domingo, 12 de abril de 2009

Mago


Quando eu tinha 13 anos arranjei um namorado que tinha quase 17, espinhas, boné e walk man. Eu decidi que a gente se apaixonaria um pelo outro, porque era assim que as coisas tinham de ser. Eu infernizava a vida dele com perguntas constantes e labirintos adolescentes dos quais ele nunca escapava sem me machucar: se um mago surgisse e revelasse que eu seria muito mais feliz com uma outra pessoa, você me levaria à festa e me deixaria do lado do homem e sumiria pra minha vida dar certo? Então ele pensava uns instantes -- ou fingia que pensava -- e depois respondia que sim, que me levaria, e eu chorava o resto do dia em discussões inférteis porque na verdade ele tinha desapego, não lutaria por mim, abriria mão de um grande amor sem qualquer sofrimento. Ou então ele dizia que não, que não me deixaria, e eu chorava porque ele tinha um amor egoísta, estava me usando e não se importava que eu não fosse feliz com ele.
Amando ou não esse menino cresceu do meu lado, quase cinco anos reprovado em testes de amor e devoção, mas não largava porque precisava de alguma coisa em mim. Talvez dos meus anseios pueris por um amor arrebatador, ou da minha própria devoção. Precisava de mim pra desligar a televisão e censurar as refeições gordurosas de moleque teimoso, precisava de alguém que não soubesse absolutamente nada da vida material, do funcionamento dos objetos, dos países, dos animais, do mundo. Alguém a quem ele pudesse inventar as respostas, ensinar jogos de baralho que ele aprendia na vida, na noite, nas viagens, e vinha mostrar à sua Penélope encantada. Precisava de alguém que risse de tudo que ele dizia, precisava de um retrato na carteira, cartas apaixonadas. Cinco anos porque precisava de alguém para os jogos mais femininos no videogame, alguém pra comprar cuecas, alguém pra dividir um cachorro, alguém pra lembrar o tempo todo, o dia inteiro, que era preciso amar.
Hoje eu encontro o moleque já sem espinhas e já com a televisão desligada, bebemos duas cervejas e eu dou risada de absolutamente tudo que ele diz e continuo não sabendo nada da vida material, que ele me explica com meias-verdades que eu absorvo sorrindo e depois reproduzo aos trancos preenchendo os vazios da memória e dizendo aos amigos que foi ele que disse. Hoje eu encontro o moleque e entramos nas mesmas discussões inférteis, qualquer coisa no sangue que ferve no borbulhar da argumentação. Mas já sabemos que, quando um mago explicou, pela última vez, que seríamos mais felizes assim, cada um foi pra sua festa encontrar os seus. Ele me levou pela mão e olhou fundo nos meus olhos quase adultos desejando boa sorte, e depois de umas cabeçadas e de um medo quase virginal, a gente caminhou muito bem.
Hoje encontro o moleque e durante a cerveja ou vinho ele me explica alguma coisa que eu não sei e eu dou risada de algo que mais ninguém riu, entendo errado qualquer frase óbvia, pergunto da frieza dos homens, e ele estuda a fragilidade das mulheres, seus pequenos bibelôs de ferro. E às vezes eu penso que era isso que o mago queria, era exatamente isso que o mago sabia que a gente precisava encontrar.

Um comentário:

Anônimo disse...

Hahaha, lindo texto, cota! Eu adoro contar meias-verdades parecendo verdades inteiras. E eu nunca vou entender como voce entende tudo errado, e acha graça. Beijao, linda.
Gabi