terça-feira, 24 de março de 2009

Da velha volúpia de me sentir translúcida (luiz, você ainda está por aí?)

Hoje à noite o ônibus me fez pensar um monte de coisa a meu respeito, coisa boba que ninguém sabe mas fiquei pensando que é um absurdo ninguém saber. Quero ser um pêssego descascando numa puxada só, óbvia e doce na vermelhidão em volta do caroço.

Ninguém sabe que há dias – melhor dizer há anos, há todos os anos – boto o fone de ouvido no ônibus e. Primeiro vou dizer que todos os meus fones de ouvido têm fases bem delineadas de suas vidas: primeiro estão novos e pouco a pouco me convencem de que o antigo era melhor; depois de um mês, um dos lados perde a cabecinha de borracha, e eu continuo enfiando no ouvido com o metal arranhando e quase soltando; depois essa lado quebra de vez e eu fico escutando de um lado só, até me frustrar com o silêncio total e me dedicar a encontrar o próximo. E é essa dinâmica que me faz parar de ouvir as mesmas três músicas e passar para as próximas três.

Todos os dias tenho colocado o fone que está na fase de funcionar só do lado esquerdo e ouço Living La Vida loca do Rick Martin no último volume, e me imagino fazendo coreografias de musicais Broadway, geralmente tenho saias muito curtas e faço movimentos rítmicos completamente alheios à minha realidade física. Depois ouço a mesma música de novo, e pela terceira vez, e imagino que alguém que não me conheça muito bem esteja assistindo maravilhado, querendo entrar na minha vida louca.

Eu podia guardar essas coisas pra mim e pulverizá-las todas entre os meus personagens pouco a pouco, mas não seria honesto, nem me satisfaria, e além disso ia aumentar a paranóia insuportável dos meus amigos de procurar vestígios de mim nas minhas criaturas como inspetores ardilosos à caça de digitais engorduradas na cena do crime. Quando eu era pequena imaginava uma câmera que me seguia, e meus conhecidos eram fiéis telespectadores. Quando eu era pequena, isso devia ser falta de amor-próprio, e hoje em dia deve ser amor-próprio demais: vocês não podem perder um detalhe desta maravilha que sou eu.

Algumas pessoas ouviram falar, mas ninguém desconfia o quanto minha cachorra me magoa quando não se importa comigo e foge de mim. Minha cachorrinha me evita. Aliás isso já está no livro novo que eu estava escrevendo, e dane-se o próximo inspetor que tentar me algemar com essa história de me expor nos meus personagens, eles todos fazem isso, todos os escritores que eu amo, todos aqueles que eu daria tudo pra ser.

Aliás, ninguém sabe que esse meu próximo livro está parado por algumas razões, talvez eu não saiba que é porque não estou pronta para falar de um amor de lésbicas como aquele. Ou talvez seja porque eu estava gostando muito e fiquei com medo, o maior medo do mundo de o meu namorado não gostar. E ele morre de medo de não gostar, cada palavra que eu escrevo é uma contorção nos olhinhos aflitos, Ai meu deus o que eu vou dizer se eu não gostar, o que eu vou fazer, eu não estou gostando, meu deus alguém me ajude isto está uma porcaria, socorro! E ele é o único que ainda diz alguma coisa quando não gosta, os outros ficam em silêncio, e meu deus como eu detesto o silêncio de vocês, isso é outra coisa que vocês têm que saber.

