segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O tempo do farol


Os meninos do farol da entrada de São Miguel Paulista têm de saber o tempo preciso de cada conversa, o clímax no encaixe perfeito entre sinais vermelhos, senão no meio da história os amigos em disparada entre os carros, e o orador a administrar solitário a evasão da plateia sob o sol de um milhão de graus, depois a disfarçar a pequena humilhação crônica no resgate de um assunto que morreu pisoteado no asfalto com as balinhas de framboesa.
É preciso voltar para casa com no máximo cinco saquinhos não vendidos e dois gestos suspensos em histórias mal calculadas, os braços no ar bem no meio do melhor relato, todos correndo como se a conversa não tivesse a menor importância, justo agora que tem também uma menina, uma moça, que talvez ainda sustente um pouco mais o olhar no interrompido da vez, e vá correndo quase de costas com as balinhas, só até o colega dispensar a gentileza e correr também, nenhuma história merece tanto prestígio.
Esses meninos do farol da entrada de São Miguel Paulista talvez tenham raiva porque até apurarem esse tino narrativo são calados tantas vezes nas suas teatralidades, uma vida de hiatos. É capaz que tenham raiva porque já não são meninos, tão rapazes, e ainda meninos, sempre meninos.
Ou talvez tenham raiva porque aquele não é um farol da entrada de São Miguel Paulista, é a entrada pra quem vem do centro da cidade, pra quem vem de mais perto daquilo que é o perto, mas para eles é a saída, a borda, a beira de uma ilha cercada de córregos e avenidas muralhadas terrenos campinhos de futebol, uma ilha de santos paulistas cheia de assuntos mas também cheia de farol e é preciso calcular o tempo, calcular as vendas, e a menina é nova aqui e também não é mais menina, nem arrisca conversa, ainda testando os ciclos do farol da borda de São Miguel Paulista, agora sob uma chuva fina, o marulho dos carros na água do asfalto, à beira de casa, o farol de um mar que engole em ondas programadas as conversas dos seus banhistas.
Os meninos do farol da orla de São Miguel Paulista também têm uma lista de coisas rápidas a dizer antes da próxima onda, e ainda assim às vezes um vidro abaixa e uma pergunta fora do roteiro e uma resposta animada que quer continuar mas o farol muda e a água leva o carro numa curta buzina carinhosamente paulistana e os meninos sorriem, porque não tem importância, há outras histórias, outros ouvintes, a menina já ensaia uma palestra aos meninos, quarenta segundos de atenção, o tempo perfeito, em uma semana ela já sabe o que cabe e o que não cabe no tempo do farol, o tempo entre as ondas de São Miguel Paulista.  



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Vamos falar de coisa boa, vamos falar de Cássia Eller


[pausa para o Dia das Crianças]

Eu morava num condomínio e tinha 12 pra 13 anos, mas como eu tinha mais de 1,70m e muito peito, fiquei parcial e perversamente inserida no grupo dos moleques nos seus 18 anos.
E um dia apareceu na televisão da casa de um deles a Cássia Eller cantando. Era uma mulher, espetacular, e eu fiquei olhando intrigada para a tela. Um deles gritou lá de trás:
-- ESSA MULHER É NOJENTA.
Os outros riram.
-- Gostou dela, Mongol? – Mongol era como ele me chamava.
Fiquei ali assustada tentando entender o que fazia dela uma mulher-nojenta e o que eu teria de fazer pra que nunca um homem gritasse isso sobre mim.
O recado não é e jamais será pra ele, que em tantos anos deve ter tido seus aprendizados. É para as meninas, que a essa altura não são tolas como eu era aos 12 anos, mas não custa deixar o apoio:
D E S C O N F I E M de qualquer coisa que um menino disser sobre qualquer mulher. Desconfiem até do que uma menina disser se for negativo, perguntem para outra menina, talvez mais velha, em quem confiem.
Hoje eu me culpo muito por ter, ainda que por meio ano, acreditado que uma mulher tão incrível era nojenta, e que era preciso não ser como nenhuma dessas mulheres incríveis nojentas. E essa é uma culpa que a gente não merece.

