto de melancia, o beijo que não deu tempo.
—isso sim é um beijo roubado —
Quero correr para o computador e escrever tudo.
Mas chego em casa e tem primeiro o cachorro com sua felicidade, e meu pai escovando os dentes e perguntando se o filme era bom, e minha mãe querendo saber algum detalhe bobo do meu dia que nem coube neste resumo.
Não tem problema, eu lembro cada segundo.
Computador finalmente e ainda o gosto de melancia.
Vou lembrar pra sempre.

Justo o Jardim Miriam, que sempre demora tanto pra passar!
Vou ligar pra ver se ele chegou bem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Chá, biscoitos e trovoadas no fim da tarde


Não sei de onde a coragem, meu santo, é capaz que nem abram a porta, fico assim gelada na entrada espiando pela janela gritando Helena, quem sabe roubá-la e levá-la ao meu reino, dois povos em guerra pela mulher mais bela do mundo. Desculpe entrar assim molhada, saí depressa e esqueci o guarda chuva, como é que ela está?
O olho arregalado e a respiração de ódio como se eu um guerreiro disposto a qualquer coisa, Quem foi que te chamou aqui? A sala escura tem uns móveis novos e um gato de madeira que devem ter trazido daquela viagem misteriosa, quero gritar Helena-Helena-Helena mas alguma coisa na sala pesada me oprime. Desculpe a saia pingando, olha aí, estou molhando tudo, bem que eu tinha ouvido a previsão chuva-intensa-com-trovoadas-no-fim-da-tarde, vim apenas saber se ela piorou, senti um aperto e vim, será que.
Estou tão abalada que tenho vontade de abraçar você, minha querida bruxa amarga, abraçar e chamar de mãe, mãezinha, você me oferecia chá com biscoitos de abacaxi, não lembra? Depois perguntava gentil se as meninas não queriam ver um vídeo ou coisa assim, tão gentil, mãezinha, que parecia a velhinha rechonchuda da embalagem de pães de queijo congelados, agora eu só quero ver a minha Helena, querida bruxa azeda, olheiras roxas do tamanho do buraco nesse seu coração. Você não entra aqui, eu já disse.
Vontade de dizer pra você mãezinha que uma coisa dessas não se faz nem com um bicho feito eu, implorar, ajoelhar assumindo o pecado que você quiser na sua fogueira maternal, Se ela entendesse que eu estou aqui ia querer que eu entr., Ela não entende! De repente a mãezinha num choro convulsivo, o lábiozinho gorducho tremelicando e quero mesmo abraçá-la, não precisa desse ódio, Dona Solange, a gente tem de se ajudar, lembra quando eu dormi aqui a primeira vez? Liguei pra minha mãe no meio da noite chorando, medo, muito medo de dormir, quem sabe um defunto ensangüentado embaixo da cama, você me sentou no seu colo e cantou até passar o choro. Hoje mais medo ainda, Dona Solange, minha segunda mãezinha, você me olhando com essa cara de nojo como se eu um monstro, uma aberração, Eu só quero vê-la, percebe? olhar pra ela um pouco, quem sabe ela me veja e fique bem consciente!
Dona Solange dois olhos redondos vermelhos, as veiazinhas desenhadas feito um mapa de guerra, eu o alvo imóvel, talvez ela pense que o meu fim seja o fim de todos os problemas dela, a Helena acordando linda e sem doença e com um namorado perfeito, quem sabe um médico formado e um consultório salmon-pastel do ladinho de casa, e ainda por cima homem, já imaginou que maravilha, ahn, mãezinha, você deve ter emagrecido dez quilos nas últimas semanas. Nesse momento ela deve ficar só com a gente, acabou a farra, mocinha, vai embora agora.
Acabou a farra. Vontade de explicar que ela não conhece a Helena, não conhece, três anos, mais de três anos, um apartamento lindo, se você tivesse ido visitar uma só vez teria se encantado, nosso quarto vermelho e ela pintava coisas lindas na parede. Numa hora dessas devia estar com quem a conhece, mãezinha, no meu colo no meu peito no meu travesseiro rindo o riso louco da doença, só eu entendo as febres os tremores.
A Helena experimentando meu vestido preto e reclamando do quadril pequeno, ah se ela soubesse como é ruim ser assim toda grande, esbarrando nos móveis, a infância inteira a Cinderela com seu sapatinho minúsculo sapateando na cabeça, só quero a minha menina pequena, minha Helena tão linda, os cabelos que ela prendia e me esticava o pescoço pra eu sentir o perfume novo, naquele dia a gente foi no teatro e ela já tinha a doença mas acho que não sabia, no meio da peça um desmaio discreto, parecia que tinha apenas deitado a cabeça de leve no meu colo, eu cochichei Helena-levanta-que-vexame-isso mas ela nada, ali deitada em mim, escolheu o meu colo pra desmaiar macia. Ainda bem que eu sempre fui grande e ela tão pequena, peguei no colo feito noiva de novela e ela acordou no táxi, acordou boa já dando ordens, queria voltar pra peça, imagina hospital, que coisa maluca de jeito nenhum.
Esse gato de madeira, quem sabe esse gato não tem a ver com a doença, ahn? Cada vez que vinha almoçar com vocês voltava pra casa mais doente, dizia Carla-Carlota-ando-tão-fraquinha-cuida-de-mim e eu beijava tudo, mãezinha, beijava o peito arfante, a respiraçãozinha curta, cancelava reunião, salário, viagem e não largava a mão quente sempre úmida, culpa desse gato sinisitro que ia sugando as forças aos poucos, Eu vou entrar, Dona Solange, a senhora não perde nada com isso.
Emagreceu dez quilos e envelheceu dez anos na última semana, a velha. Já disse que de jeito nenhum, Carla! A vozinha trêmula me lembra o chá com biscoito e a gente tão pequena pedindo deixa-a-gente-brincar-na-chuva, a Helena sempre tarada por chuva. Ano passado mesmo na praia quis sair na chuva, o cabelo encharcado e ela rindo, tropeçou na areia e aquilo foi virando lama, precisava ver que coisa nojenta, detesto areia molhada.
Ia dar tudo tão certo, mãezinha, a gente estava até vendo de ter um nenê, olha aí, já estou ficando nervosa de novo, vou acabar ajoelhando e implorando e isso não é do meu feitio, um nenê rosinha e você ia acabar aceitando, uma hora ia perceber como era lindo, a Helena completamente apaixonada e mãe, os seios miúdos crescendo de leite, ou quem sabe o meu peito já tão grande e o bebê se empanturrando, lambendo, sugando, pedindo mais e mais e você toda avó oferecendo chazinho e biscoitos de abacaxi, teria sido tão simples, não teria? Esses desmaios, meu santinho, e essa velha aí de pé achando que é tudo castigo de algum deus macabro que ela alimenta em rezas solitárias.
Se ela estivesse consciente, Dona Solange, se tivesse forças já teria voltado pra casa, só quero ver, só isso, não encosto, pelo amor de deus, duas semanas chorando sozinha, olha o que vocês fazem comigo, olha essa roupa rasgada, molhada, sente o meu hálito de fome porque só o estômago sente fome e o resto não, a cabeça teimosa só quer chorar, telefonar, doer doer doer. Eu queria acompanhar os exames, queria explicação do médico, sentir a mão do doutor no meu ombro e o olhar compenetrado e sem eufemismos, eu mereço essa mão no meu ombro, está me entendendo?
Empurro a mãezinha de leve e vou direto ao quarto, tanto tempo esses corredores e ainda lembro os caminhos todos, essa mulher correndo furiosa atrás de mim como se a casa uma loja de cristais e eu uma criança rebelde desgovernada entre as prateleiras. Helena na escuridão só com a luzinha azulada da televisão num filme-desenho que assistíamos juntas nas férias, agora o capitão diz Voce-tem-um-último-desejo-antes-de-morrer? e o coelhinho muito perspicaz responde sim-senhor-gostaria-muito-de-continuar-vivo, e então o capitão, distraído e apressado, vai dizer que-seu-desejo-seja-atendido e quando perceber a derrota o coelho vai arrematar com e-batatas-fritas-por-favor.
Helena, Leninha, acorda, olha quem está aqui! Acorde logo, olha sua mãe no telefone, vai saber para que autoridade policial está ligando. dona Solange, ela não gosta das almofadas assim, pelo amor de deus, o pescoço caído assim pra trás, ela usa no mínimo três, lá em casa tem uma em formato de coração que ela punha na lombar. não, Leninha, não deixa o pescoço assim, abre o olho, Helena, pelo amor do nosso santinho, está me escutando eu vim te ver, pense no nosso nenê, ahn? ano que vem quem sabe a gente faz um berço multicolorido do jeito que você queria. dona Solange, desliga esse telefone e vem depressa aqui, me abraça, me ajuda, dona Solange, não, não grita assim, faz aqueles biscoitos de abacaxi que a gente adora. eu te concedo um último desejo, Helena, abre o olho bem bonito pra mim, Leninha, por favor, só essa última vez.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Estado de Sítio



