quarta-feira, 12 de junho de 2013

Pasta Azul





Se eu soubesse que a gente tinha tão pouco tempo eu jogava no ralo do pátio de pedra aquela sua pasta azul – uma pasta de plástico azul, não era? – com os textos enfadonhos, catedráticos, dogmáticos, absolutamente estáticos que arrastavam nossas tardes – por que é que a gente não percebia que eram nossas-tardes-livres? – doendo nos ponteiros que a gente não sabia domesticar nem cuidar: esses nossos ponteiros trágicos.
Se eu imaginasse que era tão pouco o nosso tempo até o dia em que o tempo já não era nosso eu tinha congelado a gente naquelas arcadas até refrescarem nossas olheiras roxas de festas imundas, entediantes, imprecisas e ficar só aquele seu sorriso no meio do cabelo molhado, aquele seu sorriso que era quase um grito doído de quem tinha atravessado vinte voltas dos ponteiros sem conseguir terminar ou aceitar qualquer dos textos da pasta azul. 
E logo eu, que não sabia nada disso e sob o peso dos textos não lidos tentava levar você pelos caminhos vertiginosos dos meus ponteiros, logo eu que tentava te proteger da paz, do lar, da independência, logo eu que o tempo todo tentei proteger você contra a proteção, mas eu que agora numa mesa qualquer distraidamente arranquei todos os espinhos da rosa que era pra ser sua, logo eu que deixei a rosa completamente inofensiva pra você, acabei ficando eu mesma com ela e não soube cuidar nem por uma noite.
E hoje em tempos de legiões urbanas diversas, que a gente tenta discutir e escolher um ponteiro que nos sirva, nesses tempos de sempre de rua, polícia, drogas, faixas, brados, leis e cadeias, nesses novos tempos nossos que talvez sejam igualmente curtos sem que a gente saiba – qual será a pasta azul que nos tem pesado inútil na mochila? –, logo eu que só queria chegar logo na placidez desse futuro certo pra enfim poder enlouquecer em paz, logo “eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir”.

domingo, 5 de maio de 2013

Casa do Amor III




O que será que dá nos móveis que se eletrizam, repelem, que será que dá nas paredes que se engrossam e apertam, justamente quando a casa está tão linda. Quando tudo é bonito, nas cores certas, nos silêncios adequados, o que será que dá nas janelas que enquadram vertiginosamente as ruas como se lá fora estivessem todos os melhores caminhos.
Quando os espelhos sintonizam os abraços mais naturais, depois do café da manhã, os abajures na parceria das leituras, das refeições, que será que dá no armário que começa aos poucos a cuspir as roupas, amontoá-las no seu desejo secreto de mala, o que há nos casacos que se dobram imperscrutáveis na melancolia das gavetas de alfazema e camomila rosa. Quando toda a casa dança nas melhores músicas, descansa serena nos mais impecáveis lençóis, o que é que dá na cama que endurece, congela, expulsa noite a noite quem já nem dorme nem sonha.
O que será que dá em nós que não há dentro nem fora que acolha, não há haste que sustente o fardo imenso da bandeira branca. E o que será que dá no baque da porta que derruba os quadros, desfigura os quartos, paredes, descasca a tinta, trinca as janelas, e já não se pode voltar, mesmo que tenha sido só um passeio noturno de gata assustada, já não há lençóis, nem música, já nem há mais casa pra voltar.

