domingo, 22 de setembro de 2013

Janelas

As pessoas com suas janelas, é isso. As pessoas trazendo de tempos em tempos as suas janelas e depois levando embora, às vezes pra sempre, e a gente vai acumulando vistas de tantos bairros, tantas chuvas feias de cimento e trânsito, jogos de luz e sol que nunca mais a gente vê, vão ficando atrás dos olhos, cortinas pesadas cobrindo essas janelas que não tenho mais. 

Talvez se a gente tivesse mais cuidado e não fosse assim subindo tão logo nesses apartamentos e abrindo persianas e apoiando, parapeitos, camas, se a gente não fosse logo vendo o mundo assim da janela dos outros, enquadramentos, ventos, vizinhos, de noite no teto o desenho rítmico da sombra dos carros cruzando os fachos, faróis, se a gente não abrisse a janela e não quisesse de repente abri-la todos os dias, ver como amanhece essa vista todas as manhãs, o barulho dos ônibus, o apego. 

As janelas que muitas vezes eu busquei quando a vista de dentro era insuportável, ou quando já não tinha nada pra olhar, essas janelas de amplidão, fugas, saltos que nunca dei, eu que nunca soube ser ausência nem contemplação. Essas janelas que eu não vi mais e às vezes me pergunto como é que vendo todo dia o mesmo mundo na mesma altura as pessoas conseguem não virar uma só, como é possível continuar tão diferente, o que será que os outros olhos viam nas suas próprias janelas que eu nunca consegui ver. 

Quem é que um dia vai me devolver tanta vida, tanto mundo, prédio pássaro flor e chuva que me foram tapando, quem é que vai me devolver meu pulso apoiado firme no ferro gelado da varanda, a testa marcada da rede de proteção, quem vai me construir a maior janela do mundo e não vai fechar nunca. 

Mais uma janela nova que eu abro, visão que eu sei que logo vai sumir e ainda assim eu abro, pandora das dores do mundo, a janela com seus medos que eu não consigo sustentar, nem curar, e quanto mais eu olho mais os medos vão ficando meus, as dores, os mesmos desesperos no cálculo preciso da mesma vertigem, e eu sigo abrindo a janela até que ela já não abra, e pensando que talvez agora, de tanto ver o mesmo céu, perigosamente a gente os mesmos olhos, o mesmo olhar, e a mesma queda. 

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