quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Vamos falar de coisa boa, vamos falar de Cássia Eller


[pausa para o Dia das Crianças]

Eu morava num condomínio e tinha 12 pra 13 anos, mas como eu tinha mais de 1,70m e muito peito, fiquei parcial e perversamente inserida no grupo dos moleques nos seus 18 anos.
E um dia apareceu na televisão da casa de um deles a Cássia Eller cantando. Era uma mulher, espetacular, e eu fiquei olhando intrigada para a tela. Um deles gritou lá de trás:
-- ESSA MULHER É NOJENTA.
Os outros riram.
-- Gostou dela, Mongol? – Mongol era como ele me chamava.
Fiquei ali assustada tentando entender o que fazia dela uma mulher-nojenta e o que eu teria de fazer pra que nunca um homem gritasse isso sobre mim.
O recado não é e jamais será pra ele, que em tantos anos deve ter tido seus aprendizados. É para as meninas, que a essa altura não são tolas como eu era aos 12 anos, mas não custa deixar o apoio:
D E S C O N F I E M de qualquer coisa que um menino disser sobre qualquer mulher. Desconfiem até do que uma menina disser se for negativo, perguntem para outra menina, talvez mais velha, em quem confiem.
Hoje eu me culpo muito por ter, ainda que por meio ano, acreditado que uma mulher tão incrível era nojenta, e que era preciso não ser como nenhuma dessas mulheres incríveis nojentas. E essa é uma culpa que a gente não merece.

O que eu queria mesmo ser é a Cássia Eller.

