sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Tonelada


Recolher um a um todos os meus brincos, cadernos, livros,
encaixotar minhas pulseiras, pingentes,
meus barulhos.
Dobrar meus vestidos, meus lençóis
-- Meus lençóis que pesam uma tonelada –
Recolher minhas fotos, minhas horas,
Minhas calcinhas, camisolas,
Meus amigos tão antigos, meus elogios
-- meus elogios que pesam uma tonelada –
Guardar tudo numa grande caixa roxa,
Uma caixa velha
Uma caixa à toa
Um restolho de um Natal qualquer
E deixar na sua cama
Na poeira leve do seu descaso
Acumulando ao acaso os meus anseios
-- meus anseios que pesam uma tonelada –
E descansar de mim
Nua
Vazia
Invisível
Até que quem sabe eu possa,
Pandora repentina de mim,
Desemaranhar de volta os lençóis
minhas fotos amigos anseios calcinhas planos pulseiras cadernos
meus barulhos
tudo de volta às minhas prateleiras,
aos meus braços,
cabelos,
sonhos!

Mas agora não dá.
Agora não posso.
Agora leve a caixa num braço só
-- feito a xepa da feira.
Meus lençóis pesam uma tonelada
E são eles que dormem por cima de mim.

4 comentários:

Márcia disse...

Minha Alice desconcertada, às vezes tão pequenina e dolorida, às vezes gigante ...

São sempre lindos e tristes os desabafos dos contos de fadas...mas tem final feliz...

Gabriel disse...

Escreva mais, cota...
Um beijo

lucas fábio disse...

saudades desse lugar aqui...

julia baranski disse...

E como pesam. As vezes mais do que toneladas. Incomensuravelmente. Os elogios. Os anseios. As frustrações. E mesmo as alegrias. É preciso despir-se. Ser-se nua. Livre e pesadamente nua. Amei. Lindo.