sábado, 7 de março de 2015

Março


O problema não é que ela ficou esperando mais de cinco horas, o problema talvez tenha sido a espera de tantos anos, pelo menos é isso que os policiais dizem, eles demoraram pra vir buscá-la, mas ela demorou muitos anos pra levantar essa cabeça, esse olho que já nem é roxo, é de um azulado escuro da mistura dos roxos passados que já pretejaram, esse lábio que já nem é rachado, é um lábio rompido, um rombo coagulado e seco de gritos interrompidos, um lábio aberto. Ela demorou demais e agora que chegou aqui eles podem demorar o quanto quiserem porque não estão lá para muitos milagres, sabe-se lá se eles mesmos não andam rompendo os lábios a azulando as molduras dos olhos das mulheres que eles têm guardadas em casa.

As viaturas piscando silenciosas na noite, e ela ali envergonhada diante do portão da oitava repartição que procurou no último semestre, desfilando suas narrativas que de vez em quando ganham mais detalhes, mas outras vezes se tolhem doídas, a depender do olhar que lhe pousam, a depender das perguntas, a depender do que as crianças presenciaram, e de quem ficou a cuidar das crianças, e de quem arcará com as crianças, e de quem Jesus ama e quem Jesus talvez não ame, e a depender de quem as crianças serão um dia, e de quem ela pensa que é para ir de novo aborrecer o delegado, que insistência, ou de quem ela pensa que é para chegar em casa tarde, e a depender de quais vizinhos escutam o grito, e agora ela ali em pé sem querer discutir, já que as viaturas vieram em três ou quatro homens muito indispostos a levá-la sequer ao primeiro endereço informado cinco ou seis horas atrás por uma pessoa qualquer dessa repartição que os policiais nem bem aprenderam o nome, e que na cabeça deles é uma repartição que solta bandidos para depois pedir socorro quando eles agridem suas mulheres, e talvez seja mesmo, porque é uma repartição de liberdades, não de milagres, embora pareça uma Igreja, e talvez tente ou precise fazer muito mais do que Deus tem feito.

O segurança dessa repartição inominada tinha ouvido a história dela durante as últimas três horas, uma conversa assim informal, conversa de gente meio sentada meio de pé, porque ele tem uma banqueta dessas que deixam as pernas quase esticadas, para que se possa de pronto levantar e intervir numa grande emergência, ainda que não haja muito o que ele possa fazer numa grande emergência, fora estar simplesmente pronto pra ela, e ele assim metade sentado tinha ouvido tudo que ela tinha resolvido contar também pra ele, por tédio, confiança, ou necessidade de justificar o alvoroço, enquanto as luzes foram apagando, a cidade foi aquietando e ela foi ficando mais emocionada e mais sozinha. E a história no começo tinha parecido igual à de tantas mulheres que vão ali todo o dia, mas talvez porque tenha anoitecido, ou porque ela estivesse contando só pra ele, começou a lhe parecer que fosse uma história especial, ou que todas as histórias daquelas mulheres fossem especiais, e que pudessem todas morrer antes do próximo atendimento.

O segurança deve ter dito ao policial, quando ele finalmente chegou, que não custava nada levar a moça até a casa dela, pegar só uma ou outra coisinha, os documentos das crianças, ou mesmo as crianças, umas roupas, senão o homem queimava tudo, tudo mesmo, seria uma entrada rápida, sem cerimônia, não é questão de fazer mala, não é serviço de agência de viagem, imagine uma coisa dessas, como ela vai pra outro lugar assim sem nada. E eram três ou quatro homens indispostos a interferir num relacionamento que não era o seu, como se isso fosse assunto de relacionamento, indispostos a entrar assim na casa de outro homem escoltando sua mulher por entre os escombros da última briga, da última luta, para levá-la dali em suposta segurança, para algum lugar onde não haja isso que até hoje chamaram de amor, onde ela possa tentar refazer qualquer pedaço de si que ficou perdido dentro daquela casa, e eles disseram que não, talvez porque estava tarde, talvez porque agora aquele homem, aquele marido, talvez aquele mesmo que eles surram, torturam, escondem quando invadem a favela, agora ele tem uma dignidade, e não se entra na casa dele de noite, a casa que fica subitamente sendo dele, para levar dali algumas coisas, e levar também a mulher dele, ou talvez nem seja um desses que eles torturam, seja um religioso, um homem de bem, um homem tão de bem.

