sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Vocês que nunca chegaram a me amar
Vocês, vocês todos, que nunca chegaram
a me amar, um minuto de silêncio por cada ano da minha vida que eu gastei
gritando, girando, dançando, vazando por toda a casa, escorrendo pelos caminhos
viciados até os mesmos endereços, o tempo rasgado de ansiedade na espera pelo
ônibus que não passava, querendo chegar depressa aonde eu era apenas
conveniente, agradável, talvez valiosa, mas nunca tão ansiada, aguardada, nunca
amada, vocês que nunca conseguiram me amar, eu espero que vocês me perdoem.
Espero que perdoem que eu tenha
sido tão difícil de largar, que eu tenha compensado em dedicação e tolerância tudo
o que não produzia em paixão, que eu tenha feito tão numerosas as manhãs em
que vocês acordaram sem vontade nenhuma de me ligar, e tantas as tardes em que
acabaram me ligando simplesmente porque eu não liguei, e tantas as noites em
que dormiram comigo se perguntando o que será que faltava se eu sempre trazia
tanto.
Vocês, que há 27 anos não
conseguem me amar, espero que um dia me perdoem por eu ter ocupado em zelo,
préstimo, risadas, quase todos os minutos dos seus dias e dos seus pensamentos
que vocês tentavam preencher de mim e não conseguiam de tão lotados que já
estavam de mim mesma.
Por eu ter sido dessa extrema
devoção sem conseguir ser pequena nem por um instante, por eu ter me dobrado em
súplicas por esse amor que vocês não conseguiram me dar, mas sem que de fato me
diminuísse, sem que eu pudesse ser, nem por um segundo, realmente frágil. E por
isso o meu amor tenha sido assim incompreensível, e impossível de se responder.
Espero que vocês me perdoem porque
eu fui sempre tão gigante e descontrolada que deformei todos os meus espelhos. E
depois de tanto tempo sem saber ser nem sequer um instante de ausência, eu
tenha ido embora sem reparar no silêncio que eu deixei no meu lugar, no tempo
que depois talvez vocês tenham passado gritando, e girando e escorrendo por
caminhos que eu já não andava, eu espero que vocês tenham me perdoado, e algum
dia, quem sabe depois de algum tempo, tenham, sozinhos, loucamente me amado.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Essa mãe
(foto por Jim http://www.unprofound.com/viewpic.php?pic=abandoned.jpg&photographer=jim)
Chamo
uma senha e ela que lacrimejava discreta na fila senta na minha frente e inicia
um choro infantil e inconsolável que atabalhoa o relato já excessivamente
minucioso e meândrico. Como se ela tivesse decorado o número da senha e
aguardado por horas até que algum atendente o chamasse e seria nesse momento
que encararia de frente o seu desespero. Na fila talvez ela tentasse se
distrair com os assuntos das outras mulheres, seus divórcios, suas casas,
contratos, vizinhos, suas fomes, suas crianças sem pai nem nome, ela tentando
escutar as explicações nas mesas e pensando que talvez seu problema não caiba
nesse lugar; ninguém parece ter os olhos assim tão sem repouso, todos ali estão
cheios de razão na luta por um direito que agora ela parece que precisa rechear
de volteios e epígrafes pra me convencer, e a si mesma, de que é de fato
seu.
Ela
sentada sem de todo chegar a sentar bem na minha frente e seus brados
sobressaem entre os tantos atendimentos quase pacatos, resignados, e ela diz
que não tem culpa, mas quanto mais repete mais eu sei que tem toda a culpa do
mundo e eu quero que ela saiba que eu não me importo com isso, que dali em
diante eu lhe dou toda a razão e que de qualquer forma ela não precisa da minha
razão, mas não consigo dizer porque estou paralisada imaginando que talvez eu
não possa fazer nada por ela.
Como
ela se detém em cada passo anterior ao trágico incidente, fantasio a hipótese
do problema ao longo dos detalhes, feito um médico eliminando diagnósticos na
sequência de sintomas, Eu avisei minha mãe que ia sair, mas teve um
problema de comunicação -- e então ela retoma de outra forma a mesma passagem
como se tivesse ensaiado muitas vezes dentro da cabeça e agora não perdoasse o
mínimo deslize --, E eu tinha emprestado o celular para o meu irmão e ele
trocou o chip e por isso eu não recebia ligações. Por uns instantes ela quase
me convence de que uma confluência de fatalidades gerou O Problema, mas no meio
do choro convulsivo percebo uma dor infantil de quem não esperava que as coisas
um dia fossem chegar a esse ponto -- ou pior, esperava --, e ela que era uma menina foi
ficando cada vez mais nova a ponto de eu ficar cada vez mais velha, e maternal.