Outra coisa que ninguém sabe é que eu gosto, sim, de direito. Daquela partezinha que eu fico fingindo pra mim que um dia vou poder mudar. E que eu queria que acabassem de uma vez por todas com essa história de reputação ilibada pra algum dia eu virar juíza, eu poderia sim virar juíza e fazer de um jeito diferente, avisar todo o mundo que não precisa de terno, fazer tudo ao contrário – e ficar condenada ao interior do interior do estado para sempre. Mas não vão tirar a reputação ilibada – e isso tudo fica no Google em cachê sabe-se lá por quanto tempo, e além do mais eu sou um pêssego descascando ao mínimo toque – e a Justiça nunca vai chegar na lama, nunca vai entender a lama, nunca vai chafurdar, espirrar, engasgar na lama e olhar pro mundo com os mesmos olhos embaçados de lama. Um amigo meu – cuja profundidade na lama me impede de compreendê-lo – sempre diz que está com os pés na lama e ninguém vai entender nada disso com os pezinhos no salto alto ilibado da reputação.

Quero que todo o mundo saiba exatamente o quanto eu amo, porque embora o amor seja uma das coisas que eu mais repito, demonstro, insisto, exijo, às vezes me parece que é o que mais se esconde no superficial dos meus exageros teatrais. Queria que todo o mundo entendesse que se eu dou um sorriso sincero no elevador da faculdade, se eu puxo algum assunto, se eu me esforço, se eu adiciono no Orkut, se eu pego o telefone (aí você ultrapassou todos os limites da conquista, pergunte pra Rafaela!), se eu reagi com a minha própria voz (eu tenho uma voz detestável quando estou detestando a conversa) é porque eu amei, é porque eu amo, é porque eu gostaria muito de que você tivesse uma câmera pra assistir a cada pedacinho nervoso de mim, e queria que você tivesse uma câmera em você pra eu saber tudo bem rápido e não perder nada dessa coisa rara e tão refrescante que é gostar das pessoas.

(O Lucas – pronto, falei o nome e qualquer coisa poética-padrão perdeu-se no ar --, o Lucas reclama que eu não sou solícita e simpática com todo o mundo, perdão, muitos demoram e outros nunca me encantam, é bom pra valorizar a simpatia que vocês têm de mim. O legal de escrever um texto assim maluco é que eu posso fingir que estou falando de mim e ficar falando de vocês, ou melhor, falar de mim por horas fazendo de conta que falo de vocês.)

E uma coisa que todo o mundo sabe é que eu preciso de você, de todo o mundo, e isso fica evidente já no amarelo azulado das batidas doídas na casca do pêssego. E talvez por isso, pelo explícito dessa necessidade, desse machucado, desse roxo na pele exposta, que você, que todo o mundo, que a minha cachorrinha somem um pouco de mim.

texto velho, do outro blog:

a volúpia de me sentir translúcida. cada vício exposto sem rodeios nas rodas, nos encontros, nos bares. deixar meus trejeitos inflamarem no brilho das telas nos computadores de cada quarto. a tranqüilidade de ser uma só e sempre a mesma, seja às colegas, ao avô cristão, ao chefe ou ao psiquiatra. falar alto dos meus mais entranhados medos, e deixar ao capricho do acaso as cartas, os e-mails, as opiniões. publicar desejos indiscretos num receio vertiginoso de que os vínculos mais leves se afastem assustados por uma verdade que é tão comum, e se desmanchem em fofocas vazias. e deixar que me descubram despida de máscaras, sem educação, sem limite.
feito um menino espreitando a prima mais velha, entregar-me à concupiscência de observar pelo buraco da fechadura o novo amor no meu quarto, meu diário aberto no colo, numa leitura tão afoita quanto constrangida. deliciar-me nos seus rostos de susto, vê-lo enraivecer a cada confissão, a vontade de fugir agitando os seus pés sobre o tapete cor-de-rosa. e, sem entender nem consentir, vai se apaixonando a cada página, muito de mim numa overdose indefensável.
render-me ao deleite de pulsar nos lábios de quem descobre muito de mim em pouco tempo, e me dilatar nos olhos de quem esperava uma fantasia discreta de uma moça que quer ser aceita, mas encontra a indecência de quem não tem absolutamente nada a esconder. sentir o vento gelado ao escancarar a própria vida. pulverizar minha intimidade em metralhadoras e alto-falantes. derreter-me sob o calor dos olhares na pele tão transparente, e o encanto de me confiar, inerme, à curiosidade invasiva de quem quer que seja.
depois de tanta revelação, vulnerável ré de minha autenticidade, poderei alegar, realizada, aos berros, às gargalhadas, que só disse a verdade, nada-mais-que-a-verdade. e os que ali me julgarem guardarão, em suas pesadas consciências, a plena noção de que condenam a verdade em prol de sua própria e sempre viva hipocrisia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Resumo de uma Quarta Qualquer