O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller.

sábado, 14 de março de 2015

Segredos Coletivos

Você prosaicamente procura o outro pé do sapato na pressa do elevador que você já deve ter chamado, termina o copo de leite, enxuga a mão na roupa, e é provável que não pense em nada, só em correr, e chegar singelamente ao trabalho, e eu fico pensando que nunca houve sintonia, que a gente começou a ouvir uma música juntos, mas nunca encontrou propriamente a estação, e a música ficou lá, num discreto chiado, sem que a gente movesse o botão desse rádio nem pra frente nem pra trás, ficamos assim em desajuste na ilusão de que o importante é estar ouvindo de alguma forma esse som que a gente não consegue saber de onde vem, nem desligar, nem aumentar, nem arrumar.
A vertigem que ataca o início de um sono vespertino. Quase dormir mas despertar a tempo de concluir que se vai de fato dormir e que a sensação é de queda, como se o sono da tarde fosse um buraco, um salto do colchão para dentro da cama, uma escorregada na espiral infinita do universo das molas, é essa a cumplicidade que eu preciso ter com as pessoas, é preciso que elas também reconheçam nelas essa vertigem logo antes de pular para o sono, a cumplicidade nesses pequenos fenômenos íntimos, e você parece que escapa de todos, nós numa total dissintonia.
Cumplicidade também nos fenômenos de infância, esses que vão nos compondo aos poucos, você contornou todos eles, você parece que não tem os seus segredos coletivos. Esses segredos que eu chamo de segredos porque ninguém fica falando deles, e de coletivos porque muita gente sabe, todos sentem, a vertigem antes do sono da tarde, o perigo de uma mão surgir do fosso do elevador tateando o buraco da ventilação, ou de aparecer mais uma pessoa na imagem do espelho, ou de um semiconhecido sentar do seu lado no ônibus sem quase nenhum assunto, de morrer de repente com a roupa íntima não muito limpa a ponto de as pessoas da autopsia, do hospital, ou seus parentes concluírem que uma pessoa com esse cheiro nem merecia de fato viver.
Talvez este da morte sem banho não seja tão coletivo assim, mas de toda forma você não tem, nem esse, nem qualquer outro segredo fenomenológico que nos coloque em sintonia ou cumplicidade, você sai e volta sem que nenhum detalhe da existência tenha trazido você pra mim durante o dia.
No banho o condicionador escapa em excesso na minha mão. Aperto o tubo instintivamente criando um prenúncio de vácuo e encosto a boca do frasco na minha mão recolhendo de volta o que não vou usar. O frasco suga o condicionador da minha mão feito um animal aos soluços, espasmos de afogamento, e fico pensando se você possui esse segredo coletivo, se você sabe recolher de volta o condicionador que saiu a mais, essa sabedoria que ninguém transmite, que vem da física simples que foi se construindo em nós conforme apertamos frascos, experimentamos diferenças de pressão, e concluo que não, você vive assim livre de empirismos, foge às sabedorias íntimas que não vêm nas notícias nem nos livros, e fico pensando se o mundo não se divide justamente entre pessoas que sabem colocar o condicionador de volta, assim nessa violência sofrida do frasco sufocando na palma da mão, a tomar fôlego com a boca emborcada no que ele próprio cuspiu, e pessoas que simplesmente jogam o excesso no chão por não visualizar qualquer outra possibilidade. E nem sequer pensam que há pessoas que pensam nisso.
E então você provavelmente está desse outro lado do mundo, o mundo das pessoas que não têm segredos coletivos, e que jogam o excesso do condicionador no chão ou mesmo ensebam os cabelos, e que não pensam que há pessoas que pensam nisso, não pensam que há pessoas que pensam na vertigem do sono da tarde, e na aflição de olhar muito tempo um quadro de Jesus temendo que ele possa piscar, e na angústia de não saber se aquela senhora que entrou no metrô já percebeu que é idosa há tempo suficiente pra não se ofender se você ceder o assento, e depois na angústia de imaginar o dia em que alguém lhe ceder o assento pela primeira vez, e ficar pensando se você já terá se acostumado com sua própria idade antes que alguém lhe surpreenda com isso, e no meio desse pensamento não ceder o assento, apenas levantar e sair, na esperança de que ninguém o ocupe, apenas aquela senhora que talvez ainda não seja tão senhora assim.
Você está aí, desse outro lado, no mundo das pessoas sem segredos coletivos e talvez esteja aí nossa dissintonia, esteja aí a razão de eu sentir tanta cumplicidade em todo o resto do mundo que não é você. Daí eu chego do trabalho e você já está aí sorrindo com toda a sua leveza, e pelo menos eu posso imaginar que quando você fica aí olhando a janela não está pensando em todas as pessoas que vivem nesses tantos apartamentos e se perguntando se alguma delas não poderia te fazer mais feliz, você não deve estar fazendo isso porque é isso que muitas pessoas fazem, em segredo coletivo, procuram outras janelas onde mora uma felicidade ideal, e daí você vem na minha direção com um copo de alguma bebida e eu fico ouvindo esse zumbido que é a nossa musiquinha fora de sintonia, a música que a gente acaba gostando tanto de ouvir, e que se um dia desaparecer vai ficar um silêncio muito doído, mas que eu também vou me acostumar, porque a gente vai se acostumando com os silêncios que as pessoas deixam quando vão embora, difícil é se acostumar com a música fora de sintonia que na verdade talvez sejam nossas duas músicas tocando ao mesmo tempo e a gente nunca tenha reparado nisso, que estamos ouvindo coisas diferentes, juntos, e você me dá um gole do que está bebendo, e tudo pra você parece estar perfeitamente bem.
E você entra no banho, e eu passo o tempo do seu banho pensando em perguntar o que você faz quando o condicionador sai em excesso, e fico pensando que você pode responder que isso nunca aconteceu, o que seria um completo absurdo, um sinal chocante de que você se adapta imediatamente às novas situações da sua vida, em qualquer quantidade, ou mesmo você pode me responder que não faz nada, que só lamenta, e quando você sai do banho eu concluo que não é seguro fazer essa pergunta, porque talvez eu queira continuar ouvindo nossa música sem sintonia, e que talvez você depois do banho dê alguma risada silenciosa olhando a tela do seu celular e isso seja algum segredo coletivo só seu, dessa sua parte do mundo em que eu não vivo, e quem sabe a gente possa viver assim, sempre assim, pra sempre.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nesta semana houve o lançamento do livro Delicada uma de nós, com grande parte dos meus textos, que estiveram e não estiveram neste blog. Dentre eles, 4 contos premiados (Off Flip 2012, e Josué Guimarães 2013).
Para aquisição, enviar email para delicadaumadenos@gmail.com