Ela
conta que se arrumava pra sair e sua mãe perguntou "Você vai
lá?", e ela respondeu que ia lá porque achou que "lá" seria
"sair", mas a mãe entendeu errado. Imagino
a menina se arrumando para sair, para "ir lá", o batom
rápido no espelho, o mau humor diante da pergunta da mãe que para ela
é evidentemente uma censura, e ela amassa os cachos molhados e grudados de um
creme frutado, as tiras da sandália já doendo nos dedos, a unha deve ser
azul-claro com brilhos, e pega a bolsa e bate a porta e vai descendo as escadas
de um edifício barulhento e escuro, várias famílias acampadas pelos corredores,
até chegar na avenida onde muito tempo depois passa um ônibus que a traz de
volta às cinco da manhã, sem celular, sem casaco, bêbada, solitária, suja, para
dar de cara com a mãe incrédula a perguntar: "Cadê o
bebê?"
E
repete para mim várias vezes essa parte, Cadê o bebê?! E explica que
ela tinha dito para a mãe mil vezes que ia sair e que era para ela
buscar o bebê na creche, mas quando a mãe disse "Você vai
lá?" e ela respondeu impaciente que "sim", já cortando o
assunto, o trato se desfez e ninguém buscou o bebê em creche alguma. Imagino as
famílias nos corredores do edifício se avolumando em volta da moça, os olhares,
os gritos às cinco da manhã, ela que já era indesejada no local com o bebê que
chora e essas baladas, madrugadas, brigas. Fico pensando se quando ela saiu pra
dançar ela cruzou na escada com alguma criança mordendo um brinquedo e pensou
no filho e teve medo de que a mãe não tivesse entendido, mas pensou
também que subir e esclarecer seria trazer à tona novas brigas,
a mãe diria que não ia buscar criança nenhuma, que o filho é dela, e
então isso seria um fato, não seria um mal entendido, ela teria de deixar de
buscar porque quis, e então era melhor continuar descendo as escadas protegida
na ideia de que o filho estaria magicamente em casa quando ela chegasse, ou
quem sabe se não estivesse isso seria um problema para resolver de manhã.
Talvez
ela me veja sentada atrás dessa mesa como espécie de anjo, heroína, com um
computador mágico onde digito o nome da criança e descubro no sistema onde ela
está, mas começo a fazer perguntas sobre os lugares em que ela pode ter procurado
e ela chora mais, ela própria uma criança frustrada diante da única solução que
tinha planejado a manhã inteira naquela fila: eu. Ela não tem onde pôr os
olhos, nem os braços, e já não liga que todos escutem o seu desleixo, a sua
falha, a sua noitada maldita, Cadê o bebê? Cadê o bebê? Ela pergunta alto e
chora e talvez dessa vez a pergunta seja pra mim e faço ligações, muitas
ligações e continuo sem saber cadê o bebê.
Pela
quarta vez conto a história ao telefone e anoto algum outro número, outro Conselho
Tutelar, e a palavra Conselho parece reverberar na cabeça da moça,
pensando que precisa de conselhos, muitos conselhos, e eu lembro que ela deve
estar sem dormir há muitas e muitas horas, talvez ainda esteja bêbada, e penso
também que tenho um milhão de pessoas para atender que talvez só precisem
agendar um divórcio rápido e o tempo está correndo. Ela vai escutando eu contar
e recontar a história que na verdade é a história dela e sinto um olhar de
cumplicidade quando ela percebe que eu floreio os fatos para mitigar toda a
culpa, E o irmão trocou o chip...