Muito triste, amor, vem aqui, faz passar, me faz feliz?
Como? – meio distraído, qualquer coisa colorida que se mexe na tela.
Não sei, faz alguma coisa, faz passar. (trecho pós censura familar -- parentes internautas!)
Metrô. Trabalho. Computador ON, quatro horas, Computador OFF — um dos meninos presos fazia aniversário justo hoje, podia já ter sido solto mas faltava a minha manifestação —
Celular com sinal no metrô, é preciso aproveitar cada segundo:
Lindo adivinha só já estou chegando, me encontra na esquina da augusta com a paulista na frente do
Não, preciso fazer cocô.
Ele cocô e banho e eu livraria — comprei mais um livro para adiar minhas leituras obrigatórias.
Oi, amor, que livro é esse?
Não sei, gostei e comprei, sobre um cara que queria ser escritor quando jovem e não virou nada.
Um lanche light no barulho da Augusta
Uma professora da faculdade no cine sesc, e uma outra figura bizarra que sempre encontramos
— e o velho clichê são-paulo-pequena-não-a-renda-que-é-concentrada —
Um filme de contos eróticos da idade média — ele ri daquele jeito dele que me dá uma vergonha carinhosa.
Subimos a ladeira e chego arfante porque subi falando, a gente fala demais.
Um ônibus até o outro cinema e reclamo do bilhete único que acaba muito rápido, saldo R$ 0,25
— ele inspeciona minha carteira à procura de um ímã que esteja desmagnetizando o cartão —
Ele paga menos no ingresso porque o total dá treze e eu só tinha uma nota de dez.
Amor, pra quê a caixinha dos óculos escuros agora?
Tinha dinheiro, da praia...
Esse dinheiro era meu! (risos — rs rs?) então me compra uma água, vai.
Nossa, que água cara.
Um filme lindo, abraço e aperto a mão dele toda vez que o casal sofre — ele cochicha promessas de amor pra me acalmar, diz que não vai ser chato como o homem do filme, e eu achando uma graça o homem do filme.
"A angústia do futuro diminui a felicidade do presente", ou algo do gênero, o filme diz que é um provérbio de um povo que não consigo lembrar. Nem ele.
Tão bonito!
Você também, linda.
Não você, o filme! você também...
Tomar algo antes do último ônibus?
Naquele bar que não existe!
Descemos a ladeira, o bar existe mas é um inferno, futebol ligado, todos de pé. Saímos? Saímos.
Subimos a ladeira, Estamos fechando, Só vinte minutos, Estamos fechando.
Quatro bares lotados, sentamos no último, cardápio cheio de cervejas, muitos homens vendo futebol.
É que hoje é quarta-feira!
Bosta.
Gritos, muitos gritos, algum gol maldito, os homens se deslocam para ver de perto, estamos cercados de sovacos palmeirenses.
E se a gente mudasse de bar?, Futebol em todos, Vamos no Black Dog tomar um suco.
Ah não, fila pra comprar, de pé.
Então vamos só namorar no ponto de ônibus esperando o meu Jardim Miriam, vai demorar mesmo.
Estamos chegando no ponto, ofereço uma bala de melancia porque quero dar um beijo enorme na boca.
Amor!! o Jardim Miriam ali, o que eu faço??
Ele corre chamando o ônibus, eu imagino que ele vai entrar e dizer surpresa-vou-dormir-na-sua-casa.
Uns segundos sem jeito, eu ainda segurando a minha bala, um tapinha rápido nas costas, um tchau-amor!
Um olhar cinematográfico pela janelinha, a cobradora está dormindo na minha frente.
Lembro com prazer que o bilhete único de adulto dura três horas, débito R$ 00,00.
Essas coisas me dão muito prazer.
Olho de novo a janelinha mas ele já vai, listrado, paulista afora, não vai lembrar das três horas do bilhete e vai voltar a pé só pra economizar R$ 2,30 — até agora não sei se chegou são e salvo. Não sabemos.
Ligo o MP3 na pasta Triste porque acho que estou no clima, The Last Time I saw Richard, na versão do Renato Russo pra combinar com a noite mal-acabada.
Ponho a bala de melancia melada na boca.
Justo o Jardim Miriam, que sempre demora tanto pra passar.
Chego em casa louca pra escrever esse dia, por algum motivo sei que vou lembrá-lo pra sempre.
Pra sempre. Os bares frustrantes, o ônibus prematuro, o gosto de melancia, o beijo que não deu tempo.
—isso sim é um beijo roubado —
Quero correr para o computador e escrever tudo.
Mas chego em casa e tem primeiro o cachorro com sua felicidade, e meu pai escovando os dentes e perguntando se o filme era bom, e minha mãe querendo saber algum detalhe bobo do meu dia que nem coube neste resumo.
Não tem problema, eu lembro cada segundo.
Computador finalmente e ainda o gosto de melancia.
Vou lembrar pra sempre.