sábado, 14 de março de 2015

Segredos Coletivos

Você prosaicamente procura o outro pé do sapato na pressa do elevador que você já deve ter chamado, termina o copo de leite, enxuga a mão na roupa, e é provável que não pense em nada, só em correr, e chegar singelamente ao trabalho, e eu fico pensando que nunca houve sintonia, que a gente começou a ouvir uma música juntos, mas nunca encontrou propriamente a estação, e a música ficou lá, num discreto chiado, sem que a gente movesse o botão desse rádio nem pra frente nem pra trás, ficamos assim em desajuste na ilusão de que o importante é estar ouvindo de alguma forma esse som que a gente não consegue saber de onde vem, nem desligar, nem aumentar, nem arrumar.
A vertigem que ataca o início de um sono vespertino. Quase dormir mas despertar a tempo de concluir que se vai de fato dormir e que a sensação é de queda, como se o sono da tarde fosse um buraco, um salto do colchão para dentro da cama, uma escorregada na espiral infinita do universo das molas, é essa a cumplicidade que eu preciso ter com as pessoas, é preciso que elas também reconheçam nelas essa vertigem logo antes de pular para o sono, a cumplicidade nesses pequenos fenômenos íntimos, e você parece que escapa de todos, nós numa total dissintonia.
Cumplicidade também nos fenômenos de infância, esses que vão nos compondo aos poucos, você contornou todos eles, você parece que não tem os seus segredos coletivos. Esses segredos que eu chamo de segredos porque ninguém fica falando deles, e de coletivos porque muita gente sabe, todos sentem, a vertigem antes do sono da tarde, o perigo de uma mão surgir do fosso do elevador tateando o buraco da ventilação, ou de aparecer mais uma pessoa na imagem do espelho, ou de um semiconhecido sentar do seu lado no ônibus sem quase nenhum assunto, de morrer de repente com a roupa íntima não muito limpa a ponto de as pessoas da autopsia, do hospital, ou seus parentes concluírem que uma pessoa com esse cheiro nem merecia de fato viver.
Talvez este da morte sem banho não seja tão coletivo assim, mas de toda forma você não tem, nem esse, nem qualquer outro segredo fenomenológico que nos coloque em sintonia ou cumplicidade, você sai e volta sem que nenhum detalhe da existência tenha trazido você pra mim durante o dia.
No banho o condicionador escapa em excesso na minha mão. Aperto o tubo instintivamente criando um prenúncio de vácuo e encosto a boca do frasco na minha mão recolhendo de volta o que não vou usar. O frasco suga o condicionador da minha mão feito um animal aos soluços, espasmos de afogamento, e fico pensando se você possui esse segredo coletivo, se você sabe recolher de volta o condicionador que saiu a mais, essa sabedoria que ninguém transmite, que vem da física simples que foi se construindo em nós conforme apertamos frascos, experimentamos diferenças de pressão, e concluo que não, você vive assim livre de empirismos, foge às sabedorias íntimas que não vêm nas notícias nem nos livros, e fico pensando se o mundo não se divide justamente entre pessoas que sabem colocar o condicionador de volta, assim nessa violência sofrida do frasco sufocando na palma da mão, a tomar fôlego com a boca emborcada no que ele próprio cuspiu, e pessoas que simplesmente jogam o excesso no chão por não visualizar qualquer outra possibilidade. E nem sequer pensam que há pessoas que pensam nisso.
E então você provavelmente está desse outro lado do mundo, o mundo das pessoas que não têm segredos coletivos, e que jogam o excesso do condicionador no chão ou mesmo ensebam os cabelos, e que não pensam que há pessoas que pensam nisso, não pensam que há pessoas que pensam na vertigem do sono da tarde, e na aflição de olhar muito tempo um quadro de Jesus temendo que ele possa piscar, e na angústia de não saber se aquela senhora que entrou no metrô já percebeu que é idosa há tempo suficiente pra não se ofender se você ceder o assento, e depois na angústia de imaginar o dia em que alguém lhe ceder o assento pela primeira vez, e ficar pensando se você já terá se acostumado com sua própria idade antes que alguém lhe surpreenda com isso, e no meio desse pensamento não ceder o assento, apenas levantar e sair, na esperança de que ninguém o ocupe, apenas aquela senhora que talvez ainda não seja tão senhora assim.
Você está aí, desse outro lado, no mundo das pessoas sem segredos coletivos e talvez esteja aí nossa dissintonia, esteja aí a razão de eu sentir tanta cumplicidade em todo o resto do mundo que não é você. Daí eu chego do trabalho e você já está aí sorrindo com toda a sua leveza, e pelo menos eu posso imaginar que quando você fica aí olhando a janela não está pensando em todas as pessoas que vivem nesses tantos apartamentos e se perguntando se alguma delas não poderia te fazer mais feliz, você não deve estar fazendo isso porque é isso que muitas pessoas fazem, em segredo coletivo, procuram outras janelas onde mora uma felicidade ideal, e daí você vem na minha direção com um copo de alguma bebida e eu fico ouvindo esse zumbido que é a nossa musiquinha fora de sintonia, a música que a gente acaba gostando tanto de ouvir, e que se um dia desaparecer vai ficar um silêncio muito doído, mas que eu também vou me acostumar, porque a gente vai se acostumando com os silêncios que as pessoas deixam quando vão embora, difícil é se acostumar com a música fora de sintonia que na verdade talvez sejam nossas duas músicas tocando ao mesmo tempo e a gente nunca tenha reparado nisso, que estamos ouvindo coisas diferentes, juntos, e você me dá um gole do que está bebendo, e tudo pra você parece estar perfeitamente bem.
E você entra no banho, e eu passo o tempo do seu banho pensando em perguntar o que você faz quando o condicionador sai em excesso, e fico pensando que você pode responder que isso nunca aconteceu, o que seria um completo absurdo, um sinal chocante de que você se adapta imediatamente às novas situações da sua vida, em qualquer quantidade, ou mesmo você pode me responder que não faz nada, que só lamenta, e quando você sai do banho eu concluo que não é seguro fazer essa pergunta, porque talvez eu queira continuar ouvindo nossa música sem sintonia, e que talvez você depois do banho dê alguma risada silenciosa olhando a tela do seu celular e isso seja algum segredo coletivo só seu, dessa sua parte do mundo em que eu não vivo, e quem sabe a gente possa viver assim, sempre assim, pra sempre.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nesta semana houve o lançamento do livro Delicada uma de nós, com grande parte dos meus textos, que estiveram e não estiveram neste blog. Dentre eles, 4 contos premiados (Off Flip 2012, e Josué Guimarães 2013).
Para aquisição, enviar email para delicadaumadenos@gmail.com

Muito obrigada pelo apoio!
:-)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Catálise


