sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pra quando o carnaval





Pronto, agora pode me levar pra rua. Pode me puxar pela mão na multidão, pode me encher da sua cerveja infinita, seus saltos, gritos, goles, gargalhadas, pode me colorir das suas mil cores, pode me vestir na sua pouca roupa, e me girar, pode me confundir na sua falta de senso, logo você que não sabe a hora de vir e muito menos a hora de ir embora, pode me vendar a vista e me levar pelas suas terras distantes que agora eu já tive a minha dose fundamental de melancolia.
Já vivi sozinha a minha sexta-feira paulistana com o que pode haver de mais úmido nesse início de carnaval, que é um violoncelo, e nos batuques já perdi meus olhos -- dos gardenias para ti --, agora pode me levar que estou pronta. Já me protegi de você com toda a nostalgia de uma sexta assim, já me protegi de você com toda a minha dor, toda a minha saudade de qualquer coisa que não sei quê, pode vir com toda a sua fúria carnavalesca que eu já posso ser inteira sua.
Pelo amor de deus que já quero acordar num beijo seu, no seu abraço longo, suado, quero acordar com a sua voz sempre tão inacreditavelmente alta – que saudade da sua voz!  –, eu quero que você me rasgue a roupa e me pinte, que você me encha dos seus brilhos, que você me confunda e me iluda, pode gritar, apitar, pode rufar seus tambores, que eu não me assusto, tenho em mim gravadas, costuradas, as dores que me salvam da sua vertigem. Eu tenho tatuagens que você não apaga, tenho em mim as marcas fortes do meu endereço, pode me levar que eu sei voltar.
Vai, me leva, vem e me tira desses lençóis doídos, que eu já passei tempo demais nas camas erradas, e tempo demais na minha cama, vem e me leva pelos seus corredores, e me canta me dança me mente me assalta e me arrasta pelas suas avenidas, e me grava na sua bandeira, Alegria, que agora sou toda sua. Vem e me roda nos seus sambas, apertos, segura a minha mão, Alegria, e me flutua, que eu já pesei demais.
Pode me levar nas suas cócegas, pode me hastear nos seus ventos, Alegria, que eu estou completamente pronta pra você, pode me bailar que eu não tenho mais medo. Pode me enlouquecer, alucinar, entorpecer, e pode também me esquecer, Alegria, que eu já sei como as coisas são, que eu já estou pronta pra te ver, pra te sorrir, pra te amar, e pra te deixar partir.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Do meu Show




A casa perfeita
que ninguém visita.
A noite mais quente
que ninguém nem sente.
A ordem aflita
Que ninguém respeita.
A cama delícia
que ninguém amante.
A menina arfante
Que ninguém carícia.
A pintura eleita
Que ninguém aplaude
O choro de boneca
Que ninguém ampara
O vestido florido
Que ninguém repara
A idéia brilhante
Que ninguém heureca
O desejo contido
Que ninguém tomara
O cabelo comprido
Que ninguém afaga
O ingresso do show
Que ninguém paga
A taça de espumante
Que ninguém timtim

É o que sou,
o que preciso ser:
que Ninguém esteja sempre em mim.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Árido I


