quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rede Social



Pedindo socorro, nossos amigos estão todos pedindo socorro. Bastaria olhar na cara deles, mas nem precisa olhar na cara deles, só uma piada de telefone, de internet. Nossos amigos expõem rezas pagãs em caracteres limitados, disfarçados de poesia, foto, Beatles. Nossos amigos estão todos desesperados.

E quanto mais morno o desespero mais se nota o rançozinho latente, os votos de esperança; eles ficaram todos de repente cheios de visualizações de réveillon. Mas agora essa melancolia das luzinhas douradas pela cidade molhada, luzinhas sobreviventes de um natal que já veio e já foi sem mudar nada, ou quem sabe o natal sempre mude alguma coisa mas nunca o suficiente. Nunca o suficiente.

 
Nossos amigos estão todos pedindo socorro em dez, quinze mensagens diárias, ou alguns na ausência completa de comunicação – os sumidos, a gente costuma dizer – e aí vem a ironia de num mundo desses ser possível ter amigos que somem. E o mais intrigante é que eles estão sempre ao nosso alcance, sempre estiveram. Nossos amigos estão por aí todos pedindo socorro, mas são tantos gritos juntos, e mais os nossos, e tantos disfarces, risos, danças, e o tempo alucinado correndo os dias feito um gorila absurdo brincando com a roleta de um joguinho de tabuleiro.

Por onde é que andam os nossos amigos por trás do cristal líquido, onde é que estão quando estamos juntos mas são tantos corpos, copos, fumaças, que gritos são esses tão calados, que são essas promessas de abraços, quais são as perguntas que queremos ansiosamente fazer, por que os teclados dos nossos computadores conseguem dificultar tanto a interrogação. Nossos amigos estão escancarando sua solidão dia após dia diante de nós. E nos pensamos tão próximos.

Estão compartilhando momentos, ideias, bytes, links, tédios, tudo nessas nossas redes que não amparam, não acalentam. Nós damos cliques com a pequena mão simbólica da aprovação mas na verdade precisamos de mãos enormes, braços longuíssimos e dedos firmes pra afagar essas cinturas urgentes, descolar essas máscaras, alcançar água, xícara de leite com Toddy – nossos amigos andam comendo muito mal –, acarinhar essas orelhas geladas, colocar em ordem os papéis, os discos, lavar a louça da semana passada que eles vão deixando ali, desfazer a mala da última praia – nossos amigos já estão definitivamente fora das praias –, precisamos de mãos fortes pra alcançar os colarinhos e sacudir, acordar, apertar, apontar, estalar, mãos para desligar o computador.
Nossos amigos estão todos pedindo socorro, e nós estamos curtindo isso. Nós estamos irremediavelmente curtindo isso.

2 comentários:

Marcon disse...

Nossa, adorei o texto. Lindo!

Em tempos de twitter, parece q a gente se realiza falando sozinho em frases curtas com a sensação de que todo mundo tá lendo.

A princípio eu justificava minha birra dizendo que esse apego à objetividade mascarava a falta do que falar. Depois passei a acreditar que a gente fala sozinho e pra todos porque não tem ninguem pra falar e uma necessidade absurda de extravazar algo que tá na gargante e a gente nem sabe o que é, então fica-se balbuciando ou vociferando qualquer merda em 140 caracteres; qualquer baboseira instantânea, efêmera, que logo se perde sob a barra de rolagem e passa uma falsa sensação de comunicação.

Mais recentemente, falando com uma amiga, discutíamos sobre não ser questão de twitter; q ele é só um sintoma, e que a nossa própria mania de manter um blog não deixa de ser uma masturbação intelectual da mesma natureza, pra alimentar a idéia de que estamos falando algo pra alguem, quando na verdade essa comunicação não deixa de ser uma fantasia e nossa poesia não é nada mais que um tweet caprichado, um murmúrio que a gente dá durante um sonho num quarto vazio, um pio de gente solitária que troca a pele por uma tela de LCD e com muito afinco passa a viver um simulacro lutando pra não se dar conta disso.

Acho que nós também somos os amigos de alguem, e da mesma forma, amigos a pedir socorro.

Karen De'la Rocha disse...

sabe aquelas palavras que te doem?
não são agressivas são íntimas...
parece que te abriram, leram seu diário ou te viu nua...
Palavras carregadas de verdade doem, porque se aproximam.
Muito bom, adorei.