Muito obrigada pelo apoio!
:-)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Catálise


É de noite e por isso o vidro que dá pra rua vira quase um espelho, menos quando passa o farol de um carro lá fora. Um carro que está provavelmente indo fazer alguma coisa mais interessante que ficar caminhando numa esteira.
Meus dentes batendo, a barriga molhando indigna por trás do elástico da bermuda, não consigo parar de pensar na ideia odiosa de estar tantas noites numa academia, mais uma hora que eu perco fazendo mais uma coisa que não significa nada, uma hora gastando a mim mesmo. Dissipando o que meu dia indevidamente economiza – nas tantas horas que também não me dizem nada.
Como se ao longo do dia eu existisse menos do que fui feito pra existir, e então engordo. Possivelmente na esperança fisiológica de existir mais tarde, um dia, tudo o que fui sobrando.
Perder minhas noites aqui porque me falta em juventude o que me vem em ganas de engolir, beber, toda aquela fartura das bandejas por quilo, latas, garrafas, esses tantos consolos, e é preciso vir aqui me gastar para poder me economizar, durar mais anos com muitas horas e poder passar mais tempo fazendo essas coisas que não me dizem nada.
 As pessoas se cruzam no caminho dos seus exercícios e sorriem, e se falam. Quem há de compreender por que se falam. Feias, suadas, não se conhecem, não têm nada em comum a não ser o fato de estarem se gastando no mesmo lugar na mesma porcaria de hora nobre, com a novela muda e legendada em metade dos televisores.
Hoje a música está excelente, quero elogiar o professor que escolhe os CDs, mas nem para isso quero falar, essa é a hora em que estou completamente ausente de mim, não há absolutamente nada nos meus movimentos que diga quem eu sou, autômato, passos mecânicos tentando vencer a hora mais lenta do dia.
Não, é inacreditável que alguém nessa situação se sinta com identidade suficiente para interagir.
Minha não-pessoa lamentando a incapacidade de elogiar a trilha sonora e uma outra não-pessoa comentando com outra que hoje a música está de-cortar-os-pulsos. O mundo se divide em gente que.
Parar com a mania de dividir o mundo. Mas realmente o mundo se divide, não adianta, o mundo terminantemente se divide toda hora, e se divide agora em pessoas que veem a beleza das coisas soturnas e aquelas que querem enfiar alegria no ouvido da gente o tempo todo, uma alegria nervosa, histriônica, até mesmo na camiseta amarelo neon subindo e descendo na barra de alongamento.
Justo o alongamento que é uma coisa lenta, fibrosa e profunda, a única profundidade nessa caixa espelhada quente de glicogênios e catálises.
Ainda falta meia hora. O vidro da rua me reflete porque já é bem noite e já quase não passa farol de carro porque quase todos já chegaram em casa. Pior, todos chegaram nas suas academias. Todos os humanos urbanos diante dos seus espelhos gastando a si mesmos, porque éramos pra ser muito mais do que somos durante o dia e então vamos sobrando, e quando chega a noite é preciso se gastar muito, pra não sobrar, e vai-se gastando o tempo, tanto tempo, que quando eu me der conta nem sobrei nem faltei, só quase não existi.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre as nossas delicadezas II


