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quarta-feira, 9 de junho de 2010

A minha indiferença



O meu desprezo tem a força do meu amor, potência violenta e escaldante desses vulcões de mim. O mesmo vigor e a mesma energia, não adianta fugir que o meu desprezo tem a mesma valentia, o mesmo esforço. A mesma violação. Meu desprezo me imuniza das lembranças, dos tons pastéis, das aquarelas. Meu desprezo me imaniza e atrai o ferro do mundo, metal em brasa me empedernindo os seios, os olhos, o abraço.
Meu desprezo faz o mesmo estrago que todo o meu amor, traz o mesmo espanto. Meu desprezo mantém o mesmo e sempre vivo desconforto. Segue assim lacerante e destemperado, e diligente me protege das minhas tantas maleabilidades.
Segue assim até ofuscar o objeto, encobrir de cinza e rocha o que um dia teve algo de bonito. Até que reine a paz desconfiada, o silêncio e o descaso de uma qualquer indiferença.
E a única indiferença possível, essa que eu espero sem perceber que não virá enquanto não me esquecer de esperar, é na verdade o embate fatal entre o meu amor e o meu desprezo, esses titãs implacáveis de mim. E, no instante em que ela chegar, o objeto do duelo – objeto que é – já será gigante e infinito.
A única indiferença possível virá quando você estiver tão imenso que encobrirá no seu negrume tudo o que possa haver em mim, num eclipse maldito.