terça-feira, 1 de julho de 2008

Noite de Quinta

Noite de Quinta

Uma quase noite de quinta – o livro da Vila Sésamo da minha avó diria lusco-fusco – e o rodízio municipal de veículos me lembra de que eu deveria sair sempre sem carro. Pego o ônibus no começo da linha e vou sentada num semi-sono que me dá o direito de pensar em como gostaria de um vestido com a estampa e as cores amarela e cinza do estofado do acento. Se eu estivesse guiando pensaria se vale a pena mover o carro a cada dois metros de movimentação no trânsito; numa curva talvez xingasse um pedestre.
Há vinte anos vivendo em razão de uma decisão tomada aos 17, uma escolha revestida da magia e ingenuidade adolescente. Decisão de que, aos 21 anos, eu era velha demais para voltar atrás. Um x num quadradinho inocente e desde então o mundo jurídico me deu um marido depressivo e um emprego público com a estabilidade que parece se estender a todos os setores da minha vida, tudo completamente estável e imutável. O mundo jurídico também me deu dois filhos ingratos que podem estudar tranqüilamente numa escola particular, e ainda sobra para a natação e o inglês. Talvez os planos que eu tinha aos 17 anos se concretizem quando eu economizar o suficiente para mandar os meninos ao exterior, quem sabe um curso intensivo de férias. Talvez possam trazer um perfume do free-shop e a certeza amarga de que tudo lá fora é melhor. E aí talvez eles adultos sumindo pelo mundo atrás de qualquer coisa que eu não procurei, tudo pela escola particular, a natação e o intercâmbio de dois pirralhos que eu nem conhecia. Tem também o plano de saúde...
O ônibus vai me deixar a umas quatro quadras de casa e eu vou parar no meio do caminho para fazer um carinho na bolha do calcanhar, como fosse um cachorro que late e um pouco de afeto fizesse parar. Vou entrar em casa e antes de conseguir tirar o sapato o mais novo vai dizer que não gosta de frango com quiabos, e o mais velho vai responder o meu olá sem tirar os olhos de um vídeo-game barulhento. O marido vai chegar talvez antes da meia-noite, sem tirar os olhos de um ponto fixo no nada, contando uma causa que perdeu e não me interessa. Vai contar devagar, mastigando o frango. Vai tomar um banho quente demais e deitar exausto, sem lembrar que tem sangue, sem lembrar que é gente. E um pouco antes de pegar no sono vai sussurrar, confuso, que esqueceu de pagar a natação dos meninos.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Cinéfilos

ahahaha Mila, aqui vai sua encomenda. Pena que sou tão hábil em poesia quanto em pintura! beijos

CINÉFILOS

Um homem enorme sentado no chão
chorando os amores que não voltarão
E lá atrás está Jurema
unhas fundas no estofado
e o olhinho mareado
no silêncio do cinema
Vai voltar pra Diadema
e contar pro namorado.
Mas sábado a bilheteria
tem o filme que ela queria
Só que ele muito ansioso
quer ver o tal do homem choroso
unhas fundas no estofado
e o olhinho mareado
no silêncio do cinema
e na sala ao lado Jurema
em gargalhadas convulsivas
porque um anão de camisola
tomou pílulas laxativas
No busão pra Diadema
conta tudo ao namorado
e ele então se descontrola
quer ver logo o anão cagado
E sábado a bilheteria
tem o filme que ela queria
mas ele diz que nem rola
quer ver o anão de camisola!
E na sala ao lado Jurema
unhas fundas no estofado
vê um filme fabuloso!
mas lembra então com saudade
o abraço do namorado
mão com mão no estofado
no silêncio do Cinema
e não diz mais a verdade:
Meu bem, que infelicidade!
que filme mais odioso!
E sábado a bilheteria
Tem o filme que ela queria
mãos coladas no estofado
quatro olhinhos mareados
no silêncio do cinema.

terça-feira, 6 de maio de 2008

A mureta



No chão uma toalha branca gigante com queimaduras de ferro e cigarro, as bordas com estampas de patos e flores num pedacico de lagoa. Em cima da toalha o colorido das mercadorias que ele anuncia numa rima insistente, o preço em giz de cera num papelão.
−Olha só, Clarinha, esse daqui é fantástico.
Clarinha sentada à princesa na ponta da toalha, as mãos no colo tapando o buraco da saia. Ele desfila um cortador de unhas que pode virar também um canivete ou um chaveiro. Depois é um cinto de tranças de couro sintético roxo que ele tenta lhe vestir na cintura e ela repele numa risada tímida.
−Olha esse aqui, esse não é do Paraguai, esse eu mesmo faço. Se quiser, eu faço um pra você, Clarinha.
A praça com suas poças espirrando barrentas e a menina num auto-abraço e baforadas de frio, um cachecol marrom que ele lhe enrosca lentamente no pescoço gelado, um beijo estalado no rosto que ela desvia enquanto um gorro da mesma cor
−Pra esquentar essas orelhinhas
e também para abaixar a cabeleira esvoaçando obscena no meio da praça. O vento mais forte e ele segura os cartões de Dia das Mães com seus impulsos de vôo, as asinhas de cartolina num abrir sutil que de repente uma fuga de poça em poça vento afora.
−Também um frio desses e você com essa saiazinha.
Um homem abaixa a gravata até o isqueiro chinês e compra às pressas quase sem parar o passo, some na escada do metrô sem esperar as moedas do troco.
−Esse daqui, olha, é uma beleza de ouvir música no banheiro. Você entra no seu banhozinho e deixa ali na pia, olha só, sintoniza rapidinho. Dá pra ouvir até as letras!
Ela mexendo no rádio calada e depois o rádio encostado no ouvido porque a gritaria da praça, os vendedores com as suas rimas, mendigos, sirenes, barulho demais e o radiozito no ouvido cantando alguma paixão de dar água na boca.
−É tudo isso meu, você pode pegar o que quiser, Clarinha. Tudo tudo tudo.
De repente a correria dos ambulantes com suas tábuas e chocolates e despertadores, a fuga para dentro da Catedral, atrás das árvores, embaixo dos caixotes do moço da reciclagem. A toalha se dobrando em trouxa num puxão, Clara que não percebe a pressa e se demora a levantar e ele a puxar na outra ponta, os alicates pelo chão, calculadoras.
−Vem menina, o rapa! Olha os guarda tudo vindo ali!
Ela guardando o rádio na bolsa antes que
−É tudo isso meu, seu guarda, não estou vendendo nada, não, senhor.
e agora a toalha em trouxa sacolejando e molhando no espirrar das poças e os dois de cócoras atrás da mureta num abraço mais apertado de modo a não escapar às vistas um tico de sapato ou quem sabe uma ponta de toalha com um urso de pelúcia e uma capa de celular.
−Aperta mais, Clarinha, tudo tudo tudo meu, você vai ficar com o que você quiser.
Ela cansada cedendo ao colo, ao lábio dele respirando quente e rápido entre o gorro e o cachecol dela.
−Não liga, não, Clarinha, eles fazem isso é pra gente ter um instantinho de intimidade mesmo.