É de noite e por isso o vidro que dá pra rua vira quase um espelho, menos quando passa o farol de um carro lá fora. Um carro que está provavelmente indo fazer alguma coisa mais interessante que ficar caminhando numa esteira.
Meus dentes batendo, a barriga molhando indigna por trás do elástico da bermuda, não consigo parar de pensar na ideia odiosa de estar tantas noites numa academia, mais uma hora que eu perco fazendo mais uma coisa que não significa nada, uma hora gastando a mim mesmo. Dissipando o que meu dia indevidamente economiza – nas tantas horas que também não me dizem nada.
Como se ao longo do dia eu existisse menos do que fui feito pra existir, e então engordo. Possivelmente na esperança fisiológica de existir mais tarde, um dia, tudo o que fui sobrando.
Perder minhas noites aqui porque me falta em juventude o que me vem em ganas de engolir, beber, toda aquela fartura das bandejas por quilo, latas, garrafas, esses tantos consolos, e é preciso vir aqui me gastar para poder me economizar, durar mais anos com muitas horas e poder passar mais tempo fazendo essas coisas que não me dizem nada.
 As pessoas se cruzam no caminho dos seus exercícios e sorriem, e se falam. Quem há de compreender por que se falam. Feias, suadas, não se conhecem, não têm nada em comum a não ser o fato de estarem se gastando no mesmo lugar na mesma porcaria de hora nobre, com a novela muda e legendada em metade dos televisores.
Hoje a música está excelente, quero elogiar o professor que escolhe os CDs, mas nem para isso quero falar, essa é a hora em que estou completamente ausente de mim, não há absolutamente nada nos meus movimentos que diga quem eu sou, autômato, passos mecânicos tentando vencer a hora mais lenta do dia.
Não, é inacreditável que alguém nessa situação se sinta com identidade suficiente para interagir.
Minha não-pessoa lamentando a incapacidade de elogiar a trilha sonora e uma outra não-pessoa comentando com outra que hoje a música está de-cortar-os-pulsos. O mundo se divide em gente que.
Parar com a mania de dividir o mundo. Mas realmente o mundo se divide, não adianta, o mundo terminantemente se divide toda hora, e se divide agora em pessoas que veem a beleza das coisas soturnas e aquelas que querem enfiar alegria no ouvido da gente o tempo todo, uma alegria nervosa, histriônica, até mesmo na camiseta amarelo neon subindo e descendo na barra de alongamento.
Justo o alongamento que é uma coisa lenta, fibrosa e profunda, a única profundidade nessa caixa espelhada quente de glicogênios e catálises.
Ainda falta meia hora. O vidro da rua me reflete porque já é bem noite e já quase não passa farol de carro porque quase todos já chegaram em casa. Pior, todos chegaram nas suas academias. Todos os humanos urbanos diante dos seus espelhos gastando a si mesmos, porque éramos pra ser muito mais do que somos durante o dia e então vamos sobrando, e quando chega a noite é preciso se gastar muito, pra não sobrar, e vai-se gastando o tempo, tanto tempo, que quando eu me der conta nem sobrei nem faltei, só quase não existi.


