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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nós que já enterramos nossos mortos

Nós que já enterramos nossos mortos, nossas caudalosas torrentes de mortos. Que já enterramos artistas, feiticeiras, marginais, e enterramos livros, músicas, vozes, até que fomos perdendo sob os nossos pés também a noção, o apego, o susto, o choque, a crença e também a incredulidade. Nós que já pisamos sobre os corpos das melhores e das piores coisas que foi preciso enterrar, pisamos em cima dos séculos. Nós que estamos no topo disforme de uma montanha insondável de milênios, guerras, conceitos, línguas, tribos, nós que enterramos o passado e sapateamos nos escombros, na ossada de tantas tragédias com nossas manias, gilletes danones modess e band-aids, nossos fossos fundos, nossos dutos, óleos, nossos pingentes de ouro, nossas minas. Nós que já não tínhamos mais o que enterrar, enterramos nossas vidas, ainda vivas, ao vivo, em rede internacional.