Justo o Jardim Miriam, que sempre demora tanto pra passar!
Vou ligar pra ver se ele chegou bem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Chá, biscoitos e trovoadas no fim da tarde


Não sei de onde a coragem, meu santo, é capaz que nem abram a porta, fico assim gelada na entrada espiando pela janela gritando Helena, quem sabe roubá-la e levá-la ao meu reino, dois povos em guerra pela mulher mais bela do mundo. Desculpe entrar assim molhada, saí depressa e esqueci o guarda chuva, como é que ela está?
O olho arregalado e a respiração de ódio como se eu um guerreiro disposto a qualquer coisa, Quem foi que te chamou aqui? A sala escura tem uns móveis novos e um gato de madeira que devem ter trazido daquela viagem misteriosa, quero gritar Helena-Helena-Helena mas alguma coisa na sala pesada me oprime. Desculpe a saia pingando, olha aí, estou molhando tudo, bem que eu tinha ouvido a previsão chuva-intensa-com-trovoadas-no-fim-da-tarde, vim apenas saber se ela piorou, senti um aperto e vim, será que.
Estou tão abalada que tenho vontade de abraçar você, minha querida bruxa amarga, abraçar e chamar de mãe, mãezinha, você me oferecia chá com biscoitos de abacaxi, não lembra? Depois perguntava gentil se as meninas não queriam ver um vídeo ou coisa assim, tão gentil, mãezinha, que parecia a velhinha rechonchuda da embalagem de pães de queijo congelados, agora eu só quero ver a minha Helena, querida bruxa azeda, olheiras roxas do tamanho do buraco nesse seu coração. Você não entra aqui, eu já disse.
Vontade de dizer pra você mãezinha que uma coisa dessas não se faz nem com um bicho feito eu, implorar, ajoelhar assumindo o pecado que você quiser na sua fogueira maternal, Se ela entendesse que eu estou aqui ia querer que eu entr., Ela não entende! De repente a mãezinha num choro convulsivo, o lábiozinho gorducho tremelicando e quero mesmo abraçá-la, não precisa desse ódio, Dona Solange, a gente tem de se ajudar, lembra quando eu dormi aqui a primeira vez? Liguei pra minha mãe no meio da noite chorando, medo, muito medo de dormir, quem sabe um defunto ensangüentado embaixo da cama, você me sentou no seu colo e cantou até passar o choro. Hoje mais medo ainda, Dona Solange, minha segunda mãezinha, você me olhando com essa cara de nojo como se eu um monstro, uma aberração, Eu só quero vê-la, percebe? olhar pra ela um pouco, quem sabe ela me veja e fique bem consciente!
Dona Solange dois olhos redondos vermelhos, as veiazinhas desenhadas feito um mapa de guerra, eu o alvo imóvel, talvez ela pense que o meu fim seja o fim de todos os problemas dela, a Helena acordando linda e sem doença e com um namorado perfeito, quem sabe um médico formado e um consultório salmon-pastel do ladinho de casa, e ainda por cima homem, já imaginou que maravilha, ahn, mãezinha, você deve ter emagrecido dez quilos nas últimas semanas. Nesse momento ela deve ficar só com a gente, acabou a farra, mocinha, vai embora agora.
Acabou a farra. Vontade de explicar que ela não conhece a Helena, não conhece, três anos, mais de três anos, um apartamento lindo, se você tivesse ido visitar uma só vez teria se encantado, nosso quarto vermelho e ela pintava coisas lindas na parede. Numa hora dessas devia estar com quem a conhece, mãezinha, no meu colo no meu peito no meu travesseiro rindo o riso louco da doença, só eu entendo as febres os tremores.
A Helena experimentando meu vestido preto e reclamando do quadril pequeno, ah se ela soubesse como é ruim ser assim toda grande, esbarrando nos móveis, a infância inteira a Cinderela com seu sapatinho minúsculo sapateando na cabeça, só quero a minha menina pequena, minha Helena tão linda, os cabelos que ela prendia e me esticava o pescoço pra eu sentir o perfume novo, naquele dia a gente foi no teatro e ela já tinha a doença mas acho que não sabia, no meio da peça um desmaio discreto, parecia que tinha apenas deitado a cabeça de leve no meu colo, eu cochichei Helena-levanta-que-vexame-isso mas ela nada, ali deitada em mim, escolheu o meu colo pra desmaiar macia. Ainda bem que eu sempre fui grande e ela tão pequena, peguei no colo feito noiva de novela e ela acordou no táxi, acordou boa já dando ordens, queria voltar pra peça, imagina hospital, que coisa maluca de jeito nenhum.