E é muito tarde, ela sente um sono impossível, uma vontade de não existir, o segurança pressente um desmaio dela e a firma pelo ombro, depois traz uma água, o segurança que pode ser que nunca tenha batido em ninguém, e ouviu a história dela inteira durante muitas horas meio sentado, meio de pé, e talvez comece a se odiar, e a odiar os homens, e à guarda civil, e à polícia, porque é difícil olhar aquele olho preto-azulado inchado de um soco que deve ter arremessado a cabeça dela no armário, um armário com as roupas de duas pessoas que vivem miseravelmente juntas, e esse lábio rompido, ela inteira rompida tentando aos poucos acreditar que ainda consegue ser alguma coisa se sair viva de tudo aquilo. O segurança traz água, e talvez diga que está tarde e que é melhor que é ela vá com eles pra esse outro lugar, só dormir, e amanhã cedo a repartição inteira estará aqui pra ajudar, e outras mulheres com os olhos assim, ele pode ter dito, vocês todas juntas na fila marcadas nos olhos, como se fossem um time, uma equipe de mulheres marcadas que vêm atrás das suas cirurgias, arrancar esse cancro de testosterona e ideias difíceis de serem domesticadas, um time inteiro, os olhos roxos parando aos poucos de chorar, visualizações de uma vida que seja parecida com uma vida, você volta amanhã com todo o time, e daí eles vão te levar, você vai ver, a polícia vai buscar tudo direitinho na sua casa, agora melhor dormir.

E talvez ela tenha pensado que dormir fazia pouco sentido se você não sabe o que vai acontecer amanhã, porque dormir é só uma preparação, uma pausa, para que o dia seguinte seja possível, mas ainda assim ela vai, e pode ser que o policial, ao ver o segurança com a mão no ombro dela e o copo d’água, pode ser que ele tenha achado que era até razoável passar na casa dela e pegar um par de coisas, o uniforme e as meias dos filhos que devem estar com a irmã dela, se ela tem uma irmã, esses filhos que é importante que amanhã tenham o uniforme pra não parecer que as coisas estão sendo feitas assim às pressas, no improviso, para não parecer que existe o medo. E pode ser que ela tenha entrado na viatura e, embora cercada de tantos homens indispostos, indispostos mesmo sendo março, mesmo sendo quase 8 de março e a cidade estar repleta de cartazes da semana da mulher,  talvez ela tenha aos poucos parado de chorar, e enfrentado a extrema solidão que é isso de precisar dos outros para exterminar um problema tão dela, um problema que mora na cama dela, que manipula as facas da cozinha dela, um problema que ela amou tanto, e que ainda faz tantas promessas, promessas que  depois mistura com ameaças, um amor desesperado e que é preciso muito cartaz e muito olho roxo pra entender que não é bonito, nem é o único.


E talvez aqueles três ou quatro homens nas duas viaturas tenham decidido, por fim, que era possível passar na casa dela, e quem sabe um deles tenha olhado pra trás e dito que ela podia abrir a janela se quisesse. E ela baixa o vidro, e a viatura com as luzes piscando atravessando as avenidas, trançando os carros na súbita pressa de um milagre que vai finalmente acontecer, e ela sente o impacto do banco nas rodas e das rodas nas lombadas do bairro, o carro com cheiro do ferro da grade atrás do assento, das algemas, cheiro de sangue velho, e põe o rosto pra fora e fecha os olhos pra sentir as luzes da viatura piscando por cima do inchaço azul como se fossem infra vermelhos raios lasers de cicatrização, e quando ela abrir os olhos talvez acredite que está acontecendo, que está começando alguma outra coisa, que é março, que é semana da mulher, e que todas as semanas deveriam ser da mulher, e que talvez de hoje em diante sejam. 

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