Vôo por sobre a cordilheira e cordilheira me evoca um monte de coisa. Cordial, olheira, alheia. CORDA.
Ela que se estica gigante, infinita, e fico pensando que é a pele de uma senhora deitada, uma pele manchada, enrugada, inerte. A cordilheira é uma senhora virgem e serena, e os topos de neve seus cabelos brancos, e por isso ela embora virgem muito mais sábia, muito mais vivida que eu.
Debruço os olhos por seus sulcos, cavidades, quem sabe rios, ou mesmo estradas, e ainda assim ela plácida, intocada por tantos sobrevôos. Invejo a cordilheira por sua serenidade mas não por sua solidão, que é também a minha.
Há treze anos a espiei no mesmo sobrevôo e talvez nos meus olhos a mesma dor, essa solidão genética, costurada em mim no berço. Essa solidão que enruga, envelhece, mas não cresce, não se consome nem cura. Há treze anos sobrevoei a cordilheira e há 26 me sinto apenas sobrevoada por toda a gente. 
Ela me envolve labirinticamente nos seus vincos distantes e me cospe do outro lado atarantada e seca. 
Invejo a cordilheira na sua aridez -- eu sempre tão fluida, a derreter nos beijos, abraços, a escoar erodindo os caminhos que não me abrem. Mas não a invejo na sua solidão, que compartilhamos hoje com a lua e o sol presentes ao mesmo tempo -- efêmera união típica de teimosia minha. 
Há treze anos eu sobrevoei e odiei a cordilheira. Odiei por espelhar minha solidão, meu excesso de pele intocada, minha virginidade que eu comparava às intermináveis tardes de férias assistindo sozinha ao pica-pau -- outro solitário. Odiei por se deixar sobrevoar assim, ao longe, por tantos anos. 
E hoje embora eu chore por sobre essa velha solitária e imensa -- quanta ternura na aeromoça que me trouxe subitamente um copinho com água --, não culpo a cordilheira, talvez já não culpe ninguém, nem a mim; choro de olhá-la feito espelho. 
Penso em afagá-la, alisá-la com força e entrega, até que tocada a pele se estique na sua imensa cama, até que se vá alinhando plana, planície, deserto, até que se deixem anular seus desenhos complexos, até que já não seja cordilheira. 
E então entendo sua sabedoria e a invejo mais uma vez, e decido eu mesma resplandecer ampla e montanhesca, para que nenhuma companhia ou afago me planifique, trivialize, para que eu mantenha sempre meus desenhos complexos de curvas, sulcos e estradas, e saiba admirar -- sem doer -- a distância segura a que me sobrevoam.    

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MELT


MELT
O que há na minha matéria que derrete
--e lá fora o receio de tudo que derrete.
Massa quente que ao toque logo deforma
Envolve, encobre, extravasa
O que há em mim que derrete e não tem controle
Não cabe no aperto
No abraço
Nos dedos
O que há em mim que transborda

Assusta
Inunda
Corrompe
O que há em mim de vertigem que não me debruçam
--eu tão apoio, tão braços, tão bustos e não me debruçam.
O que há em mim que derrete e assusta
Areia movediça que se adivinha em alardes, gargalhadas, danças.
O que há em mim que derrete e ninguém segura
Ninguém contém, ninguém nem bebe nem guarda,
Não me nadam,
não se afundam, não se banham
O que há em mim do inglês MELT
E qualquer coisa de mel a amolecer o corpo
A enjoar as línguas
O que há em mim de insuportavelmente doce e denso
Que não esfria, não congela, nem desgruda
O que há em mim que a cada golpe
Em vez de secar, engrossar, recolher,
só enternece
Melting away