Esse gato de madeira, quem sabe esse gato não tem a ver com a doença, ahn? Cada vez que vinha almoçar com vocês voltava pra casa mais doente, dizia Carla-Carlota-ando-tão-fraquinha-cuida-de-mim e eu beijava tudo, mãezinha, beijava o peito arfante, a respiraçãozinha curta, cancelava reunião, salário, viagem e não largava a mão quente sempre úmida, culpa desse gato sinisitro que ia sugando as forças aos poucos, Eu vou entrar, Dona Solange, a senhora não perde nada com isso.
Emagreceu dez quilos e envelheceu dez anos na última semana, a velha. Já disse que de jeito nenhum, Carla! A vozinha trêmula me lembra o chá com biscoito e a gente tão pequena pedindo deixa-a-gente-brincar-na-chuva, a Helena sempre tarada por chuva. Ano passado mesmo na praia quis sair na chuva, o cabelo encharcado e ela rindo, tropeçou na areia e aquilo foi virando lama, precisava ver que coisa nojenta, detesto areia molhada.
Ia dar tudo tão certo, mãezinha, a gente estava até vendo de ter um nenê, olha aí, já estou ficando nervosa de novo, vou acabar ajoelhando e implorando e isso não é do meu feitio, um nenê rosinha e você ia acabar aceitando, uma hora ia perceber como era lindo, a Helena completamente apaixonada e mãe, os seios miúdos crescendo de leite, ou quem sabe o meu peito já tão grande e o bebê se empanturrando, lambendo, sugando, pedindo mais e mais e você toda avó oferecendo chazinho e biscoitos de abacaxi, teria sido tão simples, não teria? Esses desmaios, meu santinho, e essa velha aí de pé achando que é tudo castigo de algum deus macabro que ela alimenta em rezas solitárias.
Se ela estivesse consciente, Dona Solange, se tivesse forças já teria voltado pra casa, só quero ver, só isso, não encosto, pelo amor de deus, duas semanas chorando sozinha, olha o que vocês fazem comigo, olha essa roupa rasgada, molhada, sente o meu hálito de fome porque só o estômago sente fome e o resto não, a cabeça teimosa só quer chorar, telefonar, doer doer doer. Eu queria acompanhar os exames, queria explicação do médico, sentir a mão do doutor no meu ombro e o olhar compenetrado e sem eufemismos, eu mereço essa mão no meu ombro, está me entendendo?
Empurro a mãezinha de leve e vou direto ao quarto, tanto tempo esses corredores e ainda lembro os caminhos todos, essa mulher correndo furiosa atrás de mim como se a casa uma loja de cristais e eu uma criança rebelde desgovernada entre as prateleiras. Helena na escuridão só com a luzinha azulada da televisão num filme-desenho que assistíamos juntas nas férias, agora o capitão diz Voce-tem-um-último-desejo-antes-de-morrer? e o coelhinho muito perspicaz responde sim-senhor-gostaria-muito-de-continuar-vivo, e então o capitão, distraído e apressado, vai dizer que-seu-desejo-seja-atendido e quando perceber a derrota o coelho vai arrematar com e-batatas-fritas-por-favor.
Helena, Leninha, acorda, olha quem está aqui! Acorde logo, olha sua mãe no telefone, vai saber para que autoridade policial está ligando. dona Solange, ela não gosta das almofadas assim, pelo amor de deus, o pescoço caído assim pra trás, ela usa no mínimo três, lá em casa tem uma em formato de coração que ela punha na lombar. não, Leninha, não deixa o pescoço assim, abre o olho, Helena, pelo amor do nosso santinho, está me escutando eu vim te ver, pense no nosso nenê, ahn? ano que vem quem sabe a gente faz um berço multicolorido do jeito que você queria. dona Solange, desliga esse telefone e vem depressa aqui, me abraça, me ajuda, dona Solange, não, não grita assim, faz aqueles biscoitos de abacaxi que a gente adora. eu te concedo um último desejo, Helena, abre o olho bem bonito pra mim, Leninha, por favor, só essa última vez.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Estado de Sítio