terça-feira, 29 de julho de 2014

Sobre as nossas delicadezas II


Existe um telefone celular e ele é doentiamente um companheiro, na mão, no bolso, bolsa, roupa, metrô, ele é um companheiro quase maníaco guardando suas fotos, músicas, confissões, estabelecendo os mais ansiosos e desesperados contatos, e esse aparelho de tempos em tempos, de tão solicitado, cai desastradamente no chão, mas sempre fica tudo bem.
Ele cai, às vezes solta a tampa de trás, a bateria escapa para lugares insondáveis e você fica tateando o asfalto como quem procura a vida de um grande amigo temporariamente inconsciente depois de uma queda. Você encontra, e então ele está de volta, pronto para a próxima queda, já ativo no desespero da próxima comunicação – atrasos, saudades, trânsito, dúvidas, súbitas incompatibilidades de gênios.
Só que daí um dia, na centésima queda da altura da sua mão – nem é a pior das quedas, é na verdade uma quedinha de nada, perto das tantas outras, um esbarrão à toa, um deslize, nem mesmo cuspiu a bateria --, e quando ele se ergue do chão vem o espanto diante de uma tela multifragmentada e áspera que enfim não deve mais responder aos seus insistentes toques. E você olha a tela desproporcionalmente estraçalhada e pensa que ela foi ingrata, mimada, porque isso não precisava ocorrer justo hoje, com essa queda, se ela resistiu a coisas tão piores, e de repente a ruptura parece um capricho, uma vaidade, justo num dia como esse.
Mas daí olhando pro seu telefone bem no fundo dos mil vidrinhos doloridos, você percebe que na verdade ele resistiu mais do que devia. E que muita coisa e muita gente resiste mais do que devia, tanta queda, chute, golpe, atropelo, e a tela intacta e leal mantendo os anseios das suas comunicações, até que um dia não tinha mais forças, e era bom que esse dia chegasse, porque não está certo ser derrubado displicentemente assim tantas vezes, e chega uma hora que se não quebra fica a dúvida de como serão as próximas quedas, o que é um jeito terrível de se viver.
E você fica aí parado, no meio da calçada, olhando para o telefone celular com a tela gratuitamente espatifada esperando que com isso ele te ensine alguma coisa, nem que seja a quebrar de vez em quando, e bem antes da centésima queda, pra que alguém fique te olhando assim do jeitinho que você está fazendo, quase se arrependendo e já louco de saudade, porque não é saudável ficar durando assim quando te jogam tanto, chega a parecer que você pode cair, e cuspir a vida na sarjeta, ou embaixo das mesas, que depois fica tudo bem, e você volta, servil e diligente, e não, não é saudável que se disfarcem tanto as nossas delicadezas – senão é até capaz que, na queda fatal, você ainda seja culpado pela desproporção. 
Mas daí você está lá parado pensando tudo isso e fazendo planos sobre como tratar bem o seu futuro telefone, e passa a mão na tela, e assim, mesmo inacreditavelmente em pedaços, ela funciona, ela sorri. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A Guerra
Eu nunca mais voltei naquele lugar e por isso a minha lembrança é de que era o maior lugar do mundo. Minha mãe me puxava por uma ladeira enorme, fazia muito sol e as pessoas na fila tinham todas muita pressa ou muito desânimo. As que tinham desânimo parece que iam ali sempre, como que todo dia.
Já fazia muito tempo que em casa ninguém me dizia nada, deixavam a televisão ligada e se calavam, e eu já não perguntava dele e já eu mesma quase não falava, e nem olhava mais a porta no horário da novela porque eu já tinha entendido que ele não ia aparecer de repente. E nesse dia eu ainda não sabia se queria ou não queria ir, mas não tinha ninguém pra ficar comigo tantas horas e – Pega um brinquedo e vem, menina – eu puxei da cama um boneco qualquer que tinha sido dele, e corri pro trem.
A mãe continuava não dizendo nada e eu não perguntava porque pra todo o mundo parecia mais fácil se eu simplesmente não estivesse percebendo. Como se eu não tivesse reparado que meu irmão nunca mais voltou pra casa, nunca mais me trouxe nada, nem me jogou pedaços de tomate durante o jantar, nem me escondeu no armário na hora do banho, nem fez promessas, projetos grandiosos que ele me contava depois de me sentar em cima da mesa da cozinha onde ele dizia que as coisas eram levadas a sério. E naquele dia no lugar imenso minha mãe não tinha nenhum alívio no rosto, mas por alguma razão eu tinha passado a noite conversando com a lua e me dei toda a certeza de que ele ia voltar pra casa.