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Casa do Amor II




Você, que aguarda em algum lugar aí fora dessa minha casa que não tem campainha: só mais um minuto e eu abro. Pode sentar na sarjeta, na árvore, pode voltar depois da noite, da dança, pode esperar suado, ou dormindo, ou chorando. Esperar só mais um pouco que já abro.
Recolher do chão os cacos, os pedaços de vasos, as flores, estilhaços de espelho que acumularam: parece que fechei os olhos e pela casa passou um furacão quente e impossivelmente lento, é melhor você esperar só mais um pouco que ainda tem restos de comida na cozinha. Jogar fora o que sobrou do suco, da fruta, da sopa, marcas de chocolate pelas pias, dedos melados tingindo de açúcar os armários, azulejos – quantas vezes será que essas mãos espalmadas com fúria dulcíssima nessas tantas paredes, parece que nunca vou terminar de limpar.
Apagar das paredes também os recados, desenhos, quadros, recolher as fotografias e guardar quem sabe num fantástico sótão de sublimação e poeira. Ainda tem convidados na sala, que amigos são esses que foram ficando e nem são os meus, será que são pessoas esses vultos caídos nos sofás, será que são anjos delinquentes despencados de um paraíso que é preciso lavar completamente daqui.
Lavar – aguarde mais um pouco que ainda é preciso lavar – as roupas, costurar os rasgos, puxões, afagos, é preciso remendar o vestido que foi dilacerado, tirar as marcas, o cheiro. É preciso que já não haja perfume, nem suor, nem lembrança.
É preciso que eu me deite no chão e recolha debaixo da cama o que restou dos tantos monstros – que monstros são esses que deixaram aqui que não são os meus --, apanhar o que sobrou dos sonhos. Que sonhos eram esses que despencavam da cama em rochas de erosão e dor. É preciso que eu afaste janela afora os fantasmas que entraram com o vento, não é de bom tom uma casa assim assombrada.
É preciso acalmar os cachorros que latem no portão talvez sentindo a sua presença aí fora, ou quem sabe alguma ausência aqui dentro. É preciso estender nos varais sob o sol ardente a minha camisola, até que ela ferva, endureça, recomece, até que ela esqueça.
Mas é preciso acima de tudo que você traga lençóis novos, porque é impossível aguentar o peso dos meus, não se pode lavar mancha assim viciada. Arrancar da cama e dobrar carinhosamente pelas pontas, trocar as fronhas, e enterrar tudo no jardim feito um pano morto, sagrado, transcendental, enterrar como se enterra o que já não pode viver mas não pode apodrecer a olhos vistos, sem dignidade, decoro, adoração.
E quando enfim eu me erguer dessa incriticável faxina, quando tirar meus joelhos da terra velando esses lençóis doídos, vou abrir a porta e, quem sabe, até sorrir. Pode entrar, Meu Novo Amor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Gata no cio



Já todas as luzes no escuro e as portas fechadas e o barulho hesitante do teclado do meu computador na única sala acesa dentre tantos corredores. O vazio, as sombras, as reminiscências das tantas gentes que passaram durante o dia, os choros, abraços, o tilintar das algemas, chinelos, crianças: tudo no silêncio jurídico da meia noite dentro do fórum criminal.

E é nesse lugar, nessa noite lenta, que ela sai das suas trevas no jardim central – esse impossível antro de vida selvagem na estufa de ar condicionado e sol fosforescente em mil lustres de licitação – para uivar o lamento agudo de mais um cio solitário. É aqui que ela chora o seu cio bandido, clandestino, seu cio de ferro.
A gata sozinha entre moitas quase sintéticas e passarelas negras por onde já não vê doutores, senhores, louvores, nem mesmo já não vê desgraças, só a sua fúria uterina a lhe contorcer os ovários, a pulsar no ventre esse fruto que não vinga, esse despontar de fertilidade desaproveitada. A gata malhada a gritar, a espalhar pelo eco a sua força, a sua dor de ausência, a embaralhar entre as letras do meu computador o chamado doído do seu desejo. Uma pausa minha a cada frase, o meu grito calado em respeito a esse miado louco desatendido porque não há animal que alcance a fêmea nessa impenetrável clausura.

Nesse lugar cheio de prisão vem ela escancarar sua escravidão maior, sua ânsia insaciável dentro desse grande bloco de concreto. A gata no seu lamento cada vez mais alto, insuportável desespero que nenhum afago abranda, nenhum copo de leite.

A cada berro fica em mim a certeza de uma energia linda, fulgurosa, única, que ela dissipa em
tremores de um cio desencantado de cárcere e solidão. Apago a última luz e deixo a gata sozinha com o eco insistente de todo o seu amor.
Lá fora uma súbita lua dourada num calor de inferno, que me segue até o carro, até a casa, até a cama.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ali vem o homem com sua grande dor