Quando
finalmente o conselheiro certo atende o celular é com revolta
descontrolada que ele grita que essa criança não volta mais, que se
depender dele não volta, e eu tento não alterar o tom de voz porque
a menina com os olhinhos vidrados em mim tentando adivinhar a
notícia, Mas o irmão trocou o chip e. O conselheiro parece estar no
meio do barulho de muitos ônibus e até sua voz é suada de sol e multidão, e por
ele fico sabendo que essa mãe -- é assim que ele a
chama, essa mãe -- não mora mais na invasão onde morava e ele
passou a manhã inteira procurando por ela. A menina tira da bolsa um
papelzinho amassado com o endereço e diz que teve de mudar de invasão, e eu
imagino de novo a sua expulsão, baladas, brigas, bebês, depois penso que talvez
não fosse balada nenhuma, que a menina "ia lá" trabalhar,
madrugada inteira, homens, os mais variados homens, embora quase todos iguais,
em cima dela, essa mãe, essa menina com esse filho,
Cadê o bebê, que não sei se veio do trabalho dela, não sei se valeu cinquenta,
setenta reais, ou se foi de um amor qualquer desses jovens que desaparecem,
esse pai, ela maquiando o olho num espelho quebrado, as famílias circulando
pelos corredores, ela pendura na janela o vestido da noite anterior pra aliviar
o cheiro de cigarro e volta às cinco da manhã rasgada, suada, sozinha demais,
algum dinheiro no bolso da saia jeans, vários lances de escada até chegar no
seu cantinho, Cadê o bebê, como se ela não tivesse imaginado que seria assim,
como se esse bebê não fosse metade dela e metade do mundo que ela queria que
ajudasse a criar, os bebês deveriam ser de todos, e agora ela aqui querendo de
volta, Mas o senhor não imagina a fila que ela pegou pra falar comigo, e
o conselheiro insiste que vai entregar para o judiciário, Cadê o
bebê, e o bebê está em algum lugar na Avenida Sapopemba, mas não adianta correr
lá, essa mãe, Mas senhor é só uma menina, Essa mãe.
Ao
fim consigo que espere exatamente onde está porque ela vai encontrar com ele
para conversar, ela vai agora, correndo, faço um desenho no mapa, é perto, mas
ela demora a entender, chora e me agradece, como se alguma coisa estivesse
resolvida, a confusão do sono, os braços segurando a bolsa em concha como se já
fosse o filho, quer me abraçar mas eu não abro o braço e ela não solta a bolsa,
tento apressá-la e ela não vai, explico que talvez não seja tão simples, mas
que pode ser que as coisas mudem. Que hoje todas as coisas tenham que mudar, e
que pode ser bom, que é tempo de repensar tudo, depois vejo que eu não sei de
nada, que ela já viveu e pensou todas as coisas do
mundo, essa menina, essa mãe, ela vai correndo e eu demoro
a entender o que quer o próximo da fila, uma mulher larga e séria, e quando
finalmente a olho nos olhos ela balança a cabeça indignada, Que absurdo largar
o filho assim, essa mãe.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Os casais nas mesas
A cada
três minutos o telefone toca em todas as salas e eu me pergunto se alguém de
fato atende. A funcionária disse pra ficar tranquila que não é pra eu
atender, mas quem é que fica tranquilo com uma coisa dessas.
Os casais
nas mesas ao lado -- mesas da repartição, não são mesas de bar, café ou
restaurante -- discutem os detalhes do divórcio. A criança Joyce-Silva-de-Souza
se distrai com o grampeador e o senhor Jose-Olímpio-Souza diz para a ex-mulher
que ele não tem dinheiro para a pensão da menina. Nem nunca terá, Joyce não
precisa de muita coisa.
Preencho
o formulário e penso como as coisas deviam ser quando fizeram a
Joyce-Silva-de-Souza, e tenho raiva porque as pessoas transam todas iguais, mas
às vezes tenho raiva porque na verdade fazem todas muito diferente. Cansei de
estranhar as pessoas, e também de estranhar esse lugar.
O
telefone de novo bem alto e na mesa ao lado o homem diz que a culpa é dela que
sempre mentia e eu quero dizer que não interessa de quem é a culpa porque a
culpa é dos dois que estão aqui atrasando o almoço de todo o mundo, Lindinha, devolve
esse grampeador pra mim, por favor!
Os casais
nas mesas ao lado -- e dessa vez são sim mesas de restaurante -- discutem os
detalhes do divórcio embora talvez não percebam que é isso que estão fazendo,
as mulheres se distraindo com o guardanapo. Eu me preocupo com a saúde das
pessoas porque quero que vivam até os 90 anos pra ficarem mais tempo comigo mas
elas não sabem nem se querem ficar comigo até o mês que vem. A maioria não
quer.
Joyce
ainda se distrai com o grampeador enquanto distribuo seus finais de semana e sua mãe talvez se distraia pensando que se sentirá sozinha.
Os vovôs
e as vovós são quase todos juntos e nunca discutiram o divórcio, os vovôs desde
meninos aprenderam a enganar as vovós, e as avós a torcer e esperar pelo
encanto e bênção de não serem enganadas e agora que a gente aprendeu a não
esperar e aprendeu também a discutir os detalhes do divórcio, agora quem será
que a gente vai enganar? O telefone mais uma vez e não acho o carimbo no meio
desses papéis, MENINA me dá AGORA esse grampeador!