sábado, 13 de abril de 2013

Cintura



     Tantos anos atrás as tardes arrastavam suas seis, sete, oito horas num silêncio com fundo de televisão, são doídos demais esses silêncios com televisão, umas vozes de estranhos que ficaram familiares, jornalistas histéricos, filmes dublados, o pica-pau. Era bom deitar no chão, ou no sofá, ou na cama, tampar bem forte os ouvidos e fechar os olhos pra ficar imaginando que as coisas existiam, que havia quem sabe uma festa, que tinha quem sabe um romance – um namorado, as outras crianças diziam --, um colega que puxasse uma dança e fizesse um elogio, ela que era grande, cabeluda, pesada, braços de mais, pernas de mais, dentes de mais, as outras pequenas escolhendo seus príncipes remelentos num baile diário.
      Ela feito as irmãs feias da Cinderela apertando os pés no sapatinho que não cabe, jamais caberia, e depois descobriu que na verdade elas mutilavam seus dedos e saíam cambaleando no cristal atrás de um amor que só aceita delicadezas miúdas, perfeições. Tantos anos passando e ainda as mesmas lutas, mutilações de dedos, encolhidas, atrás de caber em abraços tão curtos, em ideias pequenas, amores minúsculos.
     Hoje o show no palco logo adiante e ela feliz pulando, pulando com todo aquele tamanho agora já organizado em formas mais claras, modelado por anos de apertos, de sexo, de quedas, pulando e recitando todas as letras como se não houvesse mais nada no mundo que não essa música, mas é incrível como há tantas coisas em volta disso. E aos poucos ela pula menos, e quando imóvel percebe o que mais lhe incomoda: a cintura.
     A sua cintura que é na verdade um vão macio entre o peito e as ancas fortes e que ela acha que foi feito e serve apenas para que dois braços se apoiem por trás e descansem serenos durante um show, balançando levemente na música que agora é lenta e bonita. Ela sente o vazio na cintura e o frio no ouvido em que ninguém cochicha uma lembrança engraçada, e olha ao redor lembrando que às vezes tão menina observava o pátio na escola e sentia que todas as pessoas eram tristes e sozinhas.
    E agora em volta dela até mesmo as mulheres com suas cinturas tão preenchidas de abraços ela sente que são tristes, que os braços deles pesam doídos sobre as ancas que não pulam nem dançam, e mesmo assim por qualquer razão ela aceita uns quaisquer braços que lhe vêm na dança, uma conversa que é boa, mas solitária e teatral como são essas conversas, e de repente esses braços acomodando celular e chave com esmero em cima da escrivaninha dela, Fique à vontade. E ela entra num banho rápido – é preciso que seja rápido porque cada instante que eles passam distantes revela o tamanho de toda a distância.
     No banho rápido ela não pensa nada, porque é sempre melhor deixar pra pensar depois, mas ainda assim ela sente a cintura vazia, e tem vontade de fechar os olhos embaixo da água e esperar o rapaz desaparecer. Só que ele não vai sumir, não ainda, não já.
    Mas quando ela sai do banho e entra no quarto dela encontra a luz do teto apagada, e os três abajures acesos, até mesmo a lâmpada vermelha que antes estava fora da tomada, e o fato de que ele encontrou uma tomada, e também achou outra tomada para o ventilador, torna-o de repente tão íntimo, tão dentro do quarto, e ela pensa se ele também lutou contra o mau contato do interruptor desse abajur da luz vermelha, esse mau contato que é tão dela, e agora ele sabe, e ele autonomamente circula nos seus detalhes e domina a dinâmica dos seus defeitos, e ela se pergunta também o que é que fica faltando, o que diferencia esse homem de repente tão próximo que sorri na meia luz segurando um dos livros que escolheu da estante, o que o diferencia dos poucos homens que de fato lhe preencheram a cintura num gesto tão completo que as costas mesmo de pé se sentiam deitadas no peito quente e sempre tão distraído que na verdade apenas abraça por hábito, justamente porque ali há uma cintura à espera desse braço.
    Talvez não haja nada de diferente entre este e aqueles outros poucos, só que ele veio sem sentido, sem cintura, sem promessa, e ela sente que é assim que as pessoas têm entrado e saído da sua vida, como se elas que não coubessem, que já chegassem mutiladas e ainda assim não coubessem nesse espaço dela que sufoca e aperta. Começa a amanhecer e o rapaz que significava pouco já quase não significa nada, ele, que não perguntou nem mesmo qual o trabalho dela, ou o que ela gosta de fazer, e ela vira para o outro lado, de costas pra ele, encolhida, gelada do ventilador, pra não observar o sono ainda alcoolizado de um estranho.
    E é nessa hora que sem aviso, sem preparo, sem contrato, ela sente por trás um braço no enlace da cintura, apoiado, pacífico, pleno. Dormem.

sábado, 16 de março de 2013

A Crise




Papéis antigos, livros acumulados, anotações, gavetas despertam uma forte e irrefreável crise, mas não é qualquer crise, é uma crise alérgica. E não são quaisquer papéis ou gavetas, são aqueles em que você não mexe há anos justamente porque estavam muito bem onde estavam e porque talvez revolvê-los despertasse a pior das crises, que é precisamente a alérgica.

Ontem enquanto eu separava quais mereciam o lixo – e depois não consegui jogar nenhum --, quais mereciam uma pasta, e quais mereciam simplesmente ir comigo para o caso de um dia precisar, ela me atacou do mais profundo recôndito dos infernos, onde fica à espreita ao menor sinal de alguém revolvendo o pó das lembranças.

A crise alérgica vem quando você resolve mexer no que ficou empilhado em outro tempo, como se os restos do que já não vive se espalhassem pelo ar ao mínimo toque. E não basta abrir as janelas, lavar os olhos, fugir do ambiente, quando ela vem é porque os papéis, registros, bilhetes já entraram irremediavelmente fundo nos olhos, narinas, há qualquer coisa seca presa entre os cílios, uma ardência a repelir o que não deveria ter sido revisto.

E então por mais que você se livre logo de tudo sem nem olhar direito – e é isso que a Alergia queria – e corra pra casa sabendo que nunca mais vai olhar pra nada disso, continua uma dor forte no peito, que escapa em espasmos, espirros violentos, escoa, enfraquece, e os olhos pequenos num sono fora de hora, porque tudo que a crise alérgica quer é que você durma e desista de pensar, revolver, dispensar. Que você não perceba que tudo que era o seu dia-a-dia foi virando história, passado, e poeira.

A crise alérgica vem quando você se põe a enfiar o nariz onde não deve. Ela vem para afastar o olhar de tudo o que ficou guardado e agora vai doer. Vem pra proteger a alma contra aquilo que nem o corpo aguenta.