Estado de Sítio

Uma casa pequena e os oito ali contentes, cada vez um era a Branca de Neve varrendo lavando servindo os sete anõezinhos bêbados com barrigas doendo de rir de piada, de alegria, de bobos. Vontade de cerrar os portões e as estradas e nunca mais sair do meio do bosque com as criaturas fantásticas entre as árvores, águas, teias de aranha.
A sala e o tapete que tinham cheiro de mato e foram ganhando perfumes, álcool, brigadeiro e tabaco – o cheiro de férias impregnado nas roupas, e as cinzas acidentais entre as páginas do livro. Esconderijos molhados no barro das moitas, atrás do carro, da geladeira, o vento frio de infância e na verdade sete anões gigantes e uma branca de neve qualquer desprezando a maçã e molhando a saia amarela rolando bêbada na grama.
A casa pequena e o relógio guardado festejando a virada do ano no tempo de cada um, no tempo do forno controlado ao acaso pelo tempo do estômago. O tempo dos passarinhos que acordam todos juntos. O som do champanhe estourando no escuro, velas e os votos para um ano que nasce mimado em berço de loucos e engatinha febril e sabe-se lá aonde vai se não ficar ali quietinho quente entre os cobertores e pernas, dormindo com o barulho dos grilos.
As risadas ainda no fundo do ouvido e estou de volta à cidade de repente e a segunda-feira doendo como nunca doeu. A segunda-feira uma garganta inflamada escancarada me engolindo, mostrando a língua numa zombaria infantil, vomitando suas incertezas sem pássaros, grilos, risadas.
Fecho a porta de casa, completamente sozinha, e nunca o silêncio urbano trouxe tanta solidão. O ano letivo – esse macarrão insosso – deitado imóvel e pegajoso na minha cama, empoeirado na pilha de papéis que resistiram ao ano passado. Dois mil e nove desmaiado nas obrigações todas tão desprezíveis que se eu fechasse os olhos e dormisse por um ano – um dia um príncipe e um beijo pueril na boca e uma viagem no lombo do cavalo e o happy-ever-after –, se eu dormisse assim aqui, sozinha embaixo da cama, até o final do ano, o mundo continuaria exatamente igual. A segunda-feira, minhas obrigações desprezíveis, a casa pequena do sítio vazia e escura, e a minha mala aberta com as roupas cheirando a cinzeiro, vinho e chocolate.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