Se todas
as manhãs nas mesas dessa repartição há tantos casais discutindo os detalhes do
divórcio e da pensão feito uma igreja maldita a separar até que a morte una, a
apaziguar o que Deus juntou nesse sacrossanto descuido milenar, do que é que
gente vai falar nas mesas dos restaurantes, quem é, meu Deus, que a gente vai enganar?
Os
telefones não param de tocar em todas as mesas, e não é da repartição, são as
mesas dos restaurantes, enquanto os casais discutem os detalhes do divórcio sem
perceber que é isso que estão fazendo, e a criança de vestido florido não
quis terminar o frango e está se distraindo com a faca.
(personagens, repartição e pessimismo totalmente fictícios)
sábado, 27 de julho de 2013
Inverno Pessoal
De repente aparece um sol e é
como se eu descongelasse devagar, e descongelar dói muito, os dedos, os pés,
até a barriga num formigamento, chego a pensar se eu quero, se eu consigo mesmo
esquentar, voltar, aceitar esse sol e a vontade – e a obrigação – de movimento
que ele traz.
Meu inverno pessoal que me
acomete de muitos em muitos anos, feito uma Copa, um Cometa, e me paralisa. Vou
ficando opaca, sozinha por todos os lados e até mesmo por dentro, um inverno
que me leva de mim e quando devolve é nesse sol lento e ainda gelado e eu
demoro a saber que estou de fato de volta, e por um tempo ainda vou achar que
não estou.
A paisagem já não é a mesma
e aqueles tantos projetos que eu talvez chamasse de sonhos sem saber que projetos são sonhos muito mais maduros,
eles todos sumiram, não adianta descongelar que eles já buscaram abrigo nas
mentes que estavam prontas e firmes.
Eu perdi. E perdi pior do que
perder dos outros – todos os dias sabemos que há outros tão melhores –, eu
perdi de mim mesma, para o inderrogável espectro de mim, de um passado cheio de
um futuro quase glorioso.
E não importa o quanto eu corra e
grite e ferva debaixo desse sol que volta tarde demais eu mesma já me derrotei
nesse longo inverno pessoal e o que quer que possa brotar dessa devastação não
parece vir de mim, nem parece quente, nem parece vivo. O que eu faço agora
debaixo desse novo sol é um simulacro ainda frio de um tempo morto.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Pasta Azul
Se eu soubesse que a gente tinha tão pouco tempo eu jogava no
ralo do pátio de pedra aquela sua pasta azul – uma pasta de plástico azul, não
era? – com os textos enfadonhos, catedráticos, dogmáticos, absolutamente
estáticos que arrastavam nossas tardes – por que é que a gente não percebia que
eram nossas-tardes-livres? – doendo nos ponteiros que a gente não sabia
domesticar nem cuidar: esses nossos ponteiros trágicos.
Se eu imaginasse que era tão pouco o nosso tempo até o dia em que o tempo já não era nosso eu tinha congelado a gente naquelas arcadas até refrescarem nossas olheiras roxas de festas imundas, entediantes, imprecisas e ficar só aquele seu sorriso no meio do cabelo molhado, aquele seu sorriso que era quase um grito doído de quem tinha atravessado vinte voltas dos ponteiros sem conseguir terminar ou aceitar qualquer dos textos da pasta azul.
E logo eu, que não sabia nada disso e sob o peso dos textos
não lidos tentava levar você pelos caminhos vertiginosos dos meus ponteiros,
logo eu que tentava te proteger da paz, do lar, da independência, logo eu que o
tempo todo tentei proteger você contra a proteção, mas eu que agora numa mesa
qualquer distraidamente arranquei todos os espinhos da rosa que era pra ser sua,
logo eu que deixei a rosa completamente inofensiva pra você, acabei ficando eu mesma
com ela e não soube cuidar nem por uma noite.
E hoje em tempos de legiões urbanas diversas, que a gente
tenta discutir e escolher um ponteiro que nos sirva, nesses tempos de sempre de
rua, polícia, drogas, faixas, brados, leis e cadeias, nesses novos tempos
nossos que talvez sejam igualmente curtos sem que a gente saiba – qual será a
pasta azul que nos tem pesado inútil na mochila? –, logo eu que só queria
chegar logo na placidez desse futuro certo pra enfim poder enlouquecer em paz,
logo “eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir”.
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