 Pelos lugares de sempre aquelas mesmas pessoas  hoje num súbito respeito, num baixar de olhos, de tom de voz, amenizando os toques, os assuntos, fiscalizando o excesso de risadas, tudo porque eu tenho uma dor. Ali vem o homem com sua grande dor! Sou muito mais sólido, barroco, velho e importante porque tenho uma dor, uma dor notável, uma dor que no meio do embaraço tenta ser digníssima. Já não é uma dor de final de romancezinho, de um qualquer desencontro ou saudade carnal que uns quantos meses lavam. Nos mesmos lugares todas aquelas pessoas que se estivessem em outros séculos me tirariam os chapéus com algum incômodo pela minha chegada como se eu trouxesse comigo todo o permanente impacto da minha dor. 
É que eu tenho uma dor que é um escândalo, uma brutalidade, que ao mesmo tempo em que tira tantos respeitosos chapéus à minha volta é também uma dor de escárnio, de deboche, uma dor de instintos. Eu sinto dor em todos os meus instintos e não é possível que alguém de fato respeite uma dor que inflama o animal em mim, o que houver de sangue, de pêlo, de cheiro, buracos, abraços, avessos, eu sou essa dor que expõe os nervos como eu fosse um leão a fracassar todos os truques no picadeiro -- ouço até mesmo as crianças rindo de mim, e quem foi mesmo que fez esse leão assim tão inofensivo e triste. 
Não podem ser de respeito esses olhares diante de uma dor tão selvagem, mas também não são de piedade, que piedade precisa de um diminutivo, e eu sou um homem gigante, até mesmo meu nome denota tamanho, ninguém nunca pôde juntar piedade e meu nome numa mesma frase, num mesmo olhar. Durante o seu enterro minha concentração não era em compreender esse novo olhar que eu de repente passei a despertar ao redor de mim, era apenas em domesticar a minha dor. Você ali tão indecentemente morta e eu lutando pra afastar da minha quase bonita dor as rebarbas mundanas dessa morte monstra, que vem me dar ganas de leão, cadela, fera embriagada da solidão de um luto ilegítimo. 
Ele nunca me roubou você, ele roubou muito mais, talvez o direito de matar você, direito de ser eu a matar você. Talvez a essa altura da vida eu achasse que se você fosse morrer de uma morte dessas passionais, televisivas, midiáticas, seria pelas minhas mãos, as mãos de quem as gentes todas achavam fosse seu amor. E acontece também que eu já tinha decidido -- talvez antes mesmo de nascer -- que você (quem sabe ninguém no mundo) jamais morreria desse tipo de morte egoísta, tempestuosa, e a pergunta que talvez esteja nos olhos de todos esses chapéus baixando à minha volta é porque diabos (se eu exterminei da sua vida qualquer possibilidade dessa morte trágica) você foi buscá-la nos braços de um mal-resolvido qualquer, por que será que a mim foi negado até mesmo o direito de não perder o meu amor num homicídio passional. 
Você, que morreu pela paixão de outro, e não pela minha, porque a minha não matava, não doía, não negava nem cobrava, você deixou essa pergunta que faz com que os chapéus se baixem diante deste luto maldito, porque é um luto que não sabe se você merece a dignidade desta dor, se você estaria chorando diante de um túmulo meu. Você que saiu de repente da minha vida como quem vai comprar cigarros e resolve morrer assassinada por quem jamais teve o direito de dizer-se sequer apaixonado por você -- será que ele sabia do seu absurdo e inacreditável medo de altura? --, você me deixou de uma forma que não posso sequer perguntar por quê, há quanto tempo, e o que será que um homem que foi capaz de matá-la em razão de algum desespero que você provocou nele, o que será que esse homem um dia lhe deu, que feitiço, que alumbramento, que encanto homicida tinha esse rapaz pra que você me deixasse na mágoa desconsolada da sua mortalha sem flores. 
Não te trago flores porque já não sei nem se minha visita é por você bem-vinda, ninguém lhe traz flores porque a todos acomete a sensação de que talvez você não gostasse daqueles a quem dizia que amava. Ele nos roubou o direito ao luto, porque amar sozinho, mesmo a uma morta, é insuportável, e eu não lhe trago flores porque seria mostrar a você e ao mundo que a sua morte me encerra num amor para sempre não correspondido. E eu deixo você aí sozinha -- embora isso também me doa -- e sigo chamando a atenção de todos com essa minha dor incrédula, pensando, sonhando, quem sabe talvez, que a sua morte tenha vindo logo depois que você, aos prantos, de repente sã, bradou que me amava, que não me deixava, que morria por mim.