bizarrinho...



Entre as nossas varandas

De vez em quando aparecia e olhava a rua com os cotovelos no parapeito, e me sorria por cima do biombo entre as nossas varandas. Ou às vezes sentava com as pernas abertas na banqueta e pintava as unhas do pé em dez segundos e depois ficava olhando o céu com os dedinhos em garra até secar o esmalte – eu via por baixo do biombo. Por entre os ramos da trepadeira que crescia desgovernada entre as nossas varandas, chegou um dia a me passar um bombom recheado de leite condensado.
Eu já não sabia do Júlio, resolvia seus assuntos na língua maluca em reuniões suspeitas e o sol na sacada só me fazia pensar no sol da minha casa. A casa que já não era minha porque agora o Júlio a minha casa em qualquer canto do mundo em que o colocassem -- eles tiram a gente do globo como uma mão gigante mexendo pecinhas num tabuleiro, vim empacar nessa varanda. E já faz tempo demais que ninguém joga esses dados.
Quando a gente chegou não vou dizer que tinha um brilho jovial nos olhos do casamento, não, olhos cansados, antes de falar com o porteiro ele apoiou a mão peluda na minha barriga, como se o filho quem estivesse nervoso, o filho que estivesse vendo os milhões de tijolinhos cor-de-rosa e as mil varandinhas lado a lado e empilhadas em vinte andares floridos e consumidos de trepadeiras e samambaias, Júlio, essas varandas!
Não, não tinha privacidade alguma, mas fui aprendendo a gostar da moça misteriosa que me dava doces através do biombo e que não falava mas se falasse seria na língua enrolada, usava um chapéu gigante que fazia sombra até a ponta dos seios, o tempo todo um animal no colo que eu pensava que era um cachorro mas que só podia ser um gato, o rabo tenso no ar, a serenidade. O Júlio chegou no meio da tarde depois de um telefonema arfante e me levou aos prantos, o hospital e sua língua enrolada, o filho num paninho e um médico explicando coisas que só o Júlio entendia e eu codificava pelos gestos e chorava imaginando a varanda vazia muitos mais anos e o Júlio que nunca mais pousou a mão peluda na minha barriga.
No dia seguinte eu era um balão estourado esquecido vazio em algum canto da festa. A moça passou as duas mãos pelo biombo e eu senti que chorava mas as lágrimas em algum lugar atrás das folhas da trepadeira, só o sorriso angelical nas frestas entre as folhas. As duas mãos quentes me acariciando a barriga inchada de líquidos e ares de morte, qualquer coisa de maternal naquelas unhas cortadas bem rentes me aquecendo o ventre com um sorriso que inspirava um beijo que o biombo impedia, uma das poucas coisas que o biombo impedia.
Naquela tarde me deu outro bombom recheado e riu quando eu babei o leite condensado e limpei a boca na manga do vestido, riu do jeito que a minha mãe ria escondido do meu pai que achava um absurdo essa de limpar a boca na roupa. Riu de um jeito que o Júlio nunca riu, e disse alguma coisa na língua enrolada, alguma coisa que eu fiquei escutando de novo e de novo dentro da minha cabeça, parecia uma amargura, uma maldade dita numa voz doce, uma palavra a ser repetida mil vezes num ritual colorido de tambores e sei mais o quê que faz esse povo com seus chocalhos e incensos.
Então, bem devagar, feito uma oferenda a Iemanjá voltando à praia de onda em onda, num olhar incompreensível de compaixão, foi empurrando por baixo do biombo o gato mole, a língua enrolada, enforcado num cordão de chupeta.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Confissão