Eu já sabia que ele tinha começado a vender droga, e que tudo tinha dado errado. Mas eu sabia também que isso um monte de moleque fazia ali no bairro e eu sentia que naquela tarde ele ia pedir desculpas a quem quer que fosse que ele tinha desobedecido, e ia ficar tudo bem. 
Quando a gente entrou, eu me lembro do frio, um frio sem sentido que era como se o sol nunca chegasse ali. Fiz que o boneco voava pelos corredores, mas fiz só pra minha mãe achar que eu estava feliz com o passeio, mas era difícil fingir porque minha cabeça ficava bem na altura das algemas dos homens que toda hora passavam puxados por guardas gigantes, os rostos baixos, a roupa igual, e eu a todo tempo num susto achando que qualquer deles podia ser o meu irmão – e era; qualquer um.
E os homens nas algemas estavam todos de chinelo e eu lembro que achei aquilo muito estranho porque chinelo é uma coisa tão livre. Ficava olhando passarem tantos pés soltos em havaianas puídas e aqueles pés me lembravam de praça, churrasco, pipa, rua, demarcação de gol de futebol. Depois pensei que a gente usava tanto chinelo porque sapato é muito mais caro, mas aí logo em seguida pensei que ainda assim – e talvez por isso mesmo – chinelo fosse uma coisa tão livre.
A gente sentou finalmente e esperou por um tempo que me pareceu muitos dias. Minha mãe não falava comigo a não ser pra me dar um suco ou uma bolacha seca, mas de vez em quando falava com outra mãe, qualquer coisa sobre Deus, ou sobre injustiça – só que por alguma razão minha mãe não parecia achar nada daquilo injusto, e acho que isso é o que mais doía nela. E de repente ouvi uma senhora comentar algo que jamais tinha passado pela minha cabeça – O meu filho já é a terceira vez! – e nessa hora eu pensei que então dali pra frente seria sempre assim. Eu percebi que os rapazes uma hora crescem, e vão presos, e depois vão presos de novo, e pela terceira vez, e que era essa a sina dos nossos homens, como num país que entrega todos os seus meninos à guerra.
Durante toda a tarde minha mãe seguia com os olhos uma mulher apressada, de salto alto, que quase nunca parava em nós, e não olhava pra minha mãe porque sabia que ela estava esperando alguma notícia, e aí eu fui percebendo que de fato era sempre assim pra todo o mundo, tanto que a mulher vinha e dava a notícia para as outras mães, que já sabiam como as coisas eram, e saíam, como quem recebe uma hóstia e volta pra casa pra lavar roupa. E depois da notícia a mulher entrava numa sala em que as pessoas corriam, ou às vezes riam de quaisquer coisas, e quanto mais elas riam mais eu me convencia de que aquela era a ordem natural, de que os irmãos crescem pra serem presos uma, duas, três, intermináveis vezes.
Eu girava o boneco como se ele fosse um trapezista porque eu sabia que estava chegando a hora e era cada vez mais importante que eu não estivesse entendendo nada, e eu pensei bem forte que se eu rodasse o boneco exatamente 18 vezes – a idade do meu irmão – antes de a mulher começar a falar com a minha mãe, a notícia seria boa.
E eu comecei a rodar primeiro devagar porque pensei que ela ia demorar, mas ela foi chegando com a mesma cara que ela fez toda vez que tinha uma notícia, e eu rodei o boneco mais rápido, e mais rápido, mas ela já começou a falar com a minha mãe sem nem olhar pra mim e não deu tempo de eu rodar o boneco 18 vezes – e é capaz que até hoje eu me culpe por isso –, mas eu continuei rodando o boneco porque era importante que eu não estivesse entendendo nada – Nós fizemos tudo o que foi possível --, era fundamental pra minha mãe que eu não entendesse – Mas não significa que ele vai ficar preso os próximos cinco anos inteiros  –, na verdade era absolutamente necessário pra mim que eu não estivesse entendendo nada e como eu rodava o boneco como se não estivesse prestando a menor atenção de vez em quando a mulher de salto olhava pra mim e eu sei que eu tentei segurar o choro mas ele veio assim, silencioso, implacável --A senhora precisa voltar daqui a dois anos pra pedir... – e então ela me olhou de novo e acho que parou um pouco de falar, e eu percebi que até mesmo pra ela era preciso que eu não estivesse entendendo nada.
Minha mãe, que até aquele momento apenas assentia com a cabeça, também olhou pra mim, e eu senti que ela e a mulher de salto olhavam meu choro, e eu rodei mais rápido o boneco só que agora não adiantava mais rodar boneco nenhum.
Eu cresci uns vinte anos naquela tarde, e cresci sem meu irmão, que morreu nove anos depois, recém-saído da terceira cadeia. Eu disse que nunca mais voltei naquele lugar, mas na verdade eu nunca mais saí de lá. Ficamos pra sempre presos – eu, e também minha mãe, e a mulher de salto, que não deveriam nunca ter me visto chorar.