Existe um telefone celular e ele é doentiamente um companheiro, na mão, no bolso, bolsa, roupa, metrô, ele é um companheiro quase maníaco guardando suas fotos, músicas, confissões, estabelecendo os mais ansiosos e desesperados contatos, e esse aparelho de tempos em tempos, de tão solicitado, cai desastradamente no chão, mas sempre fica tudo bem.
Ele cai, às vezes solta a tampa de trás, a bateria escapa para lugares insondáveis e você fica tateando o asfalto como quem procura a vida de um grande amigo temporariamente inconsciente depois de uma queda. Você encontra, e então ele está de volta, pronto para a próxima queda, já ativo no desespero da próxima comunicação – atrasos, saudades, trânsito, dúvidas, súbitas incompatibilidades de gênios.
Só que daí um dia, na centésima queda da altura da sua mão – nem é a pior das quedas, é na verdade uma quedinha de nada, perto das tantas outras, um esbarrão à toa, um deslize, nem mesmo cuspiu a bateria --, e quando ele se ergue do chão vem o espanto diante de uma tela multifragmentada e áspera que enfim não deve mais responder aos seus insistentes toques. E você olha a tela desproporcionalmente estraçalhada e pensa que ela foi ingrata, mimada, porque isso não precisava ocorrer justo hoje, com essa queda, se ela resistiu a coisas tão piores, e de repente a ruptura parece um capricho, uma vaidade, justo num dia como esse.
Mas daí olhando pro seu telefone bem no fundo dos mil vidrinhos doloridos, você percebe que na verdade ele resistiu mais do que devia. E que muita coisa e muita gente resiste mais do que devia, tanta queda, chute, golpe, atropelo, e a tela intacta e leal mantendo os anseios das suas comunicações, até que um dia não tinha mais forças, e era bom que esse dia chegasse, porque não está certo ser derrubado displicentemente assim tantas vezes, e chega uma hora que se não quebra fica a dúvida de como serão as próximas quedas, o que é um jeito terrível de se viver.
E você fica aí parado, no meio da calçada, olhando para o telefone celular com a tela gratuitamente espatifada esperando que com isso ele te ensine alguma coisa, nem que seja a quebrar de vez em quando, e bem antes da centésima queda, pra que alguém fique te olhando assim do jeitinho que você está fazendo, quase se arrependendo e já louco de saudade, porque não é saudável ficar durando assim quando te jogam tanto, chega a parecer que você pode cair, e cuspir a vida na sarjeta, ou embaixo das mesas, que depois fica tudo bem, e você volta, servil e diligente, e não, não é saudável que se disfarcem tanto as nossas delicadezas – senão é até capaz que, na queda fatal, você ainda seja culpado pela desproporção. 
Mas daí você está lá parado pensando tudo isso e fazendo planos sobre como tratar bem o seu futuro telefone, e passa a mão na tela, e assim, mesmo inacreditavelmente em pedaços, ela funciona, ela sorri.