Narcisismo

O bico do funil ficando fino a cada dia, a qualquer hora não sobra um diâmetro sequer que deixe entrar na minha bolha alguém que não seja um nome no celular, uma foto sem foco num site azulado na minha internet lentíssima. A seleção afunilada do meu afeto que deixou entrar três ou quatro na minha bolha, e mesmo assim anda difícil a amizade com qualquer coisa que não me espelhe, toda exceção até agora frustrante.
O funil ampulheta deixando passar um fino fio de areia até parar o tempo e os meus vínculos todos uns registros na memória e umas risadas nostálgicas de uma época em que as pessoas valiam à pena, meu funil tirando o mundo todo de perto, de dentro de mim. Triste confessar, doce mundo, mas não há ninguém. Cercada de imbecis, de bestas irracionais galopando calçadas com suas alegrias mesquinhas, com suas sabedorias de correntes eletrônicas e filmes odiosos, triste dizer, mas vocês todos não prestam para nada.
A gente disfarça, faz um social, sorri a toa distribuindo compaixão, mas chega do politicamente correto: meu funil me protege de vocês. É horrível dizer uma coisa dessas, eu sei, mas, do jeito que os tempos estão, com o funil sem aceitar as gentes assim tão incapazes de qualquer coisa que lave esse mofo cinzento, enormes as chances de eu vir a detestar completamente o meu próprio filho.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Adequa



A gente ouve que duas pessoas se casam pra viver juntas num apartamentozinho e todo o mundo foge aos pares para os seus cantos. Eles dizem que é assim o amor, e a gente se adequa. Eles dizem que o certo é trabalhar oito horas por dia e passar mais três no trânsito, eles dizem que é normal escoar quase metade da vida em papéis insossos que a gente ensaia na juventude e perpetua até os ossos doerem de exaustão; eles dizem, e a gente se adequa. A gente acorda um dia e se percebe numa cavalaria desgovernada de motores e latas, respirando fumaça e correndo perigo, mas a gente se adequa − fica até clichê reclamar disso. Então eles dizem que adequar é verbo defectivo, não pode conjugar em quase pessoa nenhuma, e ainda assim a gente dá um jeito e com muito custo continua se adequando.
Eles dizem que não é certo perder a cabeça, virar a mesa, rodar a baiana, descer do salto. Não deixam passar duas semanas no quarto suando entre livros e pipocas de microondas, porque não é assim, e vão adequando a gente em doses diárias de neurolépticos psicotrópicos e de repente no diagnóstico vem escrito neurastênico e não adianta dizer que a gente não se adequa, não adianta dizer que está errado.
Eles contratam dez incompetentes e enfiam em ternos quentes de muito fino trato e gravatas academissíssimas e um microfone disfônico pra ensinar como é que são as leis, e invariavelmente a gente se adequa. O português se revolta, a gramática se contorce tentando avisar que há vida demais lá fora, que dá pra correr de ponta-cabeça, dá pra trepar sem a dança do acasalamento, existe música além das mesmas músicas, deve existir alguma coisa embaixo desse tapete pesado e poeirento que enfiaram sob os nossos pés, sob os nossos passos.
Mas nós, nós nos adequamos.