quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Nós que já enterramos nossos mortos

Nós que já enterramos nossos mortos, nossas caudalosas torrentes de mortos. Que já enterramos artistas, feiticeiras, marginais, e enterramos livros, músicas, vozes, até que fomos perdendo sob os nossos pés também a noção, o apego, o susto, o choque, a crença e também a incredulidade. Nós que já pisamos sobre os corpos das melhores e das piores coisas que foi preciso enterrar, pisamos em cima dos séculos. Nós que estamos no topo disforme de uma montanha insondável de milênios, guerras, conceitos, línguas, tribos, nós que enterramos o passado e sapateamos nos escombros, na ossada de tantas tragédias com nossas manias, gilletes danones modess e band-aids, nossos fossos fundos, nossos dutos, óleos, nossos pingentes de ouro, nossas minas. Nós que já não tínhamos mais o que enterrar, enterramos nossas vidas, ainda vivas, ao vivo, em rede internacional.

4 comentários:

lucas fábio disse...

brilhante, amor!

Gabriel disse...

Incrível !!
Eu quero não ter TV !!

Anônimo disse...

Sucinto o texto é, e certamente triste. Mas expressa o que só as pessoas mais geniais escrevem sobre tristeza; mas que, em geral, se resumem em tragédias ou fatos condenáveis. Ou ainda, tentam buscar a mesmice através de "coisas lindas", mas etéreas, que se tornam trágicas (a "leveza da trágica beleza"). Você NÃO! Nunca apreciou estes motes, aliás. Mari, quem dera você um dia (gênia e humana que é) complete sua obra: através de textos compendiar um dicionário definitivo (até que o mundo separe) de todos os humanos sentimentos. Esse texto, como vários teus, preencheu mais do que esperava: floreou o o que considero ser parte intrínseca da minha vida, qual seja, a Tua Literatura. Lendo mais esse, só posso te dizer: "OBRIGADO por escrever..." (`BABY, NEVER STOP`, diria Jagger e os Stones). Parab`s, Mari!!

Anônimo disse...

Apesar da virtude do texto, acho que já estou identificado e preciso dizer: que burocracia para postar nesse site!!!! Cogitou já um próprio?? Beijo!