Estado de Sítio

Uma casa pequena e os oito ali contentes, cada vez um era a Branca de Neve varrendo lavando servindo os sete anõezinhos bêbados com barrigas doendo de rir de piada, de alegria, de bobos. Vontade de cerrar os portões e as estradas e nunca mais sair do meio do bosque com as criaturas fantásticas entre as árvores, águas, teias de aranha.
A sala e o tapete que tinham cheiro de mato e foram ganhando perfumes, álcool, brigadeiro e tabaco – o cheiro de férias impregnado nas roupas, e as cinzas acidentais entre as páginas do livro. Esconderijos molhados no barro das moitas, atrás do carro, da geladeira, o vento frio de infância e na verdade sete anões gigantes e uma branca de neve qualquer desprezando a maçã e molhando a saia amarela rolando bêbada na grama.
A casa pequena e o relógio guardado festejando a virada do ano no tempo de cada um, no tempo do forno controlado ao acaso pelo tempo do estômago. O tempo dos passarinhos que acordam todos juntos. O som do champanhe estourando no escuro, velas e os votos para um ano que nasce mimado em berço de loucos e engatinha febril e sabe-se lá aonde vai se não ficar ali quietinho quente entre os cobertores e pernas, dormindo com o barulho dos grilos.
As risadas ainda no fundo do ouvido e estou de volta à cidade de repente e a segunda-feira doendo como nunca doeu. A segunda-feira uma garganta inflamada escancarada me engolindo, mostrando a língua numa zombaria infantil, vomitando suas incertezas sem pássaros, grilos, risadas.
Fecho a porta de casa, completamente sozinha, e nunca o silêncio urbano trouxe tanta solidão. O ano letivo – esse macarrão insosso – deitado imóvel e pegajoso na minha cama, empoeirado na pilha de papéis que resistiram ao ano passado. Dois mil e nove desmaiado nas obrigações todas tão desprezíveis que se eu fechasse os olhos e dormisse por um ano – um dia um príncipe e um beijo pueril na boca e uma viagem no lombo do cavalo e o happy-ever-after –, se eu dormisse assim aqui, sozinha embaixo da cama, até o final do ano, o mundo continuaria exatamente igual. A segunda-feira, minhas obrigações desprezíveis, a casa pequena do sítio vazia e escura, e a minha mala aberta com as roupas cheirando a cinzeiro, vinho e chocolate.