quarta-feira, 6 de abril de 2011

Criança que fica


Uma menina, uma criança, com um pouco de pasta de dente seca na bochecha, a boca aberta e três cachos suados grudados na testa. Essa menina, essa criança, sentada no chão de terra com a saia arreada, esfregando os pés nos gravetos, fica ali como se ali fosse o único lugar do mundo.
Apesar da pasta de dente na bochecha a menina também tem migalhas de bolacha de chocolate no queixo, no lábio pequeno rachado de sol. Franze os olhos no mormaço e lança um punhado de terra sobre os próprios cabelos.
Pode ser que ninguém esteja olhando pra ela, pode ser que ninguém nem saiba onde ela está – vira-latas, que uma hora descobrem o caminho de casa. Um riachozinho marrom corre lento muito perto dela, vai molhando a terra de esgoto, duas latinhas de refrigerante encalham entre os tijolos quebrados.
Logo diante da menina passa a estrada, uns caminhões barulhentos, ela olha as rodas e franze de novo os olhos querendo na verdade proteger os ouvidos. Um pouco da água da estrada respinga nela, e ela ri. Fica ali rindo um riso à toa, essa criança que talvez nem saiba falar, e que ainda assim tem pasta de dente na bochecha, porque alguém teve o cuidado de escovar-lhe os dentinhos, mesmo que fosse antes da bolacha, mas também já não se sabe onde está todo o mundo, a menina ali na beira da estrada matando formigas com o calcanhar.
Atrás dela os barracos já meio no chão, umas paredes solitárias, só a armação da janela anunciando que ali alguma vez alguém com os cotovelos tranquilos pode ter falado sobre a chuva que vinha vindo, ou quem sabe as mãos tensas no apoio para gritar o nome de alguém, da menina, da criança, sozinha na beira da estrada, gritar e chamar, entregar um biscoito pela janela, e agora essa coisa de nem ter mais casa e só ter a janela.
A menina sozinha cutucando a terra e diante dela os caminhões passando e atrás mais ninguém, as tábuas, tijolos, janelas, as lajes todas no chão. Uma nuvem de poeira que vai baixando lenta, e a menina franze os olhinhos de novo, doídos.
A criança que ninguém pode ter esquecido, ninguém esquece uma menina com a pasta de dente rachando na bochecha e as migalhas frescas de biscoito, não é a garota que no meio da bagunça, dos gritos, das malas, da polícia, dos puxões, do fogo, acabou ficando pra trás, não pode ser uma menina de quem ninguém vai se lembrar na hora de armar tudo de novo em outra estrada.

A criança ali na beira da estrada diante das barracas vazias, caídas, é a criança que fica quando tudo acaba, e vai crescer, sentada no mesmo lugar, e quem sabe um dia vai cobrar as cantorias das janelas que eram dela, todas as janelas dela. A menina sozinha com os pezinhos na terra e a saia arreada e os olhos franzidos e o sorriso confuso é a criança que fica, que sempre fica, insistente, em toda casa que derrubam, em